Carta
aberta do Presidente da Ucrânia
ao
Presidente da Federação Russa
4
de Junho de 2026 - 21:20
Ao
Presidente da Federação Russa
Do
Presidente da Ucrânia
Quando
o senhor chegou ao poder na Rússia, há mais de 26 anos, muitas pessoas na
Ucrânia viram-no com bons olhos. Era assim. Mas isso agora é passado.
Agora,
a esmagadora maioria dos ucranianos vê com bons olhos a visita de nossos drones
de longo alcance à abertura do seu fórum em São Petersburgo, percorrendo uma
distância de mais de 1.000 Kms. Como o senhor bem sabe, essa distância
não representa o limite de nossas capacidades.
Durante
26 anos, a sua presença no poder mudou completamente a agenda das relações
entre a Ucrânia e a Rússia. De discussões sobre comércio e outros assuntos
civis, as nossas nações passaram a falar, quase exclusivamente, sobre ataques e
perdas.
O
senhor passou quase metade dos seus 26 anos de poder na Rússia travando uma
guerra contra a Ucrânia.
Independentemente
do que o senhor diga sobre a NATO, geopolítica ou a língua russa, esta guerra é
uma escolha pessoal sua — uma guerra sem uma causa real. É assim que a história
a lembrará.
Esses
anos poderiam ter sido muito diferentes.
Ouvimos
frequentemente que se sentem confortáveis com esta guerra. Claro que não; nos
casos em que se trata da segurança da sua residência em Valdai ou do seu
desfile em Moscovo. A própria vida é valiosa para vós
Mas
agora todos podemos ver que os russos estão finalmente a sentir-se cada vez menos confortáveis com esta
realidade — com o facto de a guerra
estar a ter consequências, cada vez mais negativas, para a Rússia.
Não
gostam dos nossos drones e mísseis.
Não
gostam da escassez de gasolina e dos preços em constante aumento.
Não
gostam das restrições constantes.
Não
gostam da sua intenção de lançar uma segunda onda de mobilização para expandir
a guerra noutra direcção na Ucrânia ou estendê-la contra outros países vizinhos
da Rússia.
Não
gostam do facto de que não haver um fim à vista para a sua guerra.
Sim,
ainda pode forçar os russos a viver desta maneira mas os seus recursos estão
diminuindo, significativamente.
Não
terá dinheiro ou capital político suficiente para continuar a comprar a lealdade dos russos como fez nos últimos 26
anos.
E
faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para garantir que o mundo ajude a trazer
esse momento.
Como
o senhor gosta de dizer, “precisamos analisar os números”.
Ontem,
recebi um relatório sobre as perdas do seu exército na frente de batalha na
Ucrânia durante o mês de Maio. Mais uma vez, o número ultrapassou 30.000
soldados russos mortos e gravemente feridos. Temos mantido esse nível mês após
mês, e temos vídeos que comprovam cada uma de suas perdas — estas não são
alegações vazias.
Sabemos
que 63% das suas perdas no campo de batalha correspondem a mortos, enquanto
apenas 37% são de feridos. No século XXI, nenhum exército pode se dar ao luxo
de sofrer esta proporção. E a percentagem
de mortos continuará a aumentar.
Não
é como se nós, na Ucrânia, estejamos preocupados com o destino dos soldados
russos depois de tudo o que a sua guerra trouxe ao nosso país.
Mas
eu me importo com os ucranianos.
Estamos
perdendo o nosso povo e cada perda é dolorosa. Mesmo quando a proporção de
perdas ucranianas, relativamente a perdas russas, é de um para cinco ou um para
seis, ainda assim importa e muito.
Também
importa que vocês adiem regularmente, a cada poucos meses, vossos próprios prazos para capturar as nossas
regiões — particularmente na região de
Donetsk. E também não a capturarão este ano.
Mas
nós, na Ucrânia, não queremos uma guerra permanente. Sabemos muito bem que a
vida sem guerra é infinitamente melhor. E queremos alcançar isso.
Estou
convencido de que a maioria dos russos também responderia positivamente a isso
— e o senhor sabe disso.
Muitos
não acreditavam que a Ucrânia seria capaz de resistir por tanto tempo. Vocês não
acreditavam. E aqueles que o aconselharam também não acreditavam. Isso foi um
erro.
Vocês
não esperavam uma resistência em grande escala da Ucrânia e não previram que as
coisas iriam chegar a este ponto. No entanto, aqui estamos nós — no quinto ano
desta guerra em grande escala.
Não
tenham medo de trilhar o caminho para fora desta guerra. Isso é o mais
importante que se exige agora.
A
Ucrânia preservou sua independência. E a preservará. Apesar de todas as
previsões em contrário.
Unimos
muitos ao redor do mundo para apoiar a Ucrânia e nos opor a vós. Encontrámos as armas e o financiamento de que
precisámos.
Recebemos
apoio. Vocês recebem sanções. E isso continuará até que haja justiça para a
Ucrânia — a justiça que buscamos e a justiça que pode ser alcançada.
Não
permitiremos que aqueles que tentam convencê-lo de que as sanções contra a
Rússia serão significativamente aliviadas e que o apoio à Ucrânia será significativamente
reduzido, sem que haja qualquer mudança significativa da sua posição em relação
à Ucrânia, tenham sucesso. O exemplo de Orbán mostra como aqueles que optam por
ajudar a Rússia na guerra contra nós acabam em desgraça.
A
Ucrânia suportou Invernos rigorosos enquanto vocês tentavam destruir nosso
sistema energético. Mantivemo-nos firmes —
mesmo na escuridão a resiliência dos ucranianos permaneceu intacta.
Levamos
a guerra ao seu território e você não
teria conseguido lidar com ela sem a ajuda da Coreia do Norte. Você é o
primeiro governante da Rússia a recorrer a Pyongyang em busca de auxílio.
E
hoje você depende totalmente da China — também pela primeira vez na história da
Rússia.
Você
acreditava que os ucranianos não teriam forças para se defender. No entanto,
hoje, nosso povo está ajudando nossos parceiros no Médio Oriente e no Golfo a
construir suas próprias defesas.
Você
esperava agitação interna na Ucrânia. Em vez disso, foram suas próprias
formações militares que orquestraram um motim contra si. O dia 23 de Junho
marcará mais um aniversário desse acontecimento, e o silêncio não apagará esse
facto da história.
E
agora seus funcionários, empresários e propagandistas olham-no com evidente
cansaço. O mundo inteiro apercebe-se
disso.
O
mundo não se cansou da Ucrânia, como você tanto esperava. Mas há um crescente
cansaço em relação à Rússia — mesmo entre aqueles, no resto do mundo, que o
ajudam a contornar as sanções e a manter sua economia à tona.
É
impossível não notar. Após 26 anos no poder, a idade começa a cobrar seu preço.
E com o tempo, o cansaço só aumentará.
Vimos
relatórios de inteligência que mostram que está a considerar planos para continuar a
guerra até 2027 e 2028. Também sabemos que espera que os mísseis balísticos
consigam o que tudo o mais falhou. Quer arrastar a Bielorrússia, ainda mais,
para esta guerra, e agora somos forçados a preparar-nos também para isso. Vemos
que está a tentar orquestrar algo em torno da Transnístria. Os seus
propagandistas ameaçam, de uma forma ou de outra, todos os países vizinhos da
Rússia. Quer realmente passar por tudo isso?
A
escolha agora é sua.
Basta
de guerra.
A
Ucrânia propõe o fim desta guerra.
Isso
deve ser feito honestamente, com dignidade e com garantias de que a guerra não
será reacendida.
Vemos
que os Estados Unidos estão totalmente focados na questão do Irão e seria
errado esperar até que a guerra na Europa volte a ser o centro de suas
atenções.
A
Ucrânia propõe o fim desta guerra por meio de um diálogo directo entre nós — e
vocês.
Proponho uma reunião.
Todos
ouviram os seus representantes, sorrindo, dizere que eu, supostamente, poderia
ir a Moscovo. Mas, depois destes 26
anos, não há nada que um líder ucraniano possa fazer na sua capital — assim
como não há nada que um líder russo possa fazer em Kyiv.
Há
países que tradicionalmente recebem líderes para resolver questões de guerra e
paz. Suíça, Turquia, os países do mundo árabe — muitos são capazes e estão
dispostos a sediar tal encontro
São
os líderes que resolvem as questões-chave. Sempre foi assim e sempre será.
Proponho
que marquemos uma data específica para um encontro.
Ouvimos
que lhe foi prometida, no Alasca, a resolução de certas questões relativas à
Ucrânia e à Europa. Mas você pode constatar que as questões ucranianas e
europeias não são decididas em Anchorage.
Outros
participantes acordados entre nós poderiam juntar-se ao processo bilateral
Tal
como a guerra está a ocorrer, a Europa e a Ucrânia precisam de garantias de
segurança, enquanto você também busca garantias de segurança para si, seria
lógico envolver aqueles que podem genuinamente servir como garantidores.
Acreditamos
que a Europa deve fazer parte deste processo — aqueles que realmente têm a
capacidade de influenciar a situação.
Acreditamos
também que os Estados Unidos devem fazer parte do processo. Isso é o que
poderia ajudar a moldar uma nova arquitetura de segurança para a nossa região.
Já
vivenciamos muitos acordos com a Rússia, incluindo os Acordos de Minsk, que
acabaram em fracasso. Por isso devemos primeiro encontrar respostas directas
entre nós para as questões que permanecem e não esconder questões difíceis
atrás de fórmulas, grupos de trabalho técnicos ou incontáveis horas perdidas
em diplomacia itinerante.
A
sua guerra separou permanentemente a Ucrânia e a Rússia.
A
linha de frente hoje é a linha de onde a diplomacia deve começar.
A
Ucrânia está pronta para um cessar-fogo total durante as negociações. Esta é a
prática padrão e os acontecimentos recentes em torno do Irão apenas reforçam
este ponto. Uma tentativa de estabelecer um silêncio real é a melhor maneira de
começar a conversar. Acreditamos que não seria apenas uma tentativa, mas um
cessar-fogo verdadeiro — se é isso que deseja.
Você
sabe que os Estados Unidos têm capacidade para monitorizar um cessar-fogo ao
longo da linha onde as hostilidades cessam.
A
Ucrânia está pronta para uma troca total de prisioneiros de guerra e isso
poderia ser um bom prelúdio para o fim da guerra.
Medidas
sérias devem ser tomadas para o retorno dos civis e das crianças que foram
levadas durante a guerra.
Precisamos
determinar que tipo de futuro aguarda as gerações de ucranianos e de russos que
virão depois de nós.
Se
não chegar à conclusão de que é hora de acabar com esta guerra, a Ucrânia
continuará lutando pela sua existência. Teremos aqueles que nos apoiam.
Mas
você também terá que lutar muito mais pela sua própria existência — não a da Rússia,
mas a sua. Isto não é uma ameaça minha ou da Ucrânia. É um facto da história
russa que você bem conhecem: quando a Rússia se cansa, a mudança chega.
Podemos
trabalhar para superar este cansaço.
Você
pode parar a guerra.
Memória
eterna a todos aqueles que perderam a vida nesta guerra.
Glória
à Ucrânia!
Volodymyr Zelenskyy
https://www.president.gov.ua/en/news/vidkritij-list-prezidentu-rosijskoyi-federaciyi-vid-preziden-104769