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O REI E O OUTRO

 Em Outubro de 2025 o rei Carlos III fez uma visita ao Papa no Vaticano  500 anos após o cisma que separou a Igreja Anglicana da Igreja Católica. Nessa altura escrevi por aqui:

... o Rei de Inglaterra visitou o Papa no Vaticano não é algo importante, nem novo. O que é importante, e marcadamente diferente, é que Carlos III fez aquilo que a Rainha Elizabeth não pode fazer, por razões várias: o segundo casamento cívil de Charles, herdeiro da coroa, os acordos com a Irlanda após a sua visita numa admirável missão de paz  atravessando a rua, literalmente, passando de uma Igreja para a Outra, Isabel II  não quis comprometer esta missão temendo que os católicos irlandeses vissem a sua aproximação ao Vaticano como uma interesseira manobra política. 

O que é importante é que o líder da Igreja Anglicana visitou o líder da Igreja Católica e ambos estiveram numa mesma missa celebrada pelo bispo de Roma, o Papa, e o Arcebispo de York.
Significativo é a permanência do líder da Igreja Anglicana simbolizada na cadeira decorada com o brasão do Rei Charles III, criada para permanecer na Basílica de São Paulo Fora-de-Muros. Charles, da Igreja Anglicana, parte mas a sua presença permanece.
Este acontecimento não é uma visita, é a abertura da porta da união de várias Igrejas, primeiro as cristãs e depois... E depois se verá.

Em Abril de 2026 desenrolaram-se os mais absurdos e sacrílegos insultos de Trump ao papa Leão XIV, aos católicos e até aos cristãos como um todo; não vale o tempo de referi-los, foram amplamente divulgados e estão ainda frescos na memória do mundo inteiro.
Outro dos alvos dilectos de Trump foi Keir Starmer, por  negar a participação das tropas britânicas na loucura que arrasta o mundo numa crise petrolífera e económica num Estreito de Ormuz que, de repente, a meio do decurso de negociações com vista a um tratado nuclear, foi fechado devido aos bombardeamentos no Irão e, presentemente, se encontra em vias de ser "privatizado" - por quem se verá...

Para os últimos dias de Abril estava marcada a visita de Carlos III a Washington. No UK houve uma contestação generalizada desta visita despoletados pela declaração de Trump afirmando que os britânicos não tinham prestado qualquer envolvimento no Afeganistão.  Uma enormidade mais do que ofensiva para os que por lá passaram, os que lá pereceram, as famílias de todos eles e o total desrespeito pelo esforço e empenho de um aliado de eleição diferente de todos os outros por alicerces históricos. Petições ao parlamento, apelos nos jornais para que a visita fosse cancelada, compreensivelmente. A questão terá sido abordada entre o primeiro-ministro e o rei... Ambos são figuras que evitam confrontos desnecessários, ambos fincam as suas inabaláveis posições quando o Reino Unido está em causa mas, enquanto Starmer procura ser tão absolutamente claro quanto a diplomacia lhe consente, Carlos III péla-se por um desafio que lhe permita exercer o seu loooongo, inter-continental , inter-cultural, inter-geracional soft power num misto de astúcia experiente e punhos de renda capazes de ferir os que lhe lancem um mal intencionado repto.

O primeiro acto da estratégia de Carlos decorreu mesmo antes da sua entrada em cena: enquanto o rei de Inglaterra, chefe da Igreja anglicana, viajava para os Estados Unidos, a arcebispo de Cantuária, Sarah Mullally, estava no Vaticano, no Palácio Apostólico - residência oficial de Leão XIV - num encontro privado entre ambos marcado pelo elogio ao Papa pela sua abordagem das "muitas injustiças no nosso mundo"; o Papa, por sua vez, prometeu continuar a trabalhar para superar as diferenças, "por mais intransponíveis que possam parecer". 
O ajuste temporal deste encontro não poderia ser mais claro

Ao segundo dia da visita do rei aos EUA e após uma passagem, na véspera,  "para tomar chá" na Casa Branca com Trump, acompanhados pelas suas respectivas mulheres - tornando óbvio não se tratar de uma "reunião de Estado" no mais estrito sentido do termo - foi o dia de Carlos III se dirigir ao Congresso, envergando um fato e uma gravata azuis... (Não, nada é ao acaso, o Speaker e o VP estavam ambos fardados de gravata vermelha). Fê-lo com finíssimo humor e a presença de um monarca de um país milenar visitando a casa de uns adolescentes intrépidos ( Two hundred and fifty years ago – or, as we say in the United Kingdom, just the other day – ) que fundaram a sua república sobre os alicerces de uma história sólida e - o que fez questão de frisar - de uma Magna Carta impar na qual se baseiam os ideais democráticos da Constituição americana. Por mais "distraído" que se possa ser seria muito difícil não compreender as várias alusões à fé, a todas e ao igual respeito devido aos que não a têm,  à liberdade, à democracia, à imparcialidade da Justiça e ao Estado de Direito, à dignidade humana. E duas menções ao nome de Kennedy, o outro presidente católico dos States para além de Joe Biden. Não deixou de lembrar a fundamental acção defensiva da NATO nos mais variados pontos do mundo, exemplificando com o Ártico - abstendo-se assim de referir a Gronelândia - incluiu a América, de passagem, e "porque" visitará Nova Iorque, falou do 11 de Setembro e da única vez que o artº 5º da Aliança foi activado, a favor dos EUA. 
Mas não se absteve de referir a Ucrânia, doa a quem doer. 

《Durante minha visita a Nova York, minha mulher e eu prestaremos novamente nossas homenagens às vítimas, às famílias e à bravura demonstrada diante de tamanha perda. Estivemos convosco naquela época e estamos convosco agora, em solene lembrança de um dia que jamais será esquecido.
Logo após o 11 de setembro, quando a NATO invocou o Artigo 5º pela primeira vez e o Conselho de Segurança das Nações Unidas se uniu perante o terror, atendemos à chamada juntos – como nossos povos têm feito por mais de um século, ombro a ombro, através de duas Guerras Mundiais, da Guerra Fria, do Afeganistão e de momentos que definiram nossa segurança partilhada. Hoje  essa mesma determinação inabalável é necessária para a defesa da Ucrânia e de seu povo corajoso.》
.../...
《As duas nações, quando alinhadas, podem realizar grandes feitos, não apenas para o benefício dos nossos povos, mas de todos os povos. .../... Os desafios que enfrentamos são demasiado grandes para que qualquer nação os suporte sozinha. Mas, neste ambiente imprevisível, a nossa Aliança não pode acomodar-se nas conquistas do passado, nem presumir que os princípios fundamentais simplesmente perduram. Como disse o meu Primeiro-Ministro no mês passado: a nossa é uma parceria indispensável. Não devemos desconsiderar tudo o que nos sustentou nos últimos oitenta anos. Em vez disso, devemos construir sobre o que já existe.》

Horas depois teve lugar o jantar de Estado na Casa Branca. Como convidado de honra de Trump, Carlos III não amoleceu, irrepreensivelmente amável e bem humorado tocou uma firme harmonia usando as mesmas teclas:
«Os nossos países têm a relação mais estreita de Defesa, Segurança e Inteligência que já se viu. Em duas guerras mundiais lutamos juntos para derrotar as forças da tirania. Hoje, enquanto a tirania ameaça mais uma vez a Europa, nós e nossos aliados  unimo-nos em apoio à Ucrânia para deter a agressão e garantir a paz.
O vínculo entre as nossas duas nações é, de facto, notável. Forjado no fogo do conflito, foi fortalecido por esforços conjuntos e aprimorado pelo profundo afecto entre os nossos povos. Testado repetidas vezes suportou o peso do nosso propósito comum e elevou a nossa ambição por um mundo melhor. Assim, ao renovarmos nosso vínculo esta noite, fazemo-lo com confiança inabalável na nossa amizade e no nosso compromisso partilhado com a independência e a liberdade.»

 Um rei britânico discursando de um pódio instalado por uma lei do Congresso, defendendo os limites do poder executivo, o pluralismo religioso, a NATO e a Ucrânia, perante um Partido Republicano que já não acredita em nada disso.

Sobre o discurso do rei ao Congresso Trump não conseguiu esconder o sentimento de pequenez que Carlos lhe provoca: “He made a great speech. I was very jealous.”

Trump pode comportar-se como se fosse dono do mundo mas nunca, nunca, será um Rei 

OS SACRÍLEGOS

PAPA LEÃO XIV
BAMENDA, Camarões, 16 de Abril


"Os mestres da guerra fingem não saber que basta um instante para destruir, mas muitas vezes uma vida inteira não é suficiente para reconstruir"

"Fecham os olhos ao facto de que bilhões de dólares são gastos em mortes e devastação, enquanto os recursos necessários para cura, educação e reconstrução não são encontrados em lugar algum."

"Ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para obter ganhos militares, económicos e políticos, arrastando o que é sagrado para as trevas e a imundície"

"É um mundo de cabeça para baixo, uma exploração da criação de Deus que deve ser denunciada e rejeitada por toda consciência honesta."

"O mundo está a ser devastado por um punhado de tiranos, mas permanece unido por uma multidão de irmãos e irmãs que se apoiam mutuamente! Olhemos nos olhos uns dos outros: somos um povo imenso!"

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E também há esta ternura:


.../...  a única cazão pela qual ele (o Papa) tem este trabalho é porque eu lho dei .../...Gostaria que pegasse nos seus pequenos biscoitos ou Wafers ou o que inferno (sic) seja que essa gente come e fossem para outro lado qualquer.../... Vou ordenar ao Todd Blanche que investigue a Igreja Católica imediatamente, estou certo de que poderá encontrar alguma coisa》

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O secretário de Defesa, Pete Hegseth, citou o versículo bíblico falso do monólogo de Samuel L. Jackson como Jules Winfield em Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, aparentemente acreditando que fosse completamente real.

O momento ocorreu durante um dos sermões de Hegseth no Pentágono, na manhã de quarta-feira.

«Eles chamam de CSAR 25:17, que eu acho que se refere a Ezequiel 25:17», disse Hegseth erroneamente, afirmando que o principal plano da operação de Busca e Resgate em Combate no Irão havia compartilhado o versículo com ele.

 A oração é CSAR 25:17 e diz: 

«O caminho do aviador abatido é cercado por todos os lados pelas iniquidades dos egoístas e pela tirania dos homens maus. Bem-aventurado aquele que, em nome da camaradagem e do dever, guia os perdidos pelo vale das trevas pois ele é verdadeiramente o guardião de seu irmão e o protector das crianças perdidas. E eu os vingarei com grande fúria e ira, aqueles que tentarem capturar e destruir meu irmão. E vocês saberão que meu indicativo é Sandy One quando eu exercer minha vingança sobre vocês.»

Quase todas as linhas da oração de Hegseth foram retiradas da icônica recitação de Ezequiel 25:17 por Jackson no filme de Tarantino, e não do profeta Ezequiel conforme ordenado por Deus.

O versículo original da Bíblia realmente diz:

«Executarei grande vingança sobre eles com furiosas repreensões; E eles saberão que eu sou o SENHOR, quando eu exercer a minha vingança sobre eles.»

A linguagem floreada, as alusões à destruição do mal — tudo vem de do filme de Tarantino.

Como se não bastasse, Hegseth deu seu próprio cunho a um versículo "bíblico"que já era falso, embora aparentemente ele o ignorasse,  Compare-se o a versão de Hegseth com a versão de Pulp Fiction (video abaixo):

«O caminho do homem justo é cercado por todos os lados pelas injustiças dos egoístas e pela tirania dos homens maus. Bem-aventurado aquele que, em nome da caridade e da boa vontade, guia os fracos pelo vale das trevas. Pois ele é verdadeiramente o guardião de seu irmão e o protetor das crianças perdidas. E eu me vingarei com grande fúria e ira daqueles que tentarem envenenar e destruir meus irmãos. E vocês saberão que eu sou o Senhor quando eu exercer minha vingança sobre vocês.»

Coisas que acontecem quando uma besta megalómana e egocêntrica nomeia  um alcoólico belicista perdido num programa de fim de semana da Fox News para secretário de Defesa do mais poderoso exército do mundo. 

Ninguém achou por bem dizer-lhe que o versículo que ele interpretou de forma tão poética é uma blasfêmia? Será que alguém sabia? Será que foi avisado mas não se importou, achando que "a coisa" passaria? Essa demonstração de ignorância religiosa ocorre na sequência dos ataques de Trump ao Papa Leão XIV por expor a guerra por aquilo que ela é criticando asperamente a evocação de "guerra santa"

Este senhor Vice-Presidente é o que repreendeu a compreensão  teológica do Papa depois de o pontífice ter afirmado que Deus não abençoa quem lança bombas.

É a esta gentalha que detém o mundo nas mãos, literalmente

SEM LIMITES

 

Cito  algumas linhas de um discurso de Trump no domingo, mais não cito porque mais não merece

«Leo deveria estar grato porque, como todos sabem, ele foi uma surpresa chocante. Ele não estava em nenhuma lista de candidatos a Papa e só foi colocado lá pela Igreja porque era americano, e eles acharam que essa seria a melhor maneira de lidar com o presidente Donald J. Trump. Se eu não estivesse na Casa Branca, Leo não estaria no Vaticano.»

«Leo should be thankful because, as everyone knows, he was a shocking surprise. He wasn’t on any list to be Pope, and was only put there by the Church because he was an American, and they thought that would be the best way to deal with President Donald J. Trump. If I wasn’t in the White House, Leo wouldn’t be in the Vatican,»




Após o discurso contra o Papa Leão XIV na noite de domingo, Trump publicou no Truth Social  uma imagem, gerada por inteligência artificial, na qual aparece como Jesus Cristo  impondo a mão sobre um doente (quiçá terminal) impondo-lhe a Luz da vida sob estranhas figuras que parecem representar um "exército celestial".
A imagem fala por si

Quando os loucos não têm  limites há que lhos impor, em todas as situações absurdas que cria. A impunidade gera o caos


HUNGRIA, A SEGUNDA LIBERTAÇÃO

 

O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, reconheceu a derrota nas eleições parlamentares, pondo fim a seus 16 anos no poder, e congratulou Péter Magyar, líder do partido de oposição de centro-direita Tisza.

Com quase 90% dos votos apurados, a autoridade eleitoral afirma que o partido Tisza, da Hungria, deverá garantir dois terços dos lugares no parlamento.

É difícil saber como a Hungria conseguirá evoluir, sair da teia de corrupção em que foi mergulhada; muitos e importantíssimos lugares-chave estão ocupados por amigalhaços de Orbán, "funcionários" de Putin, propagandistas de Trump - os três grandes derrotados desta noite. 

Pior não será por certo, na Ucrânia respira-se de alívio, na Europa tem-se menos uma das muitas preocupações.

Os húngaros disseram "sim à Europa" com este voto, afirma Magyar.

O novo governo tem uma grande tarefa pela frente, diz ele à enorme multidão, pedindo que celebrem pacificamente esta noite, antes de começarem a "curar" o país amanhã. Também pede a  Orbán que não tome nenhuma medida, entre agora e a sua saída formal do cargo, que possa obstruir o trabalho do novo governo quando este for formado.

Ciente da "máquina" montada por Orbán que terá de enfrentar diz que os "fantoches" do governo cessante têm de sair e que as Instituições do Estado precisam mudar. Promete restaurar os mecanismos de controle e equilíbrio, e a democracia húngara.

Enquanto Magyar fala, a multidão grita "Europa". 

Que brilhe a luz.






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"UMA CIVILIZAÇÃO MORRERÁ ESTA NOITE"

 Ainda não há 10 anos - cumprem-se a 9 de Novembro próximo - Trump foi eleito, pela primeira vez, presidente dos EUA; para muitos, nos EUA e no resto do mundo, foi o anúncio de uma época de obscurantismo, inimaginável.

Há 10 anos a maioria das não admitiria ver os EUA  apoiarem, de forma mais evidente ou mais sub-reptícia, a invasão criminosa e injustificável da Ucrânia pela Rússia

Há 10 anos pareceria absurdo admitir que a Rússia estava a apoiar e a subsidiar os partidos de extrema-direita europeus.

Há 10 anos era impensável presenciar uma violenta tentativa de golpe de Estado palaciano, como o de 6 de Janeiro de 2021,  preparado pelo presidente dos EUA e os seus acólitos, tentando permanecer no poder após perder as eleições de 2020

Há 10 anos ninguém acreditaria que um homem, ignorante, mentiroso, corrupto e doentiamente egocêntrico - sujeito a dois "impeachments" no Congresso e salvo ambas a vezes por um senado invertebrado - pudesse ser reeleito, por mais 1,05% - 4 anos depois.

Há 10 anos... O absurdo, perde-se no número de ocorrências impensáveis, de factos "impossíveis".

Há 10 anos ser-me-ia inacreditável se me mostrassem uma projecção do futuro em que me visse a dar razão ao Irão sob um injustificado ataque americano

Hoje, dia 7 de Abril de 2026, não sei o que se irá passar dentro de horas sob os céus do Irão; duvido que o próprio Trump tenha, horas antes, muitas certezas 

Dentro de horas... Mas antes destas horas passarem há algo que já não se pode apagar: a declaração de intensões de Trump

"Uma civilização inteira morrerá esta noite,
para nunca mais ressurgir"

Não consigo classificar, adjectivar, esta declaração, aconteça o que acontecer. No que concerne à intenção declarada, a única coisa que distingue Trump de Hitler é a pratica do poder que detém, esperemos.

Há dois dias, na sua mensagem pascal, horas depois de o Presidente dos EUA ter publicado que “uma civilização inteira morrerá esta noite”, o Papa Leão XIV classificou  as ameaças contra o povo do Irão como  «verdadeiramente inaceitáveis». Ao sair de Castel Gandolfo declarou: 

«Certamente há questões de direito internacional aqui mas há muito mais. É uma questão moral, pelo bem do povo inteiramente. Procurar sempre a paz e não a violência, rejeitar a guerra, especialmente uma guerra que muitas pessoas disseram ser uma guerra injusta que continua a escalar e que não está a resolver nada.”
“É também um sinal do ódio, da divisão, da destruição de que o ser humano é capaz, e todos queremos trabalhar pela paz»
Anteriormente havia dito à CNN que esperava que Trump estivesse à procura de uma saída para acabar com a guerra com o Irão e apelou aos líderes do mundo para regressarem à mesa para o diálogo.

Colou-se-me uma pergunta no pensamento que não consigo rejeitar: Quem julga Trump que é para se outorgar o direito de aniquilar uma civilização inteira? Não está em causa se o faz ou não, está em causa o que declarou que fará

No Irão vivem mais de 89 milhões de pessoas, filhos de uma civilização milenar; os povos seguem os seus cursos e não há regimes eternos, sejam quais forem. O que está dentro da cabeça de Trump? Na cabeça, porque na alma está um buraco negro de onde não há Luz que escape

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Sobre a mesa da Sala Oval está uma proposta iraniana que  consiste em 10 cláusulas, incluindo o fim dos conflitos na região, um protocolo para passagem segura pelo Estreito de Ormuz, a suspensão das sanções e a reconstrução. 
Detalhes sobre as 10 cláusulas não foram publicados.
Falando aos jornalistas sobre o plano do Irão, Trump disse: "Eles fizeram uma ... proposta significativa. Não é suficiente, mas deram um passo muito significativo. Veremos o que acontece.". 
Claro, nada é suficiente, como o Acordo Nuclear com o Irão não foi. Suficiente só será o que lhe garanta a promessa de Netanyahu de lhe entregar a "Gaza Dourada" e a segurança desse resort privado.

Já depois destas declarações publicou na sua rede social Truth Social, Trump ameaças, expressas em profanidades, de atacar a infra-estrutura civil do Irão, incluindo pontes e centrais eléctricas se o Estreito de Ormuz não for totalmente reaberto. Crimes de guerra sobre os quais Trump já disse não lhe oferecerem preocupações; também não preocupam Putin nem Netanyahu.


«Terça-feira será o Dia da Central Eléctrica e o Dia da Ponte, tudo num só, no Irão. Não haverá nada igual!! Abram a F*** do Estreito, seus bastardos tarados, ou viverão no Inferno – VÃO VER! Louvado seja Allah»

O que passaria na cabeça dos nacionalistas cristãos, base de sustentação de Vance e Trump, se Obama alguma vez tivesse dito "Louvado seja Allah" ? Pois... mas no domingo de Páscoa, Obama, e a sua família não estavam em congregação com os nacionalistas auto-denominados cristãos, estavam na Igreja de St. John em Washington D.C.  a um quarteirão da Casa Branca,  paróquia histórica frequentemente visitada  por Obama e por vários presidentes anteriores.
Obviamente não estou a inferir que Trump seja adorador de Allah, Trump é uma besta com fé em si mesmo que, segundo as suas palavras, segue a sua própria moral e só. Não menos óbvio é que, se tiver tempo, rezará a todos os deuses à hora da sua morte, aterrorizado pela ideia do que o possa esperar do lado de lá, onde dinheiro, poder e influência não lhe podem valer.

Olhando a "bola de cristal"... Trump vai atacar o Irão? Vai, mas não como diz que atacará, há-de provocar explosões "cinematográficas" que mostrem como ele é poderoso e irrascível, nada mais 
Um semi-acordo aparecerá mesmo a tempo... Não sei, digo eu... 
Dentro de poucas hora saberemos.

RENTABILIZAR O IRÃO EM NOME DA NOVA GAZA

 

No 4° dia após o ataque ao Irão, já lá vão uns quantos, escrevi aqui:

A Rússia vê-se em dificuldades face ao fornecimento de armas vindas do Irão mas..., altamente dependente das exportações de petróleo, não verá com maus olhos tão retumbante crise petrolífera; o conflito pode acabar enriquecendo o Kremlin.

Um leitor assíduo deste blog, que não conheço pessoalmente mas que, com frequência, envia comentários aos posts publicados, escreveu-me assim:

"... com as tarifas comerciais que o Trump aplicou não estou a ver quem é que desejará agravar mais os encargos violando as sanções de importação do petróleo russo"

 Esta "credibilidade" seria um factor a considerar num contexto normal, com um presidente dos EUA minimamente normal. Não é o caso.

Respondi-lhe:

A ingenuidade do seu óbice será provavelmente testemunho de uma mente de boa-fé, não se aplica a Trump nem a Putin. Verá quantos poucos dias decorrerão até que Trump levante "temporariamente" as sanções petrolíferas à Rússia 

Não me acreditou...

A 14 de Março, dia a seguir a ter levantado as incómodas sanções,  Trump decididiu o começar o bombardeamento da ilha de Kharg, porto marítimo de exportação de petróleo a cerca de 25km da costa do Irão facilitando, com bons proveitos comerciais, a ancoragem de petroleiros de grande porte.  A ilha abriga as mais importantes infra-estruturas petrolíferas do Irão: é o terminal de uma rede de pipelines dos vários campos de petróleo do Irão e tornou-se o "armazém" de crude e de produtos refinados.

Após o primeiro bombardeamento, dirigido ao heliporto e às defesas aéreas – não danificando infra-estruturas petrolíferas, por certo mais na esperança de uma herança do que por respeito aos inúmeros avisos sobre o efeito que tal demonstração de mau-génio teria nos mercados energéticos mundiais – o Irão explicou-lhe  muito bem explicado que o bombardeamento da ilha de Kharg levará à destruição das estruturas petrolíferas dos países do Golfo Pérsico. Putin sorri.

Depois do êxito militar na Venezuela seguido de uma negociação com a espertíssima e experiente Delcy Rodríguez, a presidente interina que por lá ficou à espera que a crise passe, Trump, o super-trump, convenceu-se de que,  uma vez derrubado o Ayatollah, uma Delcy iraniana brotaria das ervas queimadas de Teerão ou, melhor ainda, o povo aclamaria o regresso de um Palahvi com a bandeira dos States no bolso da carteira, um Palahvi que só agora se lembrou de elevar a voz contra os horrores a que tem vindo a ser submetido o seu povo ao longo de décadas

O que Trump conseguiu não é uma Delcy, é um Kim Jong-un em embrião. Ouvem-se na bancada republicana vozes de "apoiado" e "muito bem", quando em público. Os militares não batem palmas.

Os militares avisaram Trump, os líders europeus avisaram Trump, os briefings de Inteligência (que o presidente não lê) avisaram que o Irão iria fechar o estreito de Hormuz, que seria necessário ponderar as consequências do ataque, estabelecer estratégias para lidar com a situação, prevenir um caos energético e económico... Trump não quis saber, não acreditou no óbvio, prosseguiu com a sua a sua habitual estratégia do "logo se vê", "I'll think of something"

A 8 de Março, Trump escrevia um ressabiado "bilhetinho"  ao primeiro-ministro do Reino Unido que destacou dois porta-aviões para defender Chipre mas não para o Golfo Pérsico : "Não precisamos de gente que se junte a guerras que já ganhámos".

No dia 10 fez uma re-edição da ameaça dedicada a Kim Jong-un durante o primeiro mandato, quando lhe prometeu "Fire and Fury como nunca se viu"; desta feita dedicou o fogo e fúria ao Irão SE fecharem o estreito de Ormuz.  - Se??? -   A 10 de Março? Em que planeta é que este animal tem estado desde 28 de Fevereiro?

Na sexta-feira, 27 de Fevereiro, quando terminaram as conversações com vista a um acordo entre americanos e iranianos - que, supostamente, continuariam na segunda-feira seguinte, dia 2 de Março - os iranianos estavam mais do que a postos no Estreito, não é preciso ser bruxo, o semblante de Kushner não engana um tonto; ao primeiro BUM, na manhã de 28, acabou-se o trânsito. SE fecharem o Estreito o estreito fica fechado, fim de papo.

Depois... Depois vieram falinhas mais mansas, ah e tal,  "Não precisamos de gente que se junte a guerras que já ganhámos" mas é bom que os europeus, o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália., mandem as suas frotas para escoltar os petroleiros na passagem de Ormuz porque nós não damos conta do imbróglio.

Em 2019, Ilan Goldenberg, assessor para a política do Médio Oriente de Obama e líder da equipa do Departamento de Defesa sobre o Irão, alertou para que se ocorresse uma guerra contra o Irão, "serão certos os ataques a aliados dos EUA na região, o encerramento do Estreito de Ormuz, combates no Líbano entre Israel e o Hezbollah. Os ataques iranianos poderão fazer os preços globais do petróleo disparar durante semanas ou meses, talvez para 150 dólares ou mais por barril"

Pois... Querido Trump, o imbróglio é teu, tu o criaste, nem um aviso aos teu aliados, não ouviste qualquer opinião alheia para além da do teu companheiro de negócios israelita. Existiam argumentos de peso para não se fazer o que fizeste, estão à vista, não eram, como disseste, uma questão de cobardia... Tu não és corajoso, és um egocêntrico ignorante e amoral. Para além dos mais imediatos efeitos, económicos e energéticos, partiste o ovo da serpente: um regime no Irão ainda mais radicalizado, a ascensão, descontrolada internamente, do poder militar - tropas formatados desde meninos para a feroz e irracional defesa do regime teocrático -  e uma maior convicção de que é necessário armamento nuclear para sobreviver. Os que queriam negociar estão mortos, por muito maus que fossem eram mais racionais e pragmáticos do que estes. Quem lhes poderá dizer que não têm razão? Por que iriam acreditar? Kim Jong-un não acreditou, riu-se das ameaças, das "cartas de amor" de Trump e continuou para bingo. Do seu ponto de vista, está coberto de razão

Perante o "desembrulha-te sozinho" como resposta generalizada por parte dos aliados Trump, em óbvia fúria, joga uma carta que não tem: ameaça abandonar a NATO

«Os Estados Unidos foram informados pela maioria dos nossos “Aliados” na NATO que não querem envolver-se na nossa Operação Militar contra o Regime Terrorista do Irão, no Médio Oriente, isto, apesar do facto de quase todos os países concordarem fortemente com o que estamos a fazer, e de que não se pode, de forma alguma, permitir que o Irão possua uma Arma Nuclear. No entanto, não estou surpreendido com a acção deles, porque sempre considerei a NATO, onde gastamos centenas de biliões de dólares por ano a proteger esses mesmos países, como uma via de sentido único — Nós protegemo-los, mas eles não farão nada por nós, particularmente, em tempo de necessidade. Felizmente, dizimámos o Exército do Irão — A sua Marinha desapareceu, a sua Força Aérea desapareceu, a sua Defesa Anti-Aérea e Radar desapareceram e, talvez, o mais importante, os seus Líderes, praticamente em todos os níveis, desapareceram, nunca mais nos ameaçando -, aos nossos aliados do Médio Oriente, ou ao Mundo! Pelo facto de termos tido tanto Sucesso Militar, já não “precisamos”, nem desejamos, a assistência dos países da NATO — NUNCA PRECISÁMOS! Igualmente, do Japão, Austrália ou Coreia do Sul. De facto, falando como Presidente dos Estados Unidos da América, de longe o País Mais Poderoso em Qualquer Lugar do Mundo, NÃO PRECISAMOS DA AJUDA DE NINGUÉM! Obrigado pela atenção a este assunto. Presidente DONALD J. TRUMP»

Desde o seu primeiro mandato que Trump tem ameaçado retirar-se da NATO, ordens são ordens... No final de Janeiro último, em Davos, durante a presença dos media às declarações conjuntas com o secretário-geral da NATO, fez questão de afirmar que duvidava da ajuda da NATO aos EUA caso fossem atacados. Mark Rutte, o conciliador, não lhe achou graça, lembrou a única vez que o artº5º foi evocado... E, tenhamos presente, os EUA não foram atacados. Os EUA atacaram um Estado soberano, o 2º desde o início de 2026, quando decorriam conversações com vista a um acordo - porque o acordo que existia foi siderado por Trump. Que esses Estados fossem (sejam) liderados por facínoras é outra questão, estão por aí facínoras de alto calibre que Trump defende e ajuda, está entre pares.

Mas... Retirar-se da Nato significaria, só assim em duas linhas,  perder bases militares estratégicas fundamentais, significaria o agravamento da já complicada clivagem dentro do partido republicano. Um novo impeachment paira sobre a sua cabeça e isso horroriza-o.

Trump tenta acabar a guerra, declarar vitória, objectivos cumpridos. Netanyahu telefona-lhe, nem te passe pela cabeça! O seu sinistro genro, o silencioso Kushner, que apresentou em Davos o plano "Nova Gaza", um projecto de reconstrução pós-guerra de US$ 25 bilhões que visa transformar a Faixa de Gaza numa faixa turística e comercial, um "centro de dados "e, em algumas propostas, a realocação de moradores para áreas sofisticadas denominadas "Nova Rafah", concebida para promover uma economia de livre mercado, baseada numa determinada cripto-moeda, um "país" privado gerido por Inteligência Artificial. Um projecto demoníaco, na base da fundação do "Board of Peace", que faz George Orwell parecer um escritor de contos infantis. O seu sinistro genro, o silencioso Kushner, o mesmo que com Witkoff, o amigalhaço de Putin esteve na última reunião para o acordo, horas antes do Irão ser atacado e que de novo serão destacados para novas negociações para por fim à guerra... Os iranianos não estarão interessados, vão espremer a situação até ao desespero, eles tinham o queijo e Trump entregou-lhes a faca.

Acabar com os ataques ao Irão? Mesmo que eles libertem Ormuz? Está um país privado em jogo, quem é que irá para a "Nova Gaza" com um Irão descontrolado ali tão perto? Kushner telefona ao seu grande amigo e financiador (US$6.2biliões) com uma Camelot da IA sobre a mesa dourada não há judeus e sauditas, há dinheiro, poder e interesses). Salman telefona a Trump: os teus aliados não te ajudam mas podes sempre contar com a minha amizade, apoio e tropas. Trump, amigo, a Arábia Saudita está contigo.
E Trump destaca tropas para seguirem para o Médio Oriente. Invasão ou não, heis a questão... Uma invasão é altamente provável... Encurralado entre uma América que se afunda e os amigos que arranjou poderá suspender a guerra por dias, reorganizar tropas e rezar aos seus demónios para que o safem desta, de mais esta.

É absolutamente claro que a guerra Israelo-americana não "está ganha" nem o regime está derrubado, nem foram eliminadas as capacidades convencionais do Irão, a prova é que o Estreito continua controlado por Teerão e instalações vitais para o comércio global de energia continuam ameaçadas em todo o Golfo Pérsico. 
Os Estados Unidos podem optar por intensificar o conflito, potencialmente usando forças terrestres para tomar instalações e território iranianos ou apoiando forças separatistas em todo o país. Os riscos dessas formas de escalada superam em muito seus possíveis ganhos, se falarmos de ganhos confessos e nos interesses dos EUA, enquanto Estado, e da economia global. Mas há outros ganhos, outros interesses...  Presentemente, com a economia global instável e o Médio Oriente em convulsão, a melhor opção para Trump é não se comprometer ainda mais com uma guerra que despoletou em plena ignorância e em "logo se vê", até ele percebe que precisa, rapidamente, de encontrar uma saída.”

Depois de ter dado ao Irão um prazo de 48 horas para abrir o Estreito de Ormuz, Trump cedeu, alegando que seus representantes de confiança, Witkoff e Kushner, claro, haviam iniciado uma comunicação encorajadora com os líders iranianos, falou em  cinco dias de conversações que poderiam pôr fim à guerra. Os iranianos negam que tenham existido quaisquer conversações. Táctica para acalmar os mercados? É possível... mas curto
Tudo depende dos interesses que deseja fazer prevalecer dentro da teia em que ele mesmo se emaranhou

Do que vem a público nos media americanos em pouco, muito pouco, se pode confiar. Ainda que restem media que queiram informar com verdade, as informações que recebem da administração Trump, mais concretamente do Pentágono são de um baralho com cartas escolhidas e marcadas.

O Pentágono dita discretamente às empresas de satélites espiões o que dizer sobre a guerra com o Irão, censurando cirurgicamente o que o público deve "saber".
A título de exemplo: as 13 bases americanas existentes no Médio Oriente foram abandonadas; por quê? Porque foram bombardeadas pelo Irão e se houver baixas não se pode esconder. Os militares dessas bases estão alojados em... hotéis
Os navios que aparecem na FoxNews a passar o Estreito "demonstrando a vitória dos EUA? São imagens editadas de navios iranianos
Fontes militares  e de Inteligência, há dias numa reunião privada em Washington, disseram que o nível de sigilo em torno dos detalhes da guerra com o Irão é imprecedente; quase não há dados divulgados sobre o nível de bombardeamento, os alvos atacados ou efeitos avaliados. O governo Trump está a tentar controlar, ainda mais, o que as os meios de comunicação privados dizem num esforço de bastidores que não havia ocorrido anteriormente.

Assim que os bombardeamentos americanos e israelitas contra o Irão começaram, logo a 28 de Fevereiro, o Pentágono emitiu "orientações" para os operadores de satélites sobre qual “linguagem e termos evitar” ao descrever os danos causados ​​pelo Irão nas bases americanas no Oriente Médio, de acordo com uma cópia das orientações que foi "desviada".

"Evite-se linguagem que implique avaliação de danos de batalha (ADB) ou conclusões operacionais", diz um slide (fotos abaixo) produzido pela Força Espacial dos EUA. O documento continua alertando contra o uso de frases como “Alvo destruído”, “Alvo eliminado” e “Estrutura inoperante”.

As orientações incluem os seguintes exemplos do que dizer e do que não dizer.
Exemplo incorrecto: “O ataque destruiu com sucesso as instalações.”
Exemplo correcto: “As imagens mostram a estrutura em grande parte desabada, com escombros cobrindo a área onde o prédio estava localizado.”

Cerca de 100 empresas americanas possuem licença do governo para operar seus próprios satélites de reconhecimento, uma indústria que movimenta entre US$ 6 e 7 bilhões por ano e atende clientes militares e comerciais com serviços que vão desde a detecção de metano até a avaliação de danos causados por bombas. A maior parte da receita dessas empresas provém das forças armadas e do governo federal. As "quatro grandes" — Maxar Intelligence, Planet Labs, BlackSky Technology e Spire Global — operam cerca de 350 satélites de imagem e interceptação.

Embora a "orientação" do Pentágono para as empresas comerciais seja apresentada como uma recomendação, as empresas cumprem-na porque seus contratos com o governo as levam a não morder a mão que as alimenta.  As empresas privadas tornam-se mais um "colaborador/propagandista" controlado e auxiliar da máquina de inteligência dos EUA, uma tendência que tem vindo em crescendo desde o ano passado
A Força Espacial emitiu esta orientação, posteriormente "desviada" dos canais restritos, para praticamente todas as empresas de satélites comerciais na forma de solicitações por escrito, segundo as mesmas fontes. Isso inclui não apenas empresas que actuam na área de informações confidenciais mas também aquelas que trabalham na colecta e distribuição de materiais públicos ou de "código aberto" que informam os media, os centros de pesquisa e outros grupos.

Desde Fevereiro, quando a Anthropic se recusou a permitir que seu modelo de IA "Claude" seja usado em certas missões que envolvem vigilância doméstica em massa e armas autónomas, o Pentágono ameaçou invocar a Lei de Produção de Defesa para forçar a cooperação da empresa. Segundo as mesmas fontes militares, "Depois da Operação Anthropic, ninguém está interessado em entrar em lutas com o governo, é também mais uma tentativa de fazer com que as coisas sobre a guerra pareçam menos más do que realmente são."
A Planet Labs, uma das maiores empresas comerciais de imagens de satélite do mundo, bloqueou o acesso público a imagens de alta resolução de toda a zona de guerra do Irão e, a 28 de Fevereiro quando do início do ataque, impôs um atraso de 96 horas; posteriormente, a  10 de Março, estendeu o bloqueio a 14 dias  A empresa alega que a decisão foi tomada após consultar especialistas militares e de inteligência. Consultar...

No resto do mundo as informações estão também contaminadas porque a maioria provém de fontes americanas. O que se sabe sobre a guerra no Irão é, na sua maior parte, apenas "o que se julga que se sabe", temperado com factos, imagens e análises de "outros satélites"; tenhamos a noção de que, neste caso particular e ainda mais do que em todos os outros, a desinformação trumpisticamente fabricada é o que preenche os noticiários, as "Breaking News" e as mais fiáveis agências de informação.

As "notícias" pouco interessam, atentemos nos desenvolvimentos construindo um puzzle, peça a peça, juntando as peças mais diversas, as americanas privadas, as israelitas, as russas, as sauditas, o Irão é apenas o eixo


A INTERNET É TRAMADA...

 A Internet guarda tudo, por temas, por anos, por nomes, pelas mais diversas classificações; é só escrever o que se procura e fazer "enter". Fui buscar umas memórias, só 3, por hoje.

Donald-Dor-de-Corno falando de Obama 
Donald candidato presidencial em 2016 
Bibi-o-Monótono desde 1979


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COMO É POSSÍVEL?



OS TERRORISTAS E OS TENEBROSOS

O Irão é um Estado terrorista; É uma teocracia radical(íssima) islâmica, uma das duas maiores autocracias do mundo - a par com a Coreia do Norte - de onde, um aiatolá bom é um aiatolá morto.

Esta não é uma visão cristã, ou budista, ou hinduísta; esta não é uma visão democrática, ou de esquerda ou de direita; esta é uma visão humana de acordo com os Direitos Humanos fundamentais, de acordo com o Direito Internacional. Em caso de dúvida pergunte-se ao povo iraniano.

Partir daqui para: "Se o regime dos aiatolás é mau, então Trump deve ser bom porque o quer derrubar", não só é um grande passo como é um passo em falso; tanto quanto "Hitler era mau, logo Estaline devia ser bom" (a ordem dos personagens é arbitrária). Porém... Ó céus! Porém há uma quantidade crítica de gente que "pensa" assim, a preto e branco sem conseguir ir além da mais básica dicotomia. Para esses talvez seja bom deixá-los a pensar sobre uma outra dicotomia básica, se conseguirem: "O inimigo do meu inimigo nem sempre é meu amigo."

O ataque dos EUA ao Irão partiu de dois pressupostos:
- Trump atacou o Irão porque este está muito perto de possuir armamento nuclear
- Trump atacou o Irão para levar à deposição do regime oferecendo uma oportunidade de democracia ao povo iraniano

Serão pressupostos reais?

Que fique muito claro desde já que nada do que aqui trago envolve qualquer defesa do Irão - O regime do Irão é indefensável. Ponto.

Posto que  "O inimigo do meu inimigo nem sempre é meu amigo": conceitualmente o presidente dos EUA  deve ser responsável e fiável no que concerne às suas alianças e política internacional que envolve a estabilidade do mundo. É a total negação deste conceito que envolve o que aqui trago, nada mais.

Vamos por partes, comecemos pelo princípio 

20 Julho 2015 - Assinatura do Acordo JCPOA

1-   O Joint Comprehensive Plan of Action - JCPOA - vulgarmente designado por Acordo Nuclear com o Irão – é um acordo multilateral entre o Irão e o grupo P5+1 (Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha juntamente com a União Europeia). O seu  objectivo fundamental foi impedir que o Irão adquirisse armas nucleares, aumentando  exponencialmente a capacidade da comunidade global na monitorização do programa nuclear iraniano em troca de alívio nas sanções económicas.

O Irão aceitou a monitorização exaustiva pela Agência Internacional de Energia Atómica da redução das suas capacidades nucleares e, dos dez relatórios publicados pela Agência até Maio de 2018, nenhum dá conta de que o Irão estivesse a quebrar o acordo.
Conseguido após 21 meses de duras negociações, o acordo foi assinado, por parte dos Estados Unidos pelo presidente Barack Obama.
A análise multi-nacional do acordo estabeleceu concordância em diversos pontos fundamentais, entre os quais:
  • O acordo impede o Irão de produzir materiais físseis necessários à criação de  armas nucleares
  • Contém o regime de inspecções mais intrusivo e rigoroso alguma vez negociado.
  • Um acordo falhado irá encorajar, e "dar razão", aos líders mais radicais do Irão.
  • Tem amplo apoio da maioria dos americanos e iranianos, dos aliados dos EUA, de cientistas de topo, líders militares, líders religiosos e especialistas em segurança nacional (incluindo israelitas).
  • Baseia-se em princípios multilaterais negociados, fundamentados na supervisão e controlo, não em confiança depositada.
  • Torna os EUA e Israel mais seguros ao reduzir o risco de um Irão com armas nucleares.
  • O acordo mostrou-se superior a todas as alternativas e a sua implementação impedirá outra guerra devastadora no Médio Oriente.
8 de Maio, 2018
"O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou nesta terça-feira que decidiu abandonar o acordo nuclear firmado com o Irão, retomando as sanções contra o país."

Uma das principais promessas eleitorais de Trump foi reverter quase tudo o que caracterizou a presidência de Obama. A intransigência em relação a um acordo nuclear, que efectivamente fez aquilo que propunha - incapacitar o Irão de produzir armas nucleares - foi motivada por esse desejo, largamente expresso e concretizado, de afastar por completo tudo que Obama fez, ainda que 63% dos norte-americanos se mostrassem favoráveis ao acordo JCPOA
Mas Trump prometeu “desmantelar o acordo”, que classificou “o pior de sempre” para os Estados Unidos e o “melhor de sempre” para o Irão; quis desmantela-lo porque não foi ele que o fez E porque Netanyhu assim o ditou. As consequências foram desastrosas, são desastrosas. Mas a 3 de Março, com a guerra explodindo,  gabava-se do que fez há 8 anos, culpando Obama... e Biden
O general James Mattis, Comandante do Conjunto das Forças Armadas dos Estados Unidos sob George W. Bush e Comandante Central dos Estados Unidos sob Obama, primeiro Secretário da Defesa de Trump, enfatizou que considerava ser uma "ameaça à ordem mundial liderada pelos Estados Unidos"; Mattis manifestou a sua discordância com a retirada do acordo nuclear com o Irão, como a retirada de tropas da Síria e do Afeganistão. Apresentou a sua demissão a Trump a 20 de Dezembro de 2019 numa sucinta carta, prontificando-se a permanecer até Fevereiro, final do seu mandato, a fim de ser feita uma transição que não prejudicasse as Forças Armas e a reunião ministerial da NATO  que se aproximava. A 1 de Janeiro Trump disse que o havia despedido; a carta do general Mattis veio a público
No seu livro publicado no final de 2019 Mattis escrevia:
“O papel de polémico não é suficiente para um líder. Um líder deve demonstrar perspicácia estratégica que incorpore o respeito pelas nações que estiveram ao nosso lado quando as dificuldades se aproximavam. Ao regressarmos a uma postura estratégica que inclua os interesses do maior número possível de nações com as quais possamos formar uma causa comum, poderemos lidar melhor com este mundo imperfeito que partilhamos. Sem isso, ocuparemos uma posição cada vez mais solitária, que nos coloca em risco crescente no mundo.”

22 de Junho de 2025

A Força Aérea e a Marinha dos Estados Unidos atacaram três instalações nucleares no Irão, sob o nome de código Operation Midnight Hammer, a Guerra dos Doze Dias
A 26 de Junho 2025 o secretário da Defesa, Hegseth, declarava em conferência de imprensa no Pentágono:

"O presidente Donald J. Trump comandou a operação militar mais complexa e secreta da história e foi um sucesso estrondoso, resultando num acordo de cessar-fogo e no fim da guerra de 12 dias [entre o Irão e Israel]. Graças à acção militar decisiva, o presidente Trump criou as condições para o fim da guerra: dizimou — escolham a palavra — obliterou, destruiu, as capacidades nucleares do Irão."

24 de Fevereiro 2026

Durante o seu discurso no State of the Union, há uma semana, Trump afirmou que o Irão representa uma ameaça directa aos EUA, que está «a trabalhar para construir mísseis que em breve chegarão aos Estados Unidos da América».

Enquanto decorriam as conversações com vista a um acordo com o Irão, o enviado para o Médio Oriente, Steve Witkoff,  promotor imobiliário e amigo de longa data de Trump,  declarou - durante uma entrevista (com a nora de Trump, Lara Trump)  -  que "o Irão está provavelmente a uma semana de ter material para o fabrico de bombas de nível industrial"
(O que são "bombas de nível industrial"? Será por oposição a "nível caseiro"?)  

Estas afirmações não estão alicerçadas por documento algum, nem da Casa Branca nem do Pentágono; Os relatórios dos serviços de informação norte-americanos de há menos de ano, posteriores à Operação Midnight Hammer, referem que o Irão demorará 10 anos a desenvolver um míssil balístico intercontinental capaz de atingir os Estados Unidos. Uma avaliação pública da agência de inteligência de defesa dos EUA refere que o Irão poderia utilizar os seus veículos de lançamento espacial para "desenvolver um míssil balístico intercontinental militarmente viável até 2035, caso Teerão venha a decidir desenvolver essa capacidade". 

Ou seja, a ameaça directa ao território americano, como descrita no documento, é inverosímil e descartável se comparada com as ameaças presentemente apresentadas pela Rússia, pela China ou por outros Estados hostis como a Coreia do Norte. O general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, disse a Trump que uma nova guerra com o Irão poderia esgotar, ainda mais, os stocks de mísseis interceptores dos EUA, que poderiam ser necessários para neutralizar outras ameaças futuras, incluindo as da China.

As autoridades israelitas estimaram recentemente que o Irão possui 1.500 mísseis balísticos e 200 lançadores após a guerra com Israel, mas este número provavelmente aumentou uma vez que o Irão tem vindo a reabastecer os seus stocks.
Sim, e estão a postos contra o Médio Oriente, não contra os EUA.  Sejamos claros, não evitemos a realidade subjacente às possíveis consequências deste ataque

Por várias razões  Trump não se quis estender sobre o assunto durante o State of the Union, muito menos submete-lo à autorização, legalmente exigida, do Congresso, ou sequer dar conhecimento à Comissão de Segurança

GENEBRA, 26 de Fevereiro, quinta-feira passada

"Os Estados Unidos e o Irão avançaram, durante horas de negociações, sobre o programa nuclear de Teerão esta quinta-feira numa reunião promovida pela Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA); saíram sem acordo mas com "progressos significativos na negociação" segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã, Badr al-Busaidi que não adiantou pormenores. Uma nova ronda de conversações ficou agendada para segunda-feira, 2 de Março, em Viena, na sede da Agência  Internacional de Energia Atómica e será esta agência a organizar os encontros “para chegar a um quadro e a um modelo",  como a mais habilitada autoridade em energia atómica para avaliar e explicar questões técnicas fundamentais. 

"Fizemos progressos muito positivos e abordámos com grande seriedade os elementos de um acordo, tanto no domínio nuclear como no das sanções“, declarou Araghchi, ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, à televisão estatal no final da ronda de negociações.

Link video: https://www.youtube.com/live/jTPwhQ3gqpc?si=hzy8wDnONxoDrfMS
Convirá referir que, nessa mesma segunda-feira, dia 3, a guerra já explodira e, em conferência de imprensa, Rafael Grossi, director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica, conhecido pela sua impecável postura marcadamente técnica e apolítica, referiu que durante a sua última visita ao Irão, no final do Verão de 2025,  com os inspectores que avaliaram as condições de segurança após o bombardeamento americano em Junho, não viram nada que indicasse a eminência de uma arma nuclear ou mesmo desenvolvimentos nesse sentido.

Sem comentários

2- Levar à deposição do regime oferecendo uma oportunidade de democracia ao povo iraniano

Haverá alguém, com dois dedos de testa e que não viva isolado numa caverna dos Himalaias, que acredite que Trump está preocupado com o facto de o povo iraniano viver sob um regime radicalmente autocrático sob o qual os Direitos Humanos são uma abstração escrita na Carta das Nações Unidas?

Não cola, não dá, não é minimamente credível. Trump tem absoluto desdém pela liberdade e direitos civis do povo, de qualquer povo; do seu, do iraniano, do ucraniano, de todos.

Por que não a Coreia do Norte, terra de uma opressão desmedida e que representa uma ameaça aos EUA bem mais tangível?
E porque não a Rússia, onde as eleições são uma miragem, as liberdades meros desejos, que ataca e ameaça o Ocidente democrático, volta não volta evocando o seu arsenal nuclear?
Porque não são uma autocracia islâmica? O facto não parece incomodar Trump quando estão em causa os seus grandes amigos, e parceiros de negócios, da Arábia Saudita; nem tão pouco as suas excelentes e pessoalmente proveitosas relações com os Emirados Árabes Unidos

Vamos a factos

Facto - Existe um acordo de cessar-fogo, assinado trilateramente após o ataque ao Irão em Junho passado, com vista à elaboração de um acordo nuclear; As conversações com o Irão estavam a decorrer com problemas mas com propostas sobre a mesa, a analisar, a discutir, aberto a propostas. Na sexta-feira 27/02, horas antes do início dos ataques, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã, mediador das negociações, afirmou que estavam a ser feitos "progressos substanciais" e que um acordo estava "ao nosso alcance, que o Irão concordou em nunca, nunca ter... material nuclear capaz de produzir uma bomba". 

Um acordo que Trump não quer e Netanyahu muito menos, nunca quis.  A 30 de Março de 2018, Netanyahu apresentou "provas conclusivas" - nunca publicadas, nunca demonstradas ou partilhadas com outros governos - de que o Irão nunca respeitara o acordo e estava a dois passos de contruir uma arma nuclear; 7 dias depois Trump abandonava o JCPOA

Facto - Trump acha que, quando as coisas correm mal, atacar o Irão é sempre uma boa ideia - Alguns exemplos em selecção não exaustiva

Uma versão editada do Relatório Mueller - "Relatório da Investigação da Interferência Russa nas Eleições Presidenciais de 2016" -  foi publicada pelo Departamento de Justiça a 18 de Abril de 2019. Os EUA entraram em vasto burburinho social, Trump foi fustigado com questões relativas à sua ligação à Rússia.

1 mês depois... 19 Maio, 2019
«Eu simplesmente não quero que eles tenham armas nucleares e eles não nos podem ameaçar. Com tudo o que está a acontecer, e eu não sou alguém que acredita – sabe, eu não sou alguém que quer entrar em guerra, porque a guerra prejudica as economias, a guerra mata pessoas, e o mais importante – de longe o mais importante, não quero lutar. Mas há situações como a do Irão, não se deixar que eles tenham armas nucleares – simplesmente não se pode deixar que isso aconteça»

Ele lá sabe..

Junho 2019 - Primeiras grandes sondagens de apoio nas primárias aos candidatos presidenciais 

Sexta-feira, 21 Junho 2019 - «O presidente Donald Trump aprovou ataques militares contra vários alvos iranianos por Irão por ter abatido um drone espião norte-americano, segundo três responsáveis ​​norte-americanos, que falaram sob anonimato, decisões sensíveis de segurança nacional que esperavam ainda que a operação fosse realizada até às 19h00 ET mas Trump recuou abruptamente na noite de quinta-feira. O Departamento de Defesa não respondeu a pedidos de comentários Um alto funcionário do governo disse: "Não comentamos o planeamento militar pré-operacional". Não ficou claro por que razão os ataques foram cancelados.»

25 de Junho 

«O presidente Donald Trump ameaçou o Irão com "aniquilação" na terça-feira, afirmando que "Um ataque contra qualquer coisa americana será respondido com uma força esmagadora. Em algumas áreas, esmagadora significará aniquilação. Chega de John Kerry e Obama!", tweetou o presidente. Mais tarde, falando na Sala Oval,  Trump disse acreditar que o Irão ainda leva as suas ameaças a sério, depois de dias antes ter cancelado um ataque militar planeado e declarar aos jornalistas que não precisa de uma "estratégia de saída" para a situação cada vez mais tensa.»

Setembro 2019

3 Setembro 2019 - Biden lidera as sondagens e discursa: «Há três anos, com este presidente, não enfrentávamos nada do que enfrentamos hoje. O próximo presidente terá de ser capaz de reunificar o mundo. Não é uma brincadeira. Literalmente, não figurativamente, reunificar o mundo, reunir os nossos aliados... Mais quatro anos deste presidente e não haverá NATO.»

Terça-feira, 17 Setembro 2019 - «O presidente Trump insinuou publicamente preocupações nos últimos dias, dizendo na tarde de segunda-feira: "Quero a guerra? Não quero a guerra com ninguém. Sou alguém que prefere evitar a guerra mas estamos mais preparados do que qualquer outro país". Nos últimos 10 dias, cerca de uma dezena de consultores externos manifestaram-se junto dele sobre o Irão, incluindo o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, que tentou mediar o conflito entre os EUA e Teerão; Ric Grenell, embaixador dos EUA na Alemanha; o senador Rand Paul e o congressista Mark Meadows, ambos republicanos, entre outras figuras de peso. Muitas destas vozes — mas não todas —  exortaram Trump a demonstrar moderação.

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3 de Março 2026 - A justificação para esta guerra, em dia de audição perante o Congresso, mudou (outra vez)

Marco Rubio  - «Sabíamos que iria haver um ataque israelita, sabíamos que isso iria precipitar um ataque às forças americanas e sabíamos que se não tomássemos uma atitude preventiva contra eles sofreríamos baixas mais elevadas»

Em 6 dias de guerra há mais de 6 explicações diferentes para justificar o ataque dos EUA ao Irão; esta é, talvez, a mais notável 

Trump iniciou uma multi-guerra porque teve um feeling?!?!

Outras, nas suas várias versões:

Armas Nucleares - há mais de uma década que se tem trabalhado no sentido de acordar com o Irão o não enriquecimento de urânio que permita o fabrico de armas nucleares; foi assinado um acordo, nunca existiram indicações de que não fosse respeitado. Trump, alinhado com Netanyahu, em 2018 abandonou o acordo dizendo que conceberia um "bem melhor e seguro". Em Março de 2026 Trump ataca o Irão a meio das negociações de um novo acordo recusando-se a aguardar a sua conclusão

Ameaça directa à América - não existem no Irão mísseis balísticos capazes de atingir os EUA, nem sequer a maior parte da Europa. O director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica escreveu no seu relatório no final do Verão de 2025, após a inspecção  na sequencia dos bombardeamentos às infraestruturas nucleares iranianas « Os técnicos inspectores não viram nada que indicasse a eminência de uma arma nuclear ou mesmo desenvolvimentos nesse sentido». Os relatórios dos serviços de informação norte-americanos de há menos de ano referem que o Irão demorará 10 anos a desenvolver um míssil balístico

Mudança de regime - É totalmente descabido conceber uma mudança do regime iraniano sem uma guerra de invasão terrestre. O aiatolá tinha 89 anos, a sua sucessão está cuidadosamente preparada há anos, o exército e armamento do Irão não são derrotáveis com bombardeiros convencionais. (não se trata de uma mera opinião pessoal).  Esta não é guerra que se vença em "4 ou 5 semanas" se se pretender uma mudança de regime, Teerão não é Berlim, não basta "derrubar o muro". Está infelizmente, dolorosamente, demonstrado que o povo iraniano não consegue derrubar a monstruosa guarda revolucionária.  Mais... Os Estados do Médio Oriente têm armamento suficiente para resistir a ataques prolongados do Irão? Não, não têm. Os EUA ver-se-ão obrigados a fornecer armamento. Essa equação ainda não foi apresentada; estará equacionada? Trump diz que os EUA têm munições suficientes para uma "guerra que dure para sempre"; curiosamente não foi o que o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, disse a Trump;  Nem o que Trump disse a Zelensky.  Armas para o Médio- Oriente parece que há, para vender para a Ucrânia... Misseis Patriot, mesmo a conta-gotas, não é coisa que se produza à fartazana.

2/07/26 - Um stock de armas "ilimitado" e o idiota do Biden que deu armas a Zelensky, de borla

Naturalmente também não explicaram por que é  Netanyahu quem decide a política americana de ataque ao Irão. Para além de não ser novidade o imprescindível apoio do lobby judeu aos candidatos políticos americanos, há por aí gente mal intencionada - só pode - que se refere a este descalabro apelidando-o de "Guerra Epstein" (o que sabe a Mossad? Que provas tem na sua posse?)...  E dava imenso jeito mandar os ranhosos dos palestinianos de Gaza e do West Bank para o Irão, o "americaníssimo" Palahvi recebe-los-ia de braços abertos, caso consiga  sentar-se na cadeira ocupada por um Líder-Supremo. O pormenor de muitos iranianos não lhe perdoarem que só tenha usado a voz a favor do seu povo desde que Trump o reactivou, não passa disso,  de um pormenor, insignificante perante a soberana vontade popular sob a mira de um exército de 1 milhão de homens. 

E depois há a Rússia...

A situação no Estreito de Ormuz parece ser a mais complexa. O tráfego de petroleiros parou. As companhias comerciais de navegação cancelaram os serviços no Golfo Pérsico, as companhias de seguros fizeram o mesmo. Ninguém se atreve a cruzar o domínio dos Houthis armados pelo Irão. Enquanto Israel e os Estados Unidos não garantirem a segurança de navegação no estreito o mundo enfrenta um grave choque petrolífero, no abastecimento e no mercado de acções,  sem considerar a possibilidade de novos ataques às infraestruturas petrolíferas de países do Golfo.

A guerra no Golfo aumentará os preços globais do petróleo. A verdade silenciosa é que Israel fornece armas, tecnologia e cobertura moral a Moscovo 

A Rússia perde o fornecimento de armas vindas do Irão mas..., altamente dependente das exportações de petróleo, não verá com maus olhos tão retumbante crise petrolífera; o conflito pode acabar enriquecendo o Kremlin.
O primeiro indicador da probabilidade desta oportunidade dourada para a Rússia:
O Irão solicitou à Rússia a activação dos sistemas S-400 e dos sistemas de guerra eletrônica Krasukha/Leer-3 em bases russas na Síria (Khmeimim e Tartus) para "cegar" os aviões israelitas.  A Rússia não só recusou o pedido como chegou a desligar transponders e sistemas de radar activos nas suas bases durante o voo de mísseis israelitas "a fim de evitar envolvimento acidental e qualquer pretexto acusatório de ter entrado no conflito"

Uma questão "sem importância":

Após o aviso aos estrangeiros - americanos e não só - que se encontram em 16 países do Médio Oriente para abandonarem rapidamente esses territórios, esqueceram-se de explicar como devem fazê-lo... com os espaços aéreos fechados e uma lista crescente de companhias aéreas a cancelar o trânsito na região: Quatar Airways, British Airways, Emirates, Turkish Airways, Air France, Lufthansa, Air India, Virgin Atlantic, Cathay Pacific... Isto poderá não parecer muito dramático, desde que nenhum de nós, ou dos nossos, esteja paralisado num aeroporto com mísseis a silvar acima das cabeças. Pois é, existem razões, múltiplas, para que as guerras sejam declaradas com autorização da exclusiva competência do Congresso, uma delas chama-se Plano de Evacuação. Nesta guerra combatida no meio de barris de petróleo, sem dúvida, houve um bem delineado plano de entrada, quanto a saídas... civis, militares, geo-políticas, regionais e mundiais, economia petrolífera... Logo se vê, entre mortos e feridos alguém há de escapar e, quanto ao Congresso, já foi ultrapassado, outra vez. 

O mercado da bolsa está em turbulência e os preços do petróleo sobem, dentro do governo americano os conselheiros lutam para explicar porque é que o país entrou em guerra, alternando as razões consoante os dias — e exactamente o que virá  a seguir. E a seguir a quê? 4 ou 5 semanas de guerra? Uma guerra prolongada? Até dizimarem as tropas iranianas? Até uma mudança de regime? Até Trump perceber que o sarilho é maior do que consegue digerir?

E a pergunta sacramental: No meio de uma crise económica interna, com a investigação Epstein a latejar, a situação em Gaza sem ver resolução para o misero estado em que se encontra, os aliados da NATO a fazerem um esforço supra-nacional para manterem o apoio à Ucrânia, por que é que Trump decidiu AGORA lançar uma guerra imprevisível contra o Irão?

E já que falei de NATO - assunto que, estranhamente, não é da predilecção do presidente dos Estados Unidos - uma última pergunta e depois calo-me: O que levou Trump durante o seu discurso no forum de Davos, mundialmente transmitido, a enfatizar as suas dúvidas de que a NATO defendesse os EUA se sofressem um ataque? Foi de tal forma enfático que, no meio de uma premeditadíssima troca de galhardetes, o secretário-geral da NATO lhe deu o justo troco (2º video)

VOZES DA UCRÂNIA

... a caminho do 5º ano, do último ano

Não nos cansemos de erguer a voz 

« A Liberdade da Ucrânia ainda não pereceu
Nem a sua Glória
Sobre nós, companheiros ucranianos
O destino sorrirá uma vez mais »

Acabou de ser publicado um mapa interactivo que abrange 6.088 fábricas russas de material de defesa. 
Foram expostos dados pessoais de 1milhão e 200 mil funcionários — números de passaporte, telefones e e-mails. 
O banco de dados pode ser filtrado por 16 categorias de produção: de sistemas de mísseis e munições a drones e guerra eletrônica. 
Das 6.088 empresas, apenas 2.290 estão sujeitas a sanções internacionais. As outras 3.798 estão agora expostas, mas intocadas.
São oferecidas recompensas por mais informações/publicações, acesso à rede e documentos confidenciais do sector de armamento russo 
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E CAIR UM RAIO QUE O PARTA?

 Hoje foi noite do State of the Union

É difícil encontrar tantos pulhas no mesmo sítio 

Trump entrou atrasado, claro, por volta das 2h da manhã GMT, 21h em Washington. Quando por fim chegou ao púlpito, depois de muito lhe lambusarem o anel, lá começou a falar.  Eu comecei a ouvir,  há dezenas de anos que oiço sempre o presidente dos EUA no State of the Union, seja ele quem for. Até o Trump.  

Aguentei estoicamente pouco mais de 10 minutos. O chorrilho de mentiras e auto-elogio fluia com arrogância incontida. O auto-enaltecimento e a pose de o-mais-poderoso ainda aguento mas as mais descaradas mentiras que são aplaudidas por quem as conhece a fundo... É demais... muito mais do que consigo suportar sem sentir e pensar coisas horríveis que não quero pensar nem sentir. Refugiei-me, tentei dormir.
Passava pouco das 3h fui espreitar o monstro.  Estava a fazer uma "manobra de génio":《Quem estiver de acordo comigo que se levante》, e atirou uma bojarda para o ar sobre "o governo ter como primeira obrigação a defesa da América", convencidíssimo de que conseguiria levantar toda a sala. Saíu-lhe a generalidade pela culatra, meia sala permaneceu sentada, olhares críticos, de soslaio, de isso-querias-tu... Seguiram-se insultos minimamente contidos, mascarados de descrédito. Visivelmente irritado pelo flop da sua esperteza, não obrigou meia sala a levantar-se, somado à pressão de vaias públicas, sondagens decrescentes e uma economia que teima em desmenti-lo, o Trump que pretendia uma imagem sorridente e de bem-amado derrapou na irritação e contraridade. "Deviam de ter vergonha", vociferou, como ele soubesse o que é ter vergonha.

Nesta altura resolvemos ir com os cães à rua, alguma alegria e sossego nesta noite de ódio destilado de um dos púlpitos mais poderosos da Terra. 

Quando voltamos, ao bater das 4h da manhã, o monstro estava a terminar. Trombudo, insatisfeito, irritado, apesar dos muitos apertos-de-mão-estou-aqui-estás-ver-me e das palmadinhas sorridentes nas costas.

Durante a sua arenga de 2horas, no dia em que a guerra na Ucrânia cumpriu 4 anos, o presidente dos EUA dedicou-lhe  uns 30 segundos: "Estamos a fazer todos os esforços, então a morrer milhares de soldados, nunca teria acontecido se eu fosse presidente na altura". Está feito, nem se lembrou que acabaria com a guerra no primeiro dia da sua segunda presidência... mas lembrou-se de que "já acabou com 8 guerras"

A minha noite foi irritante mas a dele, diga o que disser, foi pior. 

Ainda por cima não gosta de cães