O busílis do momento - entre os USA e o Irão - dá enjoo às mais robustas entranhas; agora há cessar-fogo, agora não há, agora vamos partir aquilo tudo, agora damos mais umas semanas, agora estamos mesmo à beira de um acordo, agora bombardeamos aqui e ali... Não há pachorra, as tretas sucedem-se à velocidade de escape.
O Trump quer acabar com a guerra? Quer, precisa baixar o preço dos combustíveis, dos fertilizantes, quer ficar bem na fotografia, ser O presidente americano que resolveu a ameaça iraniana. Os stocks de armamento estão baixos, o custo de vida altíssimo. Por outro lado as negociatas correm-lhe lindamente, dá-lhe imenso gozo ver a Europa em aflição perante uma crise de petróleo sem precedentes e ele com as cartas na mão. O Putin quer que a guerra acabe? É um 50/50... Sente falta dos mísseis iranianos mas tem exportado petróleo como há anos não conseguia, mesmo com riscos, mesmo à socapa - ainda hoje os franceses lhe arrestaram mais um petroleiro sancionado - e uma Europa em aperto é uma mais-valia considerável. O Irão quer acabar com a guerra? Quer, mais do que todos, mas não cede a sua autonomia; o Irão é o mais imperialista dos imperialistas, quando a América do Norte era um vasto vazio populado aqui e ali por tribos índias o Império Persa dava lições ao mundo
Porém nenhuma destas questões encerra o "nome do boi".
O "boi" chama-se Gaza.
O Irão quer englobar em qualquer acordo firmado com os EUA o fim dos ataques de Israel ao Líbano; Trump está-se a marimbar para o Líbano, mas Netanyahu não... Israel precisa crescer, geograficamente: O Líbano, a Cisjordânia, e até a Jordânia se a Europa deixasse.
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Netanyahu prometeu Gaza a Trump, uma prenda embrulhada em papel de ouro, com a garantia da sua segurança, para aí ser construído o império Trump, o Estado Trump, sustentado por uma Cidade-Estado tecnológica, embrião das mais inconfessáveis estratégias de Inteligência Artificial e com uma cripto-moeda própria.
Pronto.
Depois há tudo o resto: Putin aguarda que a Ucrânia seja votada ao abandono em tempo (que lhe seja) útil enquanto a Europa luta para se armar e estabilizar a inflação perante a crise petrolífera. A China vai semeando contactos e negócios enquanto os EUA se auto-isolam do Ocidente, e da NATO. A Europa está minada de coligações da rapaziada promovida e ajudada pela Rússia nas extrema-direita europeias
Então e por cá, pelo nosso cantinho à beira-mar plantado? Por cá não se faz política nem se olha para o país, faz-se estratégia partidária. Pior, não é só por cá... A União Europeia está debaixo de fogo enquanto segura pontas negligenciadas. O Reino Unido está na mesma onda, a Espanha nada nas mesmas águas, em França está prestes a recomeçar; governar é uma ideia ultrapassada, é preciso destabilizar, deitar por terra, enfurecer os povos - tornar o terreno fértil para extremismos.
Vale a pena falar disto? Disto tudo? É uma perda de tempo, o que "está a dar" são as patranhas mediáticas e os "factos" escandalosos que entretêm e revoltam as gentes
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