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TACITAMENTE

 Porquê um tão prolongado silêncio, perguntam-me alguns frequentadores do Real Gana, se estou bem, se emigrei, se... Nada disso, ninguém acertou; é que olho para o que nos dizem do mundo e acho que mais vale estar calada. Gosto de chamar os bois pelos nomes, gosto de quem chama os bois pelos nomes, e, o que vejo, são dissertações acerca dos nomes que se vão chamando aos bois, doutas opiniões sobre os nomes com que os bois são apelidados, muita conversa, muitos "factos do dia" mas pegas de caras... Não vejo, não encontro e não comento.

O busílis do momento - entre os USA e o Irão - dá enjoo às mais robustas entranhas; agora há cessar-fogo, agora não há, agora vamos partir aquilo tudo, agora damos mais umas semanas, agora estamos mesmo à beira de um acordo, agora bombardeamos aqui e ali... Não há pachorra, as tretas sucedem-se à velocidade de escape.

O Trump quer acabar com a guerra? Quer, precisa baixar o preço dos combustíveis, dos fertilizantes, quer ficar bem na fotografia, ser O presidente americano que resolveu a ameaça iraniana. Os stocks de armamento estão baixos, o custo de vida altíssimo. Por outro lado as negociatas correm-lhe lindamente, dá-lhe imenso gozo ver a Europa em aflição perante uma crise de petróleo sem precedentes e ele com as cartas na mão. O Putin quer que a guerra acabe? É um 50/50... Sente falta dos mísseis iranianos mas tem exportado petróleo como há anos não conseguia, mesmo com riscos, mesmo à socapa - ainda hoje os franceses lhe arrestaram mais um petroleiro sancionado - e uma Europa em aperto é uma mais-valia considerável. O Irão quer acabar com a guerra? Quer, mais do que todos, mas não cede a sua autonomia; o Irão é o mais imperialista dos imperialistas, quando a América do Norte era um vasto vazio populado aqui e ali por tribos índias o Império Persa dava lições ao mundo
Porém nenhuma destas questões encerra o "nome do boi".

O "boi" chama-se Gaza.

O Irão quer englobar em qualquer acordo firmado com os EUA o fim dos ataques de Israel ao Líbano;  Trump está-se a marimbar para o Líbano, mas Netanyahu não... Israel precisa crescer, geograficamente: O Líbano, a Cisjordânia, e até a Jordânia se a Europa deixasse.

Kushner encabeça a fila de investidores, a Palantir de Peter Thiel aguarda pôr o seu homem na Casa Branca
Netanyahu prometeu Gaza a Trump, uma prenda embrulhada em papel de ouro, com a garantia da sua segurança, para aí ser construído o império Trump, o Estado Trump, sustentado por uma Cidade-Estado tecnológica, embrião das mais inconfessáveis estratégias de Inteligência Artificial e com uma cripto-moeda própria. 

Ok?

Pronto. 

Depois há tudo o resto: Putin aguarda que a Ucrânia seja votada ao abandono em tempo (que lhe seja) útil enquanto a Europa luta para se armar e estabilizar a inflação perante a crise petrolífera. A China vai semeando contactos e negócios enquanto os EUA se auto-isolam do Ocidente, e da NATO. A Europa está minada de coligações da rapaziada promovida e ajudada pela Rússia nas extrema-direita europeias

Então e por cá, pelo nosso cantinho à beira-mar plantado? Por cá não se faz política nem se olha para o país, faz-se estratégia partidária. Pior, não é só por cá... A União Europeia está debaixo de fogo enquanto segura pontas negligenciadas. O Reino Unido está na mesma onda, a Espanha nada nas mesmas águas, em França está prestes a recomeçar; governar é uma ideia ultrapassada, é preciso destabilizar, deitar por terra, enfurecer os povos - tornar o terreno fértil para extremismos.

Vale a pena falar disto? Disto tudo? É uma perda de tempo, o que "está a dar" são as patranhas mediáticas e os "factos" escandalosos que entretêm e revoltam as gentes


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