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RENTABILIZAR O IRÃO EM NOME DA NOVA GAZA

 

No 4° dia após o ataque ao Irão, já lá vão uns quantos, escrevi aqui:

A Rússia vê-se em dificuldades face ao fornecimento de armas vindas do Irão mas..., altamente dependente das exportações de petróleo, não verá com maus olhos tão retumbante crise petrolífera; o conflito pode acabar enriquecendo o Kremlin.

Um leitor assíduo deste blog, que não conheço pessoalmente mas que, com frequência, envia comentários aos posts publicados, escreveu-me assim:

"... com as tarifas comerciais que o Trump aplicou não estou a ver quem é que desejará agravar mais os encargos violando as sanções de importação do petróleo russo"

 Esta "credibilidade" seria um factor a considerar num contexto normal, com um presidente dos EUA minimamente normal. Não é o caso.

Respondi-lhe:

A ingenuidade do seu óbice será provavelmente testemunho de uma mente de boa-fé, não se aplica a Trump nem a Putin. Verá quantos poucos dias decorrerão até que Trump levante "temporariamente" as sanções petrolíferas à Rússia 

Não me acreditou...

A 14 de Março, dia a seguir a ter levantado as incómodas sanções,  Trump decididiu o começar o bombardeamento da ilha de Kharg, porto marítimo de exportação de petróleo a cerca de 25km da costa do Irão facilitando, com bons proveitos comerciais, a ancoragem de petroleiros de grande porte.  A ilha abriga as mais importantes infra-estruturas petrolíferas do Irão: é o terminal de uma rede de pipelines dos vários campos de petróleo do Irão e tornou-se o "armazém" de crude e de produtos refinados.

Após o primeiro bombardeamento, dirigido ao heliporto e às defesas aéreas – não danificando infra-estruturas petrolíferas, por certo mais na esperança de uma herança do que por respeito aos inúmeros avisos sobre o efeito que tal demonstração de mau-génio teria nos mercados energéticos mundiais – o Irão explicou-lhe  muito bem explicado que o bombardeamento da ilha de Kharg levará à destruição das estruturas petrolíferas dos países do Golfo Pérsico. Putin sorri.

Depois do êxito militar na Venezuela seguido de uma negociação com a espertíssima e experiente Delcy Rodríguez, a presidente interina que por lá ficou à espera que a crise passe, Trump, o super-trump, convenceu-se de que,  uma vez derrubado o Ayatollah, uma Delcy iraniana brotaria das ervas queimadas de Teerão ou, melhor ainda, o povo aclamaria o regresso de um Palahvi com a bandeira dos States no bolso da carteira, um Palahvi que só agora se lembrou de elevar a voz contra os horrores a que tem vindo a ser submetido o seu povo ao longo de décadas

O que Trump conseguiu não é uma Delcy, é um Kim Jong-un em embrião. Ouvem-se na bancada republicana vozes de "apoiado" e "muito bem", quando em público. Os militares não batem palmas.

Os militares avisaram Trump, os líders europeus avisaram Trump, os briefings de Inteligência (que o presidente não lê) avisaram que o Irão iria fechar o estreito de Hormuz, que seria necessário ponderar as consequências do ataque, estabelecer estratégias para lidar com a situação, prevenir um caos energético e económico... Trump não quis saber, não acreditou no óbvio, prosseguiu com a sua a sua habitual estratégia do "logo se vê", "I'll think of something"

A 8 de Março, Trump escrevia um ressabiado "bilhetinho"  ao primeiro-ministro do Reino Unido que destacou dois porta-aviões para defender Chipre mas não para o Golfo Pérsico : "Não precisamos de gente que se junte a guerras que já ganhámos".

No dia 10 fez uma re-edição da ameaça dedicada a Kim Jong-un durante o primeiro mandato, quando lhe prometeu "Fire and Fury como nunca se viu"; desta feita dedicou o fogo e fúria ao Irão SE fecharem o estreito de Ormuz.  - Se??? -   A 10 de Março? Em que planeta é que este animal tem estado desde 28 de Fevereiro?

Na sexta-feira, 27 de Fevereiro, quando terminaram as conversações com vista a um acordo entre americanos e iranianos - que, supostamente, continuariam na segunda-feira seguinte, dia 2 de Março - os iranianos estavam mais do que a postos no Estreito, não é preciso ser bruxo, o semblante de Kushner não engana um tonto; ao primeiro BUM, na manhã de 28, acabou-se o trânsito. SE fecharem o Estreito o estreito fica fechado, fim de papo.

Depois... Depois vieram falinhas mais mansas, ah e tal,  "Não precisamos de gente que se junte a guerras que já ganhámos" mas é bom que os europeus, o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália., mandem as suas frotas para escoltar os petroleiros na passagem de Ormuz porque nós não damos conta do imbróglio.

Em 2019, Ilan Goldenberg, assessor para a política do Médio Oriente de Obama e líder da equipa do Departamento de Defesa sobre o Irão, alertou para que se ocorresse uma guerra contra o Irão, "serão certos os ataques a aliados dos EUA na região, o encerramento do Estreito de Ormuz, combates no Líbano entre Israel e o Hezbollah. Os ataques iranianos poderão fazer os preços globais do petróleo disparar durante semanas ou meses, talvez para 150 dólares ou mais por barril"

Pois... Querido Trump, o imbróglio é teu, tu o criaste, nem um aviso aos teu aliados, não ouviste qualquer opinião alheia para além da do teu companheiro de negócios israelita. Existiam argumentos de peso para não se fazer o que fizeste, estão à vista, não eram, como disseste, uma questão de cobardia... Tu não és corajoso, és um egocêntrico ignorante e amoral. Para além dos mais imediatos efeitos, económicos e energéticos, partiste o ovo da serpente: um regime no Irão ainda mais radicalizado, a ascensão, descontrolada internamente, do poder militar - tropas formatados desde meninos para a feroz e irracional defesa do regime teocrático -  e uma maior convicção de que é necessário armamento nuclear para sobreviver. Os que queriam negociar estão mortos, por muito maus que fossem eram mais racionais e pragmáticos do que estes. Quem lhes poderá dizer que não têm razão? Por que iriam acreditar? Kim Jong-un não acreditou, riu-se das ameaças, das "cartas de amor" de Trump e continuou para bingo. Do seu ponto de vista, está coberto de razão

Perante o "desembrulha-te sozinho" como resposta generalizada por parte dos aliados Trump, em óbvia fúria, joga uma carta que não tem: ameaça abandonar a NATO

«Os Estados Unidos foram informados pela maioria dos nossos “Aliados” na NATO que não querem envolver-se na nossa Operação Militar contra o Regime Terrorista do Irão, no Médio Oriente, isto, apesar do facto de quase todos os países concordarem fortemente com o que estamos a fazer, e de que não se pode, de forma alguma, permitir que o Irão possua uma Arma Nuclear. No entanto, não estou surpreendido com a acção deles, porque sempre considerei a NATO, onde gastamos centenas de biliões de dólares por ano a proteger esses mesmos países, como uma via de sentido único — Nós protegemo-los, mas eles não farão nada por nós, particularmente, em tempo de necessidade. Felizmente, dizimámos o Exército do Irão — A sua Marinha desapareceu, a sua Força Aérea desapareceu, a sua Defesa Anti-Aérea e Radar desapareceram e, talvez, o mais importante, os seus Líderes, praticamente em todos os níveis, desapareceram, nunca mais nos ameaçando -, aos nossos aliados do Médio Oriente, ou ao Mundo! Pelo facto de termos tido tanto Sucesso Militar, já não “precisamos”, nem desejamos, a assistência dos países da NATO — NUNCA PRECISÁMOS! Igualmente, do Japão, Austrália ou Coreia do Sul. De facto, falando como Presidente dos Estados Unidos da América, de longe o País Mais Poderoso em Qualquer Lugar do Mundo, NÃO PRECISAMOS DA AJUDA DE NINGUÉM! Obrigado pela atenção a este assunto. Presidente DONALD J. TRUMP»

Desde o seu primeiro mandato que Trump tem ameaçado retirar-se da NATO, ordens são ordens... No final de Janeiro último, em Davos, durante a presença dos media às declarações conjuntas com o secretário-geral da NATO, fez questão de afirmar que duvidava da ajuda da NATO aos EUA caso fossem atacados. Mark Rutte, o conciliador, não lhe achou graça, lembrou a única vez que o artº5º foi evocado... E, tenhamos presente, os EUA não foram atacados. Os EUA atacaram um Estado soberano, o 2º desde o início de 2026, quando decorriam conversações com vista a um acordo - porque o acordo que existia foi siderado por Trump. Que esses Estados fossem (sejam) liderados por facínoras é outra questão, estão por aí facínoras de alto calibre que Trump defende e ajuda, está entre pares.

Mas... Retirar-se da Nato significaria, só assim em duas linhas,  perder bases militares estratégicas fundamentais, significaria o agravamento da já complicada clivagem dentro do partido republicano. Um novo impeachment paira sobre a sua cabeça e isso horroriza-o.

Trump tenta acabar a guerra, declarar vitória, objectivos cumpridos. Netanyahu telefona-lhe, nem te passe pela cabeça! O seu sinistro genro, o silencioso Kushner, que apresentou em Davos o plano "Nova Gaza", um projecto de reconstrução pós-guerra de US$ 25 bilhões que visa transformar a Faixa de Gaza numa faixa turística e comercial, um "centro de dados "e, em algumas propostas, a realocação de moradores para áreas sofisticadas denominadas "Nova Rafah", concebida para promover uma economia de livre mercado, baseada numa determinada cripto-moeda, um "país" privado gerido por Inteligência Artificial. Um projecto demoníaco, na base da fundação do "Board of Peace", que faz George Orwell parecer um escritor de contos infantis. O seu sinistro genro, o silencioso Kushner, o mesmo que com Witkoff, o amigalhaço de Putin esteve na última reunião para o acordo, horas antes do Irão ser atacado e que de novo serão destacados para novas negociações para por fim à guerra... Os iranianos não estarão interessados, vão espremer a situação até ao desespero, eles tinham o queijo e Trump entregou-lhes a faca.

Acabar com os ataques ao Irão? Mesmo que eles libertem Ormuz? Está um país privado em jogo, quem é que irá para a "Nova Gaza" com um Irão descontrolado ali tão perto? Kushner telefona ao seu grande amigo e financiador Salman (com uma Camelot da IA sobre a mesa dourada não há judeus e sauditas, há dinheiro, poder e interesses). Salman telefona a Trump: os teus aliados não te ajudam mas podes sempre contar com a minha amizade, apoio e tropas. Trump, amigo, a Arábia Saudita está contigo.
E Trump destaca tropas para seguirem para o Médio Oriente. Invasão ou não, heis a questão...

É absolutamente claro que a guerra Israelo-americana não "está ganha" nem o regime está derrubado, nem foram eliminadas as capacidades convencionais do Irão, a prova é que o Estreito continua controlado por Teerão e instalações vitais para o comércio global de energia continuam ameaçadas em todo o Golfo Pérsico. 
Os Estados Unidos podem optar por intensificar o conflito, potencialmente usando forças terrestres para tomar instalações e território iranianos ou apoiando forças separatistas em todo o país. Os riscos dessas formas de escalada superam em muito seus possíveis ganhos, se falarmos de ganhos confessos e nos interesses dos EUA, enquanto Estado, e da economia global. Mas há outros ganhos, outros interesses...  Presentemente, com a economia global instável e o Médio Oriente em convulsão, a melhor opção para Trump é não se comprometer ainda mais com uma guerra que despoletou em plena ignorância e em "logo se vê", até ele percebe que precisa, rapidamente, de encontrar uma saída.”

Depois de ter dado ao Irão um prazo de 48 horas para abrir o Estreito de Ormuz, Trump cedeu, alegando que seus representantes de confiança, Witkoff e Kushner, claro, haviam iniciado uma comunicação encorajadora com os líders iranianos, falou em  cinco dias de conversações que poderiam pôr fim à guerra. Os iranianos negam que tenham existido quaisquer conversações. Táctica para acalmar os mercados? É possível... mas curto
Tudo depende dos interesses que deseja fazer prevalecer dentro da teia em que ele mesmo se emaranhou

Do que vem a público nos media americanos em pouco, muito pouco, se pode confiar. Ainda que restem media que queiram informar com verdade, as informações que recebem da administração Trump, mais concretamente do Pentágono são de um baralho com cartas escolhidas e marcadas.

O Pentágono dita discretamente às empresas de satélites espiões o que dizer sobre a guerra com o Irão, censurando cirurgicamente o que o público deve "saber".

Fontes militares  e de Inteligência, há dias numa reunião privada em Washington, disseram que o nível de sigilo em torno dos detalhes da guerra com o Irão é imprecedente; quase não há dados divulgados sobre o nível de bombardeamento, os alvos atacados ou efeitos avaliados. O governo Trump está a tentar controlar, ainda mais, o que as os meios de comunicação privados dizem num esforço de bastidores que não havia ocorrido anteriormente.

Assim que os bombardeamentos americanos e israelitas contra o Irão começaram, logo a 28 de Fevereiro, o Pentágono emitiu "orientações" para os operadores de satélites sobre qual “linguagem e termos evitar” ao descrever os danos causados ​​pelo Irão nas bases americanas no Oriente Médio, de acordo com uma cópia das orientações que foi "desviada".

"Evite-se linguagem que implique avaliação de danos de batalha (ADB) ou conclusões operacionais", diz um slide (fotos abaixo) produzido pela Força Espacial dos EUA. O documento continua alertando contra o uso de frases como “Alvo destruído”, “Alvo eliminado” e “Estrutura inoperante”.

As orientações incluem os seguintes exemplos do que dizer e do que não dizer.
Exemplo incorrecto: “O ataque destruiu com sucesso as instalações.”
Exemplo correcto: “As imagens mostram a estrutura em grande parte desabada, com escombros cobrindo a área onde o prédio estava localizado.”

Cerca de 100 empresas americanas possuem licença do governo para operar seus próprios satélites de reconhecimento, uma indústria que movimenta entre US$ 6 e 7 bilhões por ano e atende clientes militares e comerciais com serviços que vão desde a detecção de metano até a avaliação de danos causados por bombas. A maior parte da receita dessas empresas provém das forças armadas e do governo federal. As "quatro grandes" — Maxar Intelligence, Planet Labs, BlackSky Technology e Spire Global — operam cerca de 350 satélites de imagem e interceptação.

Embora a "orientação" do Pentágono para as empresas comerciais seja apresentada como uma recomendação, as empresas cumprem-na porque seus contratos com o governo as levam a não morder a mão que as alimenta.  As empresas privadas tornam-se mais um "colaborador/propagandista" controlado e auxiliar da máquina de inteligência dos EUA, uma tendência que tem vindo em crescendo desde o ano passado
A Força Espacial emitiu esta orientação, posteriormente "desviada" dos canais restritos, para praticamente todas as empresas de satélites comerciais na forma de solicitações por escrito, segundo as mesmas fontes. Isso inclui não apenas empresas que actuam na área de informações confidenciais mas também aquelas que trabalham na colecta e distribuição de materiais públicos ou de "código aberto" que informam os media, os centros de pesquisa e outros grupos.

Desde Fevereiro, quando a Anthropic se recusou a permitir que seu modelo de IA "Claude" seja usado em certas missões que envolvem vigilância doméstica em massa e armas autónomas, o Pentágono ameaçou invocar a Lei de Produção de Defesa para forçar a cooperação da empresa. Segundo as mesmas fontes militares, "Depois da Operação Anthropic, ninguém está interessado em entrar em lutas com o governo, é também mais uma tentativa de fazer com que as coisas sobre a guerra pareçam menos más do que realmente são."
A Planet Labs, uma das maiores empresas comerciais de imagens de satélite do mundo, bloqueou o acesso público a imagens de alta resolução de toda a zona de guerra do Irão e, a 28 de Fevereiro quando do início do ataque, impôs um atraso de 96 horas; posteriormente, a  10 de Março, estendeu o bloqueio a 14 dias  A empresa alega que a decisão foi tomada após consultar especialistas militares e de inteligência. Consultar...

No resto do mundo as informações estão também contaminadas porque a maioria provém de fontes americanas. O que se sabe sobre a guerra no Irão é, na sua maior parte, apenas "o que se julga que se sabe", temperado com factos, imagens e análises de "outros satélites"; tenhamos a noção de que, neste caso particular e ainda mais do que em todos os outros, a desinformação trumpisticamente fabricada é o que preenche os noticiários, as "Breaking News" e as mais fiáveis agências de informação.

As "notícias" pouco interessam, atentemos nos desenvolvimentos construindo um puzzle, peça a peça, juntando as peças mais diversas, as americanas privadas, as israelitas, as russas, as sauditas, o Irão é apenas o eixo


A INTERNET É TRAMADA...

 A Internet guarda tudo, por temas, por anos, por nomes, pelas mais diversas classificações; é só escrever o que se procura e fazer "enter". Fui buscar umas memórias, só 3, por hoje.

Donald-Dor-de-Corno falando de Obama 
Donald candidato presidencial em 2016 
Bibi-o-Monótono desde 1979


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COMO É POSSÍVEL?



OS TERRORISTAS E OS TENEBROSOS

O Irão é um Estado terrorista; É uma teocracia radical(íssima) islâmica, uma das duas maiores autocracias do mundo - a par com a Coreia do Norte - de onde, um aiatolá bom é um aiatolá morto.

Esta não é uma visão cristã, ou budista, ou hinduísta; esta não é uma visão democrática, ou de esquerda ou de direita; esta é uma visão humana de acordo com os Direitos Humanos fundamentais, de acordo com o Direito Internacional. Em caso de dúvida pergunte-se ao povo iraniano.

Partir daqui para: "Se o regime dos aiatolás é mau, então Trump deve ser bom porque o quer derrubar", não só é um grande passo como é um passo em falso; tanto quanto "Hitler era mau, logo Estaline devia ser bom" (a ordem dos personagens é arbitrária). Porém... Ó céus! Porém há uma quantidade crítica de gente que "pensa" assim, a preto e branco sem conseguir ir além da mais básica dicotomia. Para esses talvez seja bom deixá-los a pensar sobre uma outra dicotomia básica, se conseguirem: "O inimigo do meu inimigo nem sempre é meu amigo."

O ataque dos EUA ao Irão partiu de dois pressupostos:
- Trump atacou o Irão porque este está muito perto de possuir armamento nuclear
- Trump atacou o Irão para levar à deposição do regime oferecendo uma oportunidade de democracia ao povo iraniano

Serão pressupostos reais?

Que fique muito claro desde já que nada do que aqui trago envolve qualquer defesa do Irão - O regime do Irão é indefensável. Ponto.

Posto que  "O inimigo do meu inimigo nem sempre é meu amigo": conceitualmente o presidente dos EUA  deve ser responsável e fiável no que concerne às suas alianças e política internacional que envolve a estabilidade do mundo. É a total negação deste conceito que envolve o que aqui trago, nada mais.

Vamos por partes, comecemos pelo princípio 

20 Julho 2015 - Assinatura do Acordo JCPOA

1-   O Joint Comprehensive Plan of Action - JCPOA - vulgarmente designado por Acordo Nuclear com o Irão – é um acordo multilateral entre o Irão e o grupo P5+1 (Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha juntamente com a União Europeia). O seu  objectivo fundamental foi impedir que o Irão adquirisse armas nucleares, aumentando  exponencialmente a capacidade da comunidade global na monitorização do programa nuclear iraniano em troca de alívio nas sanções económicas.

O Irão aceitou a monitorização exaustiva pela Agência Internacional de Energia Atómica da redução das suas capacidades nucleares e, dos dez relatórios publicados pela Agência até Maio de 2018, nenhum dá conta de que o Irão estivesse a quebrar o acordo.
Conseguido após 21 meses de duras negociações, o acordo foi assinado, por parte dos Estados Unidos pelo presidente Barack Obama.
A análise multi-nacional do acordo estabeleceu concordância em diversos pontos fundamentais, entre os quais:
  • O acordo impede o Irão de produzir materiais físseis necessários à criação de  armas nucleares
  • Contém o regime de inspecções mais intrusivo e rigoroso alguma vez negociado.
  • Um acordo falhado irá encorajar, e "dar razão", aos líders mais radicais do Irão.
  • Tem amplo apoio da maioria dos americanos e iranianos, dos aliados dos EUA, de cientistas de topo, líders militares, líders religiosos e especialistas em segurança nacional (incluindo israelitas).
  • Baseia-se em princípios multilaterais negociados, fundamentados na supervisão e controlo, não em confiança depositada.
  • Torna os EUA e Israel mais seguros ao reduzir o risco de um Irão com armas nucleares.
  • O acordo mostrou-se superior a todas as alternativas e a sua implementação impedirá outra guerra devastadora no Médio Oriente.
8 de Maio, 2018
"O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou nesta terça-feira que decidiu abandonar o acordo nuclear firmado com o Irão, retomando as sanções contra o país."

Uma das principais promessas eleitorais de Trump foi reverter quase tudo o que caracterizou a presidência de Obama. A intransigência em relação a um acordo nuclear, que efectivamente fez aquilo que propunha - incapacitar o Irão de produzir armas nucleares - foi motivada por esse desejo, largamente expresso e concretizado, de afastar por completo tudo que Obama fez, ainda que 63% dos norte-americanos se mostrassem favoráveis ao acordo JCPOA
Mas Trump prometeu “desmantelar o acordo”, que classificou “o pior de sempre” para os Estados Unidos e o “melhor de sempre” para o Irão; quis desmantela-lo porque não foi ele que o fez E porque Netanyhu assim o ditou. As consequências foram desastrosas, são desastrosas. Mas a 3 de Março, com a guerra explodindo,  gabava-se do que fez há 8 anos, culpando Obama... e Biden
O general James Mattis, Comandante do Conjunto das Forças Armadas dos Estados Unidos sob George W. Bush e Comandante Central dos Estados Unidos sob Obama, primeiro Secretário da Defesa de Trump, enfatizou que considerava ser uma "ameaça à ordem mundial liderada pelos Estados Unidos"; Mattis manifestou a sua discordância com a retirada do acordo nuclear com o Irão, como a retirada de tropas da Síria e do Afeganistão. Apresentou a sua demissão a Trump a 20 de Dezembro de 2019 numa sucinta carta, prontificando-se a permanecer até Fevereiro, final do seu mandato, a fim de ser feita uma transição que não prejudicasse as Forças Armas e a reunião ministerial da NATO  que se aproximava. A 1 de Janeiro Trump disse que o havia despedido; a carta do general Mattis veio a público
No seu livro publicado no final de 2019 Mattis escrevia:
“O papel de polémico não é suficiente para um líder. Um líder deve demonstrar perspicácia estratégica que incorpore o respeito pelas nações que estiveram ao nosso lado quando as dificuldades se aproximavam. Ao regressarmos a uma postura estratégica que inclua os interesses do maior número possível de nações com as quais possamos formar uma causa comum, poderemos lidar melhor com este mundo imperfeito que partilhamos. Sem isso, ocuparemos uma posição cada vez mais solitária, que nos coloca em risco crescente no mundo.”

22 de Junho de 2025

A Força Aérea e a Marinha dos Estados Unidos atacaram três instalações nucleares no Irão, sob o nome de código Operation Midnight Hammer, a Guerra dos Doze Dias
A 26 de Junho 2025 o secretário da Defesa, Hegseth, declarava em conferência de imprensa no Pentágono:

"O presidente Donald J. Trump comandou a operação militar mais complexa e secreta da história e foi um sucesso estrondoso, resultando num acordo de cessar-fogo e no fim da guerra de 12 dias [entre o Irão e Israel]. Graças à acção militar decisiva, o presidente Trump criou as condições para o fim da guerra: dizimou — escolham a palavra — obliterou, destruiu, as capacidades nucleares do Irão."

24 de Fevereiro 2026

Durante o seu discurso no State of the Union, há uma semana, Trump afirmou que o Irão representa uma ameaça directa aos EUA, que está «a trabalhar para construir mísseis que em breve chegarão aos Estados Unidos da América».

Enquanto decorriam as conversações com vista a um acordo com o Irão, o enviado para o Médio Oriente, Steve Witkoff,  promotor imobiliário e amigo de longa data de Trump,  declarou - durante uma entrevista (com a nora de Trump, Lara Trump)  -  que "o Irão está provavelmente a uma semana de ter material para o fabrico de bombas de nível industrial"
(O que são "bombas de nível industrial"? Será por oposição a "nível caseiro"?)  

Estas afirmações não estão alicerçadas por documento algum, nem da Casa Branca nem do Pentágono; Os relatórios dos serviços de informação norte-americanos de há menos de ano, posteriores à Operação Midnight Hammer, referem que o Irão demorará 10 anos a desenvolver um míssil balístico intercontinental capaz de atingir os Estados Unidos. Uma avaliação pública da agência de inteligência de defesa dos EUA refere que o Irão poderia utilizar os seus veículos de lançamento espacial para "desenvolver um míssil balístico intercontinental militarmente viável até 2035, caso Teerão venha a decidir desenvolver essa capacidade". 

Ou seja, a ameaça directa ao território americano, como descrita no documento, é inverosímil e descartável se comparada com as ameaças presentemente apresentadas pela Rússia, pela China ou por outros Estados hostis como a Coreia do Norte. O general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, disse a Trump que uma nova guerra com o Irão poderia esgotar, ainda mais, os stocks de mísseis interceptores dos EUA, que poderiam ser necessários para neutralizar outras ameaças futuras, incluindo as da China.

As autoridades israelitas estimaram recentemente que o Irão possui 1.500 mísseis balísticos e 200 lançadores após a guerra com Israel, mas este número provavelmente aumentou uma vez que o Irão tem vindo a reabastecer os seus stocks.
Sim, e estão a postos contra o Médio Oriente, não contra os EUA.  Sejamos claros, não evitemos a realidade subjacente às possíveis consequências deste ataque

Por várias razões  Trump não se quis estender sobre o assunto durante o State of the Union, muito menos submete-lo à autorização, legalmente exigida, do Congresso, ou sequer dar conhecimento à Comissão de Segurança

GENEBRA, 26 de Fevereiro, quinta-feira passada

"Os Estados Unidos e o Irão avançaram, durante horas de negociações, sobre o programa nuclear de Teerão esta quinta-feira numa reunião promovida pela Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA); saíram sem acordo mas com "progressos significativos na negociação" segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã, Badr al-Busaidi que não adiantou pormenores. Uma nova ronda de conversações ficou agendada para segunda-feira, 2 de Março, em Viena, na sede da Agência  Internacional de Energia Atómica e será esta agência a organizar os encontros “para chegar a um quadro e a um modelo",  como a mais habilitada autoridade em energia atómica para avaliar e explicar questões técnicas fundamentais. 

"Fizemos progressos muito positivos e abordámos com grande seriedade os elementos de um acordo, tanto no domínio nuclear como no das sanções“, declarou Araghchi, ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, à televisão estatal no final da ronda de negociações.

Link video: https://www.youtube.com/live/jTPwhQ3gqpc?si=hzy8wDnONxoDrfMS
Convirá referir que, nessa mesma segunda-feira, dia 3, a guerra já explodira e, em conferência de imprensa, Rafael Grossi, director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica, conhecido pela sua impecável postura marcadamente técnica e apolítica, referiu que durante a sua última visita ao Irão, no final do Verão de 2025,  com os inspectores que avaliaram as condições de segurança após o bombardeamento americano em Junho, não viram nada que indicasse a eminência de uma arma nuclear ou mesmo desenvolvimentos nesse sentido.

Sem comentários

2- Levar à deposição do regime oferecendo uma oportunidade de democracia ao povo iraniano

Haverá alguém, com dois dedos de testa e que não viva isolado numa caverna dos Himalaias, que acredite que Trump está preocupado com o facto de o povo iraniano viver sob um regime radicalmente autocrático sob o qual os Direitos Humanos são uma abstração escrita na Carta das Nações Unidas?

Não cola, não dá, não é minimamente credível. Trump tem absoluto desdém pela liberdade e direitos civis do povo, de qualquer povo; do seu, do iraniano, do ucraniano, de todos.

Por que não a Coreia do Norte, terra de uma opressão desmedida e que representa uma ameaça aos EUA bem mais tangível?
E porque não a Rússia, onde as eleições são uma miragem, as liberdades meros desejos, que ataca e ameaça o Ocidente democrático, volta não volta evocando o seu arsenal nuclear?
Porque não são uma autocracia islâmica? O facto não parece incomodar Trump quando estão em causa os seus grandes amigos, e parceiros de negócios, da Arábia Saudita; nem tão pouco as suas excelentes e pessoalmente proveitosas relações com os Emirados Árabes Unidos

Vamos a factos

Facto - Existe um acordo de cessar-fogo, assinado trilateramente após o ataque ao Irão em Junho passado, com vista à elaboração de um acordo nuclear; As conversações com o Irão estavam a decorrer com problemas mas com propostas sobre a mesa, a analisar, a discutir, aberto a propostas. Na sexta-feira 27/02, horas antes do início dos ataques, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã, mediador das negociações, afirmou que estavam a ser feitos "progressos substanciais" e que um acordo estava "ao nosso alcance, que o Irão concordou em nunca, nunca ter... material nuclear capaz de produzir uma bomba". 

Um acordo que Trump não quer e Netanyahu muito menos, nunca quis.  A 30 de Março de 2018, Netanyahu apresentou "provas conclusivas" - nunca publicadas, nunca demonstradas ou partilhadas com outros governos - de que o Irão nunca respeitara o acordo e estava a dois passos de contruir uma arma nuclear; 7 dias depois Trump abandonava o JCPOA

Facto - Trump acha que, quando as coisas correm mal, atacar o Irão é sempre uma boa ideia - Alguns exemplos em selecção não exaustiva

Uma versão editada do Relatório Mueller - "Relatório da Investigação da Interferência Russa nas Eleições Presidenciais de 2016" -  foi publicada pelo Departamento de Justiça a 18 de Abril de 2019. Os EUA entraram em vasto burburinho social, Trump foi fustigado com questões relativas à sua ligação à Rússia.

1 mês depois... 19 Maio, 2019
«Eu simplesmente não quero que eles tenham armas nucleares e eles não nos podem ameaçar. Com tudo o que está a acontecer, e eu não sou alguém que acredita – sabe, eu não sou alguém que quer entrar em guerra, porque a guerra prejudica as economias, a guerra mata pessoas, e o mais importante – de longe o mais importante, não quero lutar. Mas há situações como a do Irão, não se deixar que eles tenham armas nucleares – simplesmente não se pode deixar que isso aconteça»

Ele lá sabe..

Junho 2019 - Primeiras grandes sondagens de apoio nas primárias aos candidatos presidenciais 

Sexta-feira, 21 Junho 2019 - «O presidente Donald Trump aprovou ataques militares contra vários alvos iranianos por Irão por ter abatido um drone espião norte-americano, segundo três responsáveis ​​norte-americanos, que falaram sob anonimato, decisões sensíveis de segurança nacional que esperavam ainda que a operação fosse realizada até às 19h00 ET mas Trump recuou abruptamente na noite de quinta-feira. O Departamento de Defesa não respondeu a pedidos de comentários Um alto funcionário do governo disse: "Não comentamos o planeamento militar pré-operacional". Não ficou claro por que razão os ataques foram cancelados.»

25 de Junho 

«O presidente Donald Trump ameaçou o Irão com "aniquilação" na terça-feira, afirmando que "Um ataque contra qualquer coisa americana será respondido com uma força esmagadora. Em algumas áreas, esmagadora significará aniquilação. Chega de John Kerry e Obama!", tweetou o presidente. Mais tarde, falando na Sala Oval,  Trump disse acreditar que o Irão ainda leva as suas ameaças a sério, depois de dias antes ter cancelado um ataque militar planeado e declarar aos jornalistas que não precisa de uma "estratégia de saída" para a situação cada vez mais tensa.»

Setembro 2019

3 Setembro 2019 - Biden lidera as sondagens e discursa: «Há três anos, com este presidente, não enfrentávamos nada do que enfrentamos hoje. O próximo presidente terá de ser capaz de reunificar o mundo. Não é uma brincadeira. Literalmente, não figurativamente, reunificar o mundo, reunir os nossos aliados... Mais quatro anos deste presidente e não haverá NATO.»

Terça-feira, 17 Setembro 2019 - «O presidente Trump insinuou publicamente preocupações nos últimos dias, dizendo na tarde de segunda-feira: "Quero a guerra? Não quero a guerra com ninguém. Sou alguém que prefere evitar a guerra mas estamos mais preparados do que qualquer outro país". Nos últimos 10 dias, cerca de uma dezena de consultores externos manifestaram-se junto dele sobre o Irão, incluindo o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, que tentou mediar o conflito entre os EUA e Teerão; Ric Grenell, embaixador dos EUA na Alemanha; o senador Rand Paul e o congressista Mark Meadows, ambos republicanos, entre outras figuras de peso. Muitas destas vozes — mas não todas —  exortaram Trump a demonstrar moderação.

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3 de Março 2026 - A justificação para esta guerra, em dia de audição perante o Congresso, mudou (outra vez)

Marco Rubio  - «Sabíamos que iria haver um ataque israelita, sabíamos que isso iria precipitar um ataque às forças americanas e sabíamos que se não tomássemos uma atitude preventiva contra eles sofreríamos baixas mais elevadas»

Em 6 dias de guerra há mais de 6 explicações diferentes para justificar o ataque dos EUA ao Irão; esta é, talvez, a mais notável 

Trump iniciou uma multi-guerra porque teve um feeling?!?!

Outras, nas suas várias versões:

Armas Nucleares - há mais de uma década que se tem trabalhado no sentido de acordar com o Irão o não enriquecimento de urânio que permita o fabrico de armas nucleares; foi assinado um acordo, nunca existiram indicações de que não fosse respeitado. Trump, alinhado com Netanyahu, em 2018 abandonou o acordo dizendo que conceberia um "bem melhor e seguro". Em Março de 2026 Trump ataca o Irão a meio das negociações de um novo acordo recusando-se a aguardar a sua conclusão

Ameaça directa à América - não existem no Irão mísseis balísticos capazes de atingir os EUA, nem sequer a maior parte da Europa. O director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica escreveu no seu relatório no final do Verão de 2025, após a inspecção  na sequencia dos bombardeamentos às infraestruturas nucleares iranianas « Os técnicos inspectores não viram nada que indicasse a eminência de uma arma nuclear ou mesmo desenvolvimentos nesse sentido». Os relatórios dos serviços de informação norte-americanos de há menos de ano referem que o Irão demorará 10 anos a desenvolver um míssil balístico

Mudança de regime - É totalmente descabido conceber uma mudança do regime iraniano sem uma guerra de invasão terrestre. O aiatolá tinha 89 anos, a sua sucessão está cuidadosamente preparada há anos, o exército e armamento do Irão não são derrotáveis com bombardeiros convencionais. (não se trata de uma mera opinião pessoal).  Esta não é guerra que se vença em "4 ou 5 semanas" se se pretender uma mudança de regime, Teerão não é Berlim, não basta "derrubar o muro". Está infelizmente, dolorosamente, demonstrado que o povo iraniano não consegue derrubar a monstruosa guarda revolucionária.  Mais... Os Estados do Médio Oriente têm armamento suficiente para resistir a ataques prolongados do Irão? Não, não têm. Os EUA ver-se-ão obrigados a fornecer armamento. Essa equação ainda não foi apresentada; estará equacionada? Trump diz que os EUA têm munições suficientes para uma "guerra que dure para sempre"; curiosamente não foi o que o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto, disse a Trump;  Nem o que Trump disse a Zelensky.  Armas para o Médio- Oriente parece que há, para vender para a Ucrânia... Misseis Patriot, mesmo a conta-gotas, não é coisa que se produza à fartazana.

2/07/26 - Um stock de armas "ilimitado" e o idiota do Biden que deu armas a Zelensky, de borla

Naturalmente também não explicaram por que é  Netanyahu quem decide a política americana de ataque ao Irão. Para além de não ser novidade o imprescindível apoio do lobby judeu aos candidatos políticos americanos, há por aí gente mal intencionada - só pode - que se refere a este descalabro apelidando-o de "Guerra Epstein" (o que sabe a Mossad? Que provas tem na sua posse?)...  E dava imenso jeito mandar os ranhosos dos palestinianos de Gaza e do West Bank para o Irão, o "americaníssimo" Palahvi recebe-los-ia de braços abertos, caso consiga  sentar-se na cadeira ocupada por um Líder-Supremo. O pormenor de muitos iranianos não lhe perdoarem que só tenha usado a voz a favor do seu povo desde que Trump o reactivou, não passa disso,  de um pormenor, insignificante perante a soberana vontade popular sob a mira de um exército de 1 milhão de homens. 

E depois há a Rússia...

A situação no Estreito de Ormuz parece ser a mais complexa. O tráfego de petroleiros parou. As companhias comerciais de navegação cancelaram os serviços no Golfo Pérsico, as companhias de seguros fizeram o mesmo. Ninguém se atreve a cruzar o domínio dos Houthis armados pelo Irão. Enquanto Israel e os Estados Unidos não garantirem a segurança de navegação no estreito o mundo enfrenta um grave choque petrolífero, no abastecimento e no mercado de acções,  sem considerar a possibilidade de novos ataques às infraestruturas petrolíferas de países do Golfo.

A guerra no Golfo aumentará os preços globais do petróleo. A verdade silenciosa é que Israel fornece armas, tecnologia e cobertura moral a Moscovo 

A Rússia perde o fornecimento de armas vindas do Irão mas..., altamente dependente das exportações de petróleo, não verá com maus olhos tão retumbante crise petrolífera; o conflito pode acabar enriquecendo o Kremlin.
O primeiro indicador da probabilidade desta oportunidade dourada para a Rússia:
O Irão solicitou à Rússia a activação dos sistemas S-400 e dos sistemas de guerra eletrônica Krasukha/Leer-3 em bases russas na Síria (Khmeimim e Tartus) para "cegar" os aviões israelitas.  A Rússia não só recusou o pedido como chegou a desligar transponders e sistemas de radar activos nas suas bases durante o voo de mísseis israelitas "a fim de evitar envolvimento acidental e qualquer pretexto acusatório de ter entrado no conflito"

Uma questão "sem importância":

Após o aviso aos estrangeiros - americanos e não só - que se encontram em 16 países do Médio Oriente para abandonarem rapidamente esses territórios, esqueceram-se de explicar como devem fazê-lo... com os espaços aéreos fechados e uma lista crescente de companhias aéreas a cancelar o trânsito na região: Quatar Airways, British Airways, Emirates, Turkish Airways, Air France, Lufthansa, Air India, Virgin Atlantic, Cathay Pacific... Isto poderá não parecer muito dramático, desde que nenhum de nós, ou dos nossos, esteja paralisado num aeroporto com mísseis a silvar acima das cabeças. Pois é, existem razões, múltiplas, para que as guerras sejam declaradas com autorização da exclusiva competência do Congresso, uma delas chama-se Plano de Evacuação. Nesta guerra combatida no meio de barris de petróleo, sem dúvida, houve um bem delineado plano de entrada, quanto a saídas... civis, militares, geo-políticas, regionais e mundiais, economia petrolífera... Logo se vê, entre mortos e feridos alguém há de escapar e, quanto ao Congresso, já foi ultrapassado, outra vez. 

O mercado da bolsa está em turbulência e os preços do petróleo sobem, dentro do governo americano os conselheiros lutam para explicar porque é que o país entrou em guerra, alternando as razões consoante os dias — e exactamente o que virá  a seguir. E a seguir a quê? 4 ou 5 semanas de guerra? Uma guerra prolongada? Até dizimarem as tropas iranianas? Até uma mudança de regime? Até Trump perceber que o sarilho é maior do que consegue digerir?

E a pergunta sacramental: No meio de uma crise económica interna, com a investigação Epstein a latejar, a situação em Gaza sem ver resolução para o misero estado em que se encontra, os aliados da NATO a fazerem um esforço supra-nacional para manterem o apoio à Ucrânia, por que é que Trump decidiu AGORA lançar uma guerra imprevisível contra o Irão?

E já que falei de NATO - assunto que, estranhamente, não é da predilecção do presidente dos Estados Unidos - uma última pergunta e depois calo-me: O que levou Trump durante o seu discurso no forum de Davos, mundialmente transmitido, a enfatizar as suas dúvidas de que a NATO defendesse os EUA se sofressem um ataque? Foi de tal forma enfático que, no meio de uma premeditadíssima troca de galhardetes, o secretário-geral da NATO lhe deu o justo troco (2º video)

VOZES DA UCRÂNIA

... a caminho do 5º ano, do último ano

Não nos cansemos de erguer a voz 

« A Liberdade da Ucrânia ainda não pereceu
Nem a sua Glória
Sobre nós, companheiros ucranianos
O destino sorrirá uma vez mais »

Acabou de ser publicado um mapa interactivo que abrange 6.088 fábricas russas de material de defesa. 
Foram expostos dados pessoais de 1milhão e 200 mil funcionários — números de passaporte, telefones e e-mails. 
O banco de dados pode ser filtrado por 16 categorias de produção: de sistemas de mísseis e munições a drones e guerra eletrônica. 
Das 6.088 empresas, apenas 2.290 estão sujeitas a sanções internacionais. As outras 3.798 estão agora expostas, mas intocadas.
São oferecidas recompensas por mais informações/publicações, acesso à rede e documentos confidenciais do sector de armamento russo 
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E CAIR UM RAIO QUE O PARTA?

 Hoje foi noite do State of the Union

É difícil encontrar tantos pulhas no mesmo sítio 

Trump entrou atrasado, claro, por volta das 2h da manhã GMT, 21h em Washington. Quando por fim chegou ao púlpito, depois de muito lhe lambusarem o anel, lá começou a falar.  Eu comecei a ouvir,  há dezenas de anos que oiço sempre o presidente dos EUA no State of the Union, seja ele quem for. Até o Trump.  

Aguentei estoicamente pouco mais de 10 minutos. O chorrilho de mentiras e auto-elogio fluia com arrogância incontida. O auto-enaltecimento e a pose de o-mais-poderoso ainda aguento mas as mais descaradas mentiras que são aplaudidas por quem as conhece a fundo... É demais... muito mais do que consigo suportar sem sentir e pensar coisas horríveis que não quero pensar nem sentir. Refugiei-me, tentei dormir.
Passava pouco das 3h fui espreitar o monstro.  Estava a fazer uma "manobra de génio":《Quem estiver de acordo comigo que se levante》, e atirou uma bojarda para o ar sobre "o governo ter como primeira obrigação a defesa da América", convencidíssimo de que conseguiria levantar toda a sala. Saíu-lhe a generalidade pela culatra, meia sala permaneceu sentada, olhares críticos, de soslaio, de isso-querias-tu... Seguiram-se insultos minimamente contidos, mascarados de descrédito. Visivelmente irritado pelo flop da sua esperteza, não obrigou meia sala a levantar-se, somado à pressão de vaias públicas, sondagens decrescentes e uma economia que teima em desmenti-lo, o Trump que pretendia uma imagem sorridente e de bem-amado derrapou na irritação e contraridade. "Deviam de ter vergonha", vociferou, como ele soubesse o que é ter vergonha.

Nesta altura resolvemos ir com os cães à rua, alguma alegria e sossego nesta noite de ódio destilado de um dos púlpitos mais poderosos da Terra. 

Quando voltamos, ao bater das 4h da manhã, o monstro estava a terminar. Trombudo, insatisfeito, irritado, apesar dos muitos apertos-de-mão-estou-aqui-estás-ver-me e das palmadinhas sorridentes nas costas.

Durante a sua arenga de 2horas, no dia em que a guerra na Ucrânia cumpriu 4 anos, o presidente dos EUA dedicou-lhe  uns 30 segundos: "Estamos a fazer todos os esforços, então a morrer milhares de soldados, nunca teria acontecido se eu fosse presidente na altura". Está feito, nem se lembrou que acabaria com a guerra no primeiro dia da sua segunda presidência... mas lembrou-se de que "já acabou com 8 guerras"

A minha noite foi irritante mas a dele, diga o que disser, foi pior. 

Ainda por cima não gosta de cães 

4 LONGOS E IMPIEDOSOS ANOS


Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2022 - Presidente Joe Biden, Casa Branca

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 Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2022 - Vladimir Putin, conferência de imprensa com o presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko

O presidente russo negou que pretenda invadir a Ucrânia, após alertas dos líderes ocidentais sobre uma incursão iminente, dado que Moscovo concentra mais de 150 mil soldados na fronteira.

«Estes exercícios militares são puramente defensivos e não representam uma ameaça para qualquer outro país. Foram planeados e todos os objectivos destes exercícios foram alcançados.»

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Quarta-feira, 24 de Fevereiro, 10h 03 GMT,  horas antes da invasão russa 

O Presidente Volodymyr Zelenskyy fez um emocionado discurso dirigido ao povo russo.

«Hoje fiz uma chamada telefónica para o Presidente da Federação Russa. O resultado foi o silêncio. Embora o silêncio devesse estar no Donbas. É por isso que quero dirigir-me hoje ao povo da Rússia. Dirijo-me a vós não como Presidente, mas como cidadão da Ucrânia.

Mais de 2.000 km de fronteira comum nos dividem. Ao longo dessa fronteira, as vossas tropas estão estacionadas, quase 200.000 soldados e milhares de veículos militares. Os vossos líders aprovaram que dessem um passo em frente, para o território de outro país. Esse passo pode ser o início de uma grande guerra no continente europeu.

Sabemos que de certeza não precisamos da guerra. Nem de uma Guerra Fria, nem de uma guerra quente. Nem de uma guerra híbrida. Mas se formos atacados pelas tropas, se tentarem tirar-nos o nosso país, a nossa liberdade, as nossas vidas, as vidas dos nossos filhos, nós defender-nos-emos. Não atacaremos, mas defender-nos-emos. E quando nos atacarem, verão os nossos rostos, não as nossas costas, os rostos.
A guerra é um grande desastre e este desastre tem um preço elevado, em todos os sentidos da palavra. As pessoas perdem dinheiro, reputação, qualidade de vida, perdem a liberdade. Mas o principal é que as pessoas perdem os seus entes queridos, perdem-se a si próprias.

Disseram-vos que a Ucrânia representa uma ameaça para a Rússia. Não era assim no passado, não é no presente e não será no futuro. Vocês exigem garantias de segurança da NATO mas nós também exigimos garantias de segurança. Segurança para a Ucrânia por parte de vós, da Rússia e as outras garantias do memorando de Budapeste.
Mas o nosso principal objectivo é a paz na Ucrânia e a segurança do nosso povo, os ucranianos. Para isso estamos prontos para falar com qualquer pessoa, incluindo convosco, em qualquer formato, em qualquer plataforma. A guerra privará todos das garantias de segurança – mais ninguém terá garantias de segurança. Quem sofrerá mais com isso? O povo. Quem menos quer isso? O povo. Quem pode impedir isso? O povo. Mas existem essas pessoas entre vós? Tenho a certeza.

Eu sei que "Eles" não vão passar o meu discurso na TV russa mas o povo russo precisa de o ver,  precisa de saber a verdade e a verdade é que é tempo de parar agora, antes que seja tarde demais. E se os líderes russos não quiserem sentar-se à mesa connosco, em prol da paz, talvez se sentem à mesa convosco. Os russos querem a guerra? Gostava de saber a resposta. Mas a resposta depende apenas de vós, cidadãos da Federação Russa.»
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Putin lançou a ilegal invasão da Ucrânia em grande escala a 24 de Fevereiro de 2022, marcando o início da guerra de agressão à Ucrânia. 
Cumpridos hoje 4 anos sobre essa invasão, a Rússia controla cerca de 20% do território ucraniano, considerando posições conseguidas em 2014

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2 de Dezembro de 2025 - Vladimir Putin, Moscovo
« Não planeamos entrar em guerra contra a Europa. Já o disse centenas de vezes. 
Mas se a Europa quiser travar uma guerra contra nós e, de repente, iniciar uma guerra connosco, estaremos prontos.» in http://en.kremlin.ru/ (site não seguro)

Contexto:
Pergunta: Está prestes a reunir-se com Steven Witkoff, que veio a Moscovo especificamente para este fim. Na prática, as negociações estão a decorrer apenas com o lado americano. Porque é que os europeus estão em silêncio – porque é que estão tão distantes deste processo?

Vladimir Putin: Os europeus não estão em silêncio. Sentem-se insultados pelo que percebem como a sua exclusão das negociações. No entanto, devo notar que ninguém os excluiu. Eles excluíram-se. Mantivemos contacto próximo com eles. Depois, cortaram abruptamente o contacto com a Rússia. Foi por iniciativa deles. Por que razão fizeram isso? Porque abraçaram a ideia de infligir uma derrota estratégica à Rússia e, ao que tudo indica, continuam a viver sob essa ilusão. Intelectualmente, compreendem – compreendem-no perfeitamente – que esta possibilidade já se dissipou há muito tempo, que nunca foi viável; acreditaram no que desejavam, mas ainda não conseguem e não querem admitir. Retiraram-se deste processo por vontade própria – este é o primeiro ponto.

Em segundo lugar, agora, vendo que o resultado não lhes agrada, começaram a sabotar os esforços da actual administração norte-americana e do Presidente Trump para alcançar a paz através de negociações. Eles próprios abandonaram as conversações de paz e estão agora a obstruir o Presidente Trump.

Em terceiro lugar, não têm uma agenda de paz; estão do lado da guerra. Mesmo quando  tentam introduzir alterações às propostas de Trump, vemos isso claramente – todas as suas alterações visam um único objectivo: obstruir completamente todo este processo de paz, apresentar exigências totalmente inaceitáveis ​​para a Rússia (eles compreendem isto) e, consequentemente, atribuir a culpa pelo colapso do processo de paz à Rússia. Esse é o objectivo deles. Vemos isso claramente.

Portanto, se desejam realmente regressar à realidade, com base na situação que se desenvolveu “no terreno”, como se diz nestes casos, que assim seja, não temos objecções.

Pergunta: O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria, Szijjártó, disse hoje que nos poderíamos encontrar em estado de guerra com a Europa literalmente hoje. Diz que a parte europeia da NATO planeia colocar as suas forças em plena prontidão de combate até 2029 e que, até 2030, existe o risco de um conflito armado. Esta é uma afirmação muito séria, quase sensacionalista. O que pensa disso? Estamos realmente a preparar-nos para algo?

Vladimir Putin: Não planeamos entrar em guerra contra a Europa. Já o disse centenas de vezes. Mas se a Europa quiser travar uma guerra contra nós e, de repente, iniciar uma guerra connosco, estaremos prontos. Não deve haver dúvidas sobre isso. A única questão é se a Europa, de repente, iniciar uma guerra contra nós, o que penso que acontecerá muito rapidamente... A Europa não é a Ucrânia. Na Ucrânia, agimos com precisão cirúrgica. Percebe o que quero dizer, não percebe? Não é uma guerra no sentido directo e moderno da palavra. Se a Europa, de repente, decidir entrar em guerra contra nós e realmente levar isso para a frente, então poderá surgir muito rapidamente uma situação em que ficaremos sem ninguém com quem negociar.
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28 de Fevereiro, 2022 - Ilha da Cobra ao largo de Odessa 



PETROLÍFERA E IMOBILIÁRIA, S.A.

No início de 2026, após a invasão da Venezuela para prender  Maduro, o governo dos EUA começou  a gerir o envio e a venda de 50 milhões de barris de petróleo venezuelano,  Segundo a própria administração, estes 50 milhões de barris são apenas o primeiro lote e os envios vão continuar indefinidamente. Para Trump isto é justíssimo porque a Venezuela tem estado a "roubar" activos petrolíferos americanos no solo venezuelano.

Os EUA estão a flexibilizar as sanções selectivamente, permitindo o transporte e a venda deste crude nos mercados globais . Os lucros destas vendas são controlados pelo governo dos EUA para garantir que beneficiam "tanto os EUA como a Venezuela".

A Chevron foi autorizada a exportar até 150.000 barris de petróleo venezuelano por dia e controla o  envio de petróleo venezuelano para os EUA

A receita das vendas de petróleo foi depositada em contas controladas pelos EUA, sendo o dinheiro "libertado de volta para a Venezuela a critério dos EUA".

As centenas de milhões de dólares que os Estados Unidos estão a arrecadar com a venda de petróleo venezuelano estiveram bloqueados numa conta bancária no Qatar desde, sensivelmente, a primeira semana de Janeiro 

Há 15 dias Trump emitiu uma ordem executiva na qual afirmou que quaisquer tentativas de penhorar, bloquear ou impor outras medidas judiciais reivindicando estes fundos estão bloqueadas; justificou o bloqueio do dinheiro, gerido por si,  no Qatar como uma "forma de impedir que aqueles que têm direitos sobre as receitas do petróleo venezuelano tenham acesso ao dinheiro que os EUA estão a gerar com estas vendas".  E explicita a mesma ordem que, "se os fundos não forem libertados de tais entraves legais, isso interferirá substancialmente com os nossos esforços cruciais para garantir a estabilidade económica e política na Venezuela".

Os facto de os fundos terem sido enviados para o Qatar em vez de mantidos em bancos americanos ou enviados diretamente para a Venezuela, permitiu uma "duvidosa" transparência por parte dos EUA na movimentação do dinheiro, e da rentabilização gerada.

 A menos que haja algum plano, que venha a público e seja aprovado pelo Congresso, regulamentando a estrutura governamental para esta quantidade de dinheiro, quem terá o controlo, os vários controlos anti-corrupção e de combate ao branqueamento de capitais que serão implementados,  isto afigura-se como uma espécie de "fundo secreto" particularmente gerido ao abrigo de cláusulas, e taxas de juro, desconhecidas. Afigura-se...

A verdade é que não há qualquer base legal para um presidente criar uma conta offshore controlada por si para que possa vender bens apreendidos pelos militares norte-americanos. 

Vários congressistas e senadores manifestaram a sua preocupação sobre a forma como a conta era gerida e se o acordo será juridicamente sustentável. O líder democrata no Senado, Chuck Schumer  e o senador Adam Schiff  delinearam um projecto-lei (que foi apresentado na quinta-feira, 19Fev) solicitando que o Gabinete de Responsabilidade Governamental (GAO) realize uma auditoria independente à conta do Qatar.

Face a "contrariedades legais" e reveses nas aplicações de leis inconstitucionais inesperadamente barradas pelo Supremo Tribunal Federal, na passada terça-feira, 17 Fev., e após a receita ter ultrapassado o primeiro bilião de dólares, a administração Trump suspendeu o envio de dinheiro das vendas do petróleo venezuelano para o Qatar enquanto anunciava que os EUA têm já acordos de curto prazo para a venda de mais 5 billiões em petróleo bruto nos próximos meses.

E os venezuelanos a verem-no passar...

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O presidente dos Estados Unidos está a roubar o povo americano.

O Presidente Trump anunciou na quinta-feira, 19 Fev., durante a reunião inaugural do  "Conselho da Paz"  -  criado por si e do qual é dirigente vitalício  -  uma contribuição de 10 mil milhões de dólares do governo dos EUA para a reconstrução de Gaza,  descrevendo a organização como o principal órgão mundial para a paz e a harmonia internacionais.

O "Conselho da Paz", a recém-criada organização internacional inclui uma lista de nomes importantes das nações autocratas do mundo como a Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Egipto, Turquia, Israel, Argentina, Hungria, Bulgária. Cada um dos presentes pagou (os contribuintes nacionais pagaram) mil milhões de dólares por um lugar permanente à mesa de Trump, ladeado por Witkoff e Kushner, os "pacificadores" entre a Ucrânia e a Rússia 

Nomeou-se presidente e, de acordo com o documento que escreveu e apresentou, isso significa que é ele quem dita as regras de toda a organização, tem autoridade plena e exclusiva e designará o seu sucessor. Portanto, se Donald Trump deixar de ser presidente dos Estados Unidos - o que parece não lhe passar pela cabeça -  permanecerá presidente do Conselho da Paz, vitaliciamente. 

Trump criou uma organização, escolheu quem faz parte dela, escolheu o Conselho, nomeou-se presidente e agora a transfere 10 biliões de dólares dos contribuintes americanos para uma conta que só ele controla, sem qualquer supervisão

Colocando os factos listados como se ocorressem num país de gente minimamente normal, o presidente americano em exercício desvia 10 mil milhões de fundos públicos para um Conselho privado, viola a Constituição, as leis orçamentais federais e todas as salvaguardas anti-corrupção básicas em vigor nos EUA

Não é preciso ter conhecimento das leis básicas americanas, de qualquer Estado civilizado,  para se ter a clara noção de que isto é profunda e perturbadoramente errado, impróprio e juridicamente inaceitável, independentemente de ser o antónimo da apregoada "America first" pela qual os trumpinhos matam e esfolam

O primeiro plano do Conselho da Paz, apresentado pelo genro do presidente, Jared Kushner, em Davos este ano, (porquê ele ???) é uma construção de luxo de 25 biliões de dólares em Gaza para investidores globais. É um plano imobiliário para ricos e famosos a ser construído sobre os escombros de Gaza. 

Para lá da corrupção, tráfico de influencias e dos mais nojentos negócios envolvidos, este plano imobiliário a ser construído em terras empapadas em sangue e sofrimento inimaginável é a coisa mais chocante e imoral concebível desde os campos de morte de Hitler. Porque não construir uma Disneyland em Auschwitz?

Numa perspectiva meramente americana - só relevante porque Trump é o presidente dos EUA -  como é que o povo americano verá 10 biliões de dólares do seu dinheiro, pelo qual trabalhou e pagou impostos, ser utilizado para a construção de quilómetros e quilómetros de resorts de luxo no Médio Oriente onde nunca porá os pés? Isto em simultaneidade com a perda dos seus planos de saúde e educação, a retirada de direitos de assistência aos veteranos, os custos de alimentação e habitação altíssimos, os bens importados, que são muitos, multiplicando preços graças às "maravilhosas" taxas de importação 

Podem ignorar que o Conselho da Paz está repleto de criminosos de guerra e ditadores, podem ignorar que o presidente se está a apropriar de dinheiro do povo americano sem sequer passar pelo promenor da aprovação do Congresso,  podem ignorar que o genro do presidente está encarregue do primeiro projecto, podem ignorar que este projecto não é a reconstrução de Gaza nem sequer a reabilitação de condições mínimas de vida para o povo palestiniano - hospitais, escolas, habitação, infraestruturas de água, eletricidade, esgotos - longe disso, muito pelo contrário, os que restam que vão morrer longe. Trump quer uma cidade dourada onde mande ele, onde se fará ainda mais rico, onde os senhores dos negócios escuros, tenebrosos, acorram a beijar-lhe o anel e a combinar mais lucrativas maldades

Isto é a definição de absurdo. De malvadez e imoralidade absurdas

Alguns, demasiados, americanos podem ignorar tudo isto mas por certo não conseguirão fazê-lo quando se aperceberem de que o "Conselho da Paz", criado de acordo com o plano de Trump para Gaza, está para lavar e durar; muitos milhões de dólares americanos voarão dos cofres do Estado para "a paz mundial", para além ou em vez de Gaza, dependendo das oportunidades. A Ucrânia, entre outros, está na lista.

O plano de Trump para Gaza levou a um frágil cessar-fogo em Outubro visando o Prémio Nobel da Paz a ser anunciado em Novembro; deveria supervisionar a governação temporária de Gaza. Qual governação? Como é patente, o cessar-fogo tem sido violado repetidamente sem que Trump levante qualquer engulho a Netanyahu – desde o cessar-fogo morreram sob ataque mais de 600 pessoas, outros morrerão por falta de meios e assistência. 

Posteriormente, Trump já afirmou que o Conselho será alargado para lidar com conflitos globais.
E conflitos globais é o que não falta. E se faltarem inventam-se


Trump teve o descaramento de convidar o Papa Leão XIV para integrar o Conselho da Paz... Até mandou Vance levar-lhe o convite por boca... 
Leão XIV nem respondeu, fez saber a sua decisão através do cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, que comunicou aos jornalistas que o Papa não aceitou o convite e que ficaram "perplexos" com alguns pontos do plano, que existem "questões críticas" que precisam de ser resolvidas.

«Uma das preocupações do Vaticano é que, a nível internacional, seja sobretudo a ONU a gerir estas situações. Os esforços para lidar com situações de crise devem ser geridos pelas Nações Unidas, este é um dos pontos em que temos vindo a insistir.»

A Casa Branca classificou a decisão do Vaticano como “profundamente lamentável”.

A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, retrucou com o habitual nariz empinado e ar vagamente enjoado: «Não creio que a paz deva ser partidária, política ou controversa. E, claro, o governo quer que todos os que foram convidados a integrar o Conselho da Paz o façam. Esta é uma organização legítima com dezenas de países membros de todo o mundo e consideramos que esta é uma decisão lamentável.». Não creio que a paz... Qual paz?

Se, para esta gente que tem estado em crescendo, não "vale tudo", por favor expliquem-me o que é que "não vale" 


A VER NAVIOS...


Trump, na sua qualidade de presidente dos EUA, publicou este sábado nas páginas da White House nas redes sociais, mais uma das suas alucinações perniciosas e vingativas:

«Trabalhando com o fantástico governador da Louisiana, Jeff Landry vamos enviar um grande navio-hospital para a Gronelândia para cuidar das muitas pessoas que estão doentes e não estão a receber cuidados lá. Ele já está a caminho!!!»

 


 O primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, disse "não, obrigado" num comunicado em resposta a Trump.

«A ideia do presidente Trump de enviar um navio-hospital americano para a Gronelândia foi anotada. Mas temos um sistema público de saúde onde o tratamento é gratuito para os cidadãos. Esta é uma escolha deliberada — e uma parte fundamental da nossa sociedade. Não é assim que funciona nos EUA, onde é preciso pagar para consultar um médico."

A Gronelândia está "aberta ao diálogo e à cooperação. Mas, por favor, falem connosco em vez de fazerem declarações aleatórias nas redes sociais. O diálogo e a cooperação exigem respeito pelo facto de as decisões sobre o nosso país serem tomadas aqui, em casa.»

O que se passou, de facto?

 A Defesa Dinamarquesa do Comando Conjunto do Ártico retirou um membro da tripulação de um submarino dos EUA que se encontrava ao largo da costa da Gronelândia e que necessitava de assistência médica imediata. 

Num comunicado oficial, o Comando Conjunto do Ártico dinamarquês detalhou a operação de resgate internacional sem revelar as razões que levaram à declaração de "emergência médica" ou sobre o quadro clínico do marinheiro, que foi transferido para as autoridades de saúde da Gronelândia num um hospital em Nuuk.

O camarada Trump não só não agradeceu a intervenção do Comando Dinamarquês como achou por bem aproveitar a ocasião para - falsamente, claro - denegrir a capacidade de assistência médica da Dinamarca à população da Gronelândia inventando uma situação inexistente

A CNN contactou a Casa Branca e o gabinete do governador Landry para obter detalhes, sem êxito.
O Pentágono encaminhou as perguntas para o Comando Norte dos EUA
O Comando Norte dos EUA encaminhou para a Marinha dos EUA
A Marinha não respondeu ao pedido de comentário nem de esclarecimento


Landry, nomeado por Trump em Dezembro para servir como enviado especial à Gronelândia, disse nas redes sociais que está "orgulhoso por trabalhar com Trump nesta questão tão importante".

Uma desgraça nunca vem só

Ao abrigo do seu "Conselho da Paz" bem podia enviar um navio-hospital para Gaza, mas não lhe ocorre...

MUNIQUE 26 - A INSUBMISSÃO

No que toca a política internacional a informação dificilmente é clara, mesmo quando se pretende que seja tão aberta quanto possível. A política internacional nunca, nunca, tem só um tópico, é sempre composta por um entrelaçado de factos, conversações, cedências e exigências, flutuações de poderes, de vários poderes. Se, por exemplo, tomarmos uma notícia sobre a Ucrânia, não teremos uma visão clara se não considerarmos os acontecimentos nos EUA; isto parece-me óbvio. Mas também teremos de considerar o Irão, o que já não será tão óbvio para muito boa gente. E por aí fora... As notícias sobre o panorama internacional são demasiado compartimentadas, não proporcionam a visão global, e mais realista, do tabuleiro onde se movimenta o mundo, no todo ou em parte. E há que saber separar o que é realmente importante e consequente do que é conjuntural e consumado.

Reuniões globalistas, como o Fórum Económico de Davos, a Conferência de Segurança de Munique,  são fundamentais para a aquisição de uma perspectiva globalista porque abordam questões diversas analisadas e expostas sob tantos ângulos quantos os participantes intervenientes, ou quase. Verdade seja dita que para isto é necessário que  "os intervenientes" saibam, queiram e, mais importante, tenham a integridade necessária à exposição factual de situações complexas, sem isso não passam de discursos tácticos, de mais do mesmo.

A primeira-ministra da Dinamarca,  Mette Frederiksen, com uma presença mais discreta na Conferência de Segurança de Munique do que os líders europeus "da frente", fez várias intervenções de uma lucidez e objectividade invulgares na boca de políticos que têm de pesar as palavras na balança da conveniência diplomática. O que se chama em bom português chamar os bois pelos nomes. Começou por deixar absolutamente claro que Trump não se sente minimamente espartilhado nem comprometido com os recentes acordos assinados no âmbito da defesa do Ártico: 

«Acho que o desejo do presidente dos EUA é exactamente o mesmo. Ele leva esse assunto muito a sério e, como sabe, discordo dele. Discordamos como Reino da Dinamarca e, aliás, a Europa discorda. A pressão sobre a Gronelândia, sobre o povo da Gronelândia  é totalmente inaceitável. Sempre fomos um parceiro muito fiável e forte para os EUA.  Se for uma questão de defesa nacional, se for uma questão de segurança comum, gostaremos sempre de trabalhar em conjunto com os EUA e isso é possível. Todos nos perguntam se achamos que acabou. Não, não achamos que tenha acabado. Temos um grupo de trabalho, o que é bom, e vamos tentar encontrar uma solução, faremos tudo o que pudermos. Mas, claro, existem linhas vermelhas que não serão ultrapassadas.»

Posto isto, as linhas que separam "uns" dos "outros" estão perfeitamente marcadas; quem está unido e quem está do outro lado do tabuleiro onde se movimenta o mundo, no todo ou em parte, resta expor o entrelaçado dos factos. Mette Frederiksen fê-lo sem cerimónias. Transcrevo a tradução, o vídeo fica a meio e vale a pena ver como ela o diz, a linguagem vai muito além das palavras

«Esta é uma mensagem muito dura para todos os europeus. Quer dizer, temos de ser capazes de lidar com mais crises ao mesmo tempo, porque o velho mundo não vai voltar e está tudo interligado. Portanto, a guerra na Ucrânia nunca foi sobre a Ucrânia. Sim, são aqueles que estão a sofrer mas é sobre a Rússia e sobre os sonhos imperialistas da Rússia. E o mesmo acontece com a região do Ártico. Não se trata da região do Ártico, trata-se dos sonhos imperialistas da Rússia. A guerra híbrida contra a Europa, que acontece todos os dias, tem de ser enfrentada ao mesmo tempo que a guerra na Ucrânia e no Ártico. Aliás, a porta está agora completamente aberta para a Rússia na região do Sahel; estamos fora disso,  os nossos problemas com o terrorismo não fazem parte das nossas principais preocupações neste momento. Posso garantir que vão regressar e provavelmente regressarão na mesma altura em que outra coisa esteja a acontecer no flanco leste. Portanto, é uma nova... quer dizer, esqueçam o que é lidar com uma só crise de cada vez. Precisamos de ser capazes de lidar com tudo ao mesmo tempo e, lamento dizer mas penso que faz parte da estratégia de diferentes partes do mundo, neste momento, lançar o máximo de conflitos, discussões, tweets e mensagens para cima da mesa em simultâneo. para deixar todos a correr de um lado para o outro como galinhas sem cabeça. Quando perguntou, é uma óptima pergunta: quanto tempo levamos a responder a tudo isto? Demasiado. Há duas lições muito importantes a aprender enquanto europeus: Não podemos construir a nossa estratégia com base no que os outros estão a fazer. Houve um momento europeu em Janeiro? Sim, houve. E agora a nossa obrigação é transformar este momento europeu relativo à Gronelândia numa estratégia europeia. Acho que isso é extremamente importante. A outra lição aprendida é que, quando nos unimos e quando somos capazes de responder tão eficazmente quanto os outros, os mercados reagem e depois podemos ver alterações nas mensagens políticas dos EUA»

E Rubio? 

     O secretário de Estado Rubio tinha a missão de adoçar uma Europa que se tornou reactiva e incrédula face aos EUA. 
Fez um discurso de Dia dos Namorados, tarefa bastante facilitada depois da débacle de Vance na Conferência do ano passado, plena de coléricas acusações de que a Europa está a suprimir a liberdade de expressão e a democracia, a enfrentar um declínio civilizacional;  Rubio não teve de se esforçar muito para parecer amigável... Mas não foi. 
O discurso foi diferente no tom - Rubio é educadinho - mas não na essência. Evocou o passado, absolutamente passado, e serviu amarguras com açúcar - os Estados Unidos estão preparados para "reconstruir" mas apenas e só de acordo com os seus valores - e os "valores" dos EUA são os ditados pela moralidade de Trump, não pela lei internacional, a frase é dele, Trump, não minha. Convenhamos que deixa muito, muitíssimo , a desejar. 
«Os EUA precisam de ver uma Europa reformada, disse aos aliados de longa data – não apenas detalhes sobre os orçamentos de defesa, mas uma mudança radical no sistema de valores do continente»
Da Gronelândia, crise que já este ano agitou a unidade da NATO, nem uma palavra. Sobre a Ucrânia, só quando questionado após o discurso e fez elevar algumas sobrancelhas ao dizer que  que a administração Trump ainda não sabia se a Rússia queria realmente fazer um acordo de paz (apesar de Trump ter afirmado no mesmo dia que Putin quer fechar um acordo e que Zelensky deve ceder terreno diplomático para não perder a oportunidade).
O caminho para o coração da Europa não passa pela evocação de um passado familiar, "A América será sempre a filha da Europa" não desperta nos europeus sentimentos de ternura. O que a Europa quer é ver a América entregue a alguém que não seja uma propriedade de Putin ao seu serviço.
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«Senhoras e senhores, é com grande prazer que me encontro aqui com o Primeiro-Ministro do Reino Unido, um aliado e amigo inabalável.
Caro Keir, ambos conhecemos o contexto da nossa discussão, a natureza das relações transatlânticas.
Passaram quase quatro anos desde o início da imprudente agressão da Rússia contra a Ucrânia.
Enfrentamos a ameaça muito clara de forças externas que tentam enfraquecer a nossa união a partir de dentro, o regresso da competição abertamente hostil e das relações de poder.
O modo de vida europeu, as nossas democracias, as fundações democráticas e a confiança dos nossos cidadãos estão a ser desafiados de novas formas em tudo, desde territórios a tarifas e regulamentos tecnológicos.
Fundamentalmente, tudo isto aponta para uma realidade simples no mundo fragmentado de hoje.
A Europa precisa de se tornar mais independente. Não há outra escolha.» 
Abertura do Discurso de von der Leyen