NUMA SÓ MENTE
Dia 20 de Janeiro de 2025, ainda não há 3 meses, Donald Trump foi empossado como presidente dos EUA. Nesse mesmo dia Trump assinou uma ordem executiva declarando uma emergência nacional na fronteira sul e deu ao Departamento de Defesa e ao Departamento de Segurança Interna 90 dias para ser apresentado um relatório conjunto sobre se deve ou não invocar a Lei da Insurreição.
Na altura ninguém falou nisto - leia-se imprensa e comentadores políticos - mas qualquer perspectiva de invocação da Lei da Insurreição é assunto que tem de ser tomado muito a sério, quer por existirem razões para tal, se for o caso, quer pelas razões camufladas que suportem tal invocação.
Neste caso não pode ser mais óbvio que as razões subjacentes a tal intenção em nada se prendem com "uma emergência nacional na fronteira sul", não se trata de imigração, trata-se de poder.
Este prazo de 90 dias termina a 20 de Abril.
Não foi por mero acaso que há uma semana, a última de Março, Trump se lembrou de começar a falar na possibilidade de um - inconstitucional - 3º mandato
A Lei da Insurreição, de 1807, dá ao presidente autoridade para colocar as forças armadas dos EUA em solo americano para suprimir rebelião ou violência doméstica ou para fazer cumprir a lei em determinadas situações. O estatuto implementa a autoridade do Congresso ao abrigo da Constituição para "providenciar a convocação da Milícia para executar as Leis da União, suprimir Insurreições e repelir Invasões". Isto significa tropas nas cidades, significa desautorizar os governadores de cada Estado federado, significa a suspensão dos direitos de protesto e suspensão da dissidência democrática - sob o falso pretexto de restaurar a "ordem".
A Lei da Insurreição não é lei marcial. "Lei marcial" é a vigência de um poder militar que assume o papel do governo civil numa emergência; a Lei da Insurreição permite que os militares prestem assistência às autoridades civis mas não que tomem o seu lugar. De acordo com a lei actual, o presidente não tem autoridade para declarar a lei marcial.
Trump está a preparar um golpe de Estado interno, já fez os ensaios durante o seu primeiro mandato e tem-se mantido aplicado no estudo de como aumentar e prolongar o seu poder, que pretende absoluto, tendo uma equipe de legionários satânicos a trabalhar o projecto desde bem antes de voltar a ocupar a Casa Branca
Em Junho de 2020, após o assassinato de George Floyd, milhões de americanos levantaram-se em protesto. Trump não se debruçou por um momento sobre os motivos dos protestos que se acenderam por toda a América, com particular incidência em Washington, levando-o a refugiar-se no abrigo subterrâneo da Casa Branca. Furioso por a sua atitude ter vindo a público quis invocar a Lei da Insurreição. Perante a hesitação dos militares em fazê-lo, Trump enviou forças federais para retirar de forma injustificada os absolutamente ordeiros manifestantes da Praça Lafayette para que ele pudesse atravessar a rua para ir ser fotografado a empunhar uma Bíblia - invertida (ele há coisas...) - em frente a uma igreja na qual não entrou. Não conseguiu disfarçar as trombas iradas por os generais não terem ido suficientemente longe. O general Milley, então Chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos disse, mais tarde, que se arrependeu mil vezes de ter acompanhado Trump naquela photo op ridícula, numa desajustada e egocêntrica demonstração de força.Ao assumir este novo mandato Trump certificou-se de que as chefias militares não hesitarão em seguir o seu comando
Desde que regressou ao poder, Trump expurgou o Pentágono de militares independentes, de oficiais de carreira que não lhe garantissem um apoio incondicional, os que sabem que os seus juramentos são para com a Constituição, não para com o presidente. Os seus lugares são agora ocupados por "lealistas". Pete Hegseth, ex-apresentador de um programa de fim de semana da FoxNews, é agora Secretário da Defesa com aquele mundo que é o Pentágono a seu cargo. Tulsi Gabbard, uma veterana de guerra admiradora de Putin, dirige todos os serviços secretos; Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, Gabbard defendeu a agressão russa: «Esta guerra e sofrimento poderiam ter sido facilmente evitados se Biden e Nato tivessem simplesmente reconhecido as legítimas preocupações de segurança da Rússia» (Twitter 2022). O vice-presidente J.D. Vance não faz segredo de que é a favor do uso da força militar contra americanos em solo americano. E estes são os que mais directamente estão relacionados com Defesa e Segurança interna, depois há a cáfila desmedida de almas negras e sedentas na mais próxima entourage de Trump.
A 19 de Março, estes três - Vance, Gabbard e Hegseth - encenaram uma sessão fotográfica na fronteira sul. Não foi uma visita de rotina, não foi um estudo de estratégia, foi uma encenação mediática
Porque é que o Vice-Presidente, a chefe dos serviços secretos militares e o Secretário da Defesa teriam de ir todos juntos à fronteira? Porquê fazer disso um espetáculo para divulgação nos noticiários e redes sociais?
Nada disto foi sobre a fronteira, é uma preparação, a criação de uma perspectiva trabalhada apresentando um "ponto de vista" focado no que se pretende divulgar lançando a base psicológica, emocional, para invocar a Lei da Insurreição. Estão a construir a narrativa: "Tínhamos de agir.", "Não tivemos escolha." "A crise é demasiado grande" e umas quantas outras falsas justificações que lhes ocorram e lhes pareçam convincentes. Foram lá para poderem lembrar que lá estiveram, que a situação é terrível, descontrolada, perigosíssima e requer acção imediata a "bem da nação"Lançado o medo, a "enorme crise" (lembro as "caravanas de criminosos" que estavam prestes a invadir os EUA em 2018...), criada a aceitação em parte significativa da população deixa-se "marinar". Lá para Junho, mês em que decorrerá a cimeira anual da NATO, Trump, o salvador, aparecerá com ar grave na televisão nacional e dirá que as cidades democratas estão a ser cercadas por "radicais" e "imigrantes ilegais". Assina a ordem de entrada em vigor da Lei da Insurreição. As tropas vão para as ruas de Atlanta, Chicago, Filadélfia. Os manifestantes são presos ao abrigo das "disposições de emergência”, jornalistas são detidos, contas em redes sociais desaparecem. Os imigrantes são levados para centros de detenção (a prisão de Guantanamo tem vindo a ser preparada para isso) A imprensa é mandada calar, o público é mandado calar. E tudo isto é legal.
Sim eu sei... É um exagero, que disparate... Ouvi isso várias vezes, de várias bocas sinceras quando, após Trump ter perdido as eleições em 2020, me atrevi a dizer que ele faria tudo para permanecer no poder, se conseguisse incitaria uma guerra cívil. O dia 6 de Janeiro de 2021, depois de vários ensaios em Estados federados democratas, esteve perto do golpe de Estado pretendido. Falsos eleitores colegiais tentaram levar falsos votos ao Capitólio, os vários discursos à turba que se dirigiu a Washington incitaram a tomada do poder pela violência; se em vez de Mike Pence o vice-presidente fosse JD Vance, Trump teria visto feita a sua vontade