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A MAIOR DEMOCRACIA DO MUNDO ???


Trump dirigiu-se  ontem aos americanos, em horário nobre, para, segundo ele, expor o "ataque a que estão sujeitas as eleições nos States"  e, também segundo ele,  apresentar «provas da campanha de influência da China, encobrimento por parte de responsáveis dos serviços secretos dos EUA e fraude no Michigan».  As "provas" apresentadas, quase totalmente em e-mails largamente rasurados/censurados e fora de contexto, não corresponderam às mais benevolentes interpretações do alegado; a China tentou influenciar os eleitores através de publicações manipuladoras? Claro que sim, fá-lo há décadas. Daí a ter alguma vez alterado resultados vão anos-luz. Mais... Se interferência nas eleições 2020 foi permitida e se dados foram roubados, foi durante a Administração Trump 2016/2020. (Chama-se "um tiro no pé"). Curiosamente Trump esqueceu-se de referir a comprovada interferência russa que, quando das eleições em 2016, gerou investigações que culminaram em prisões efectivas (Paul Manafort, director de campanha, Machael Flynn, conselheiro de segurança, Roger Stone, lobbysta  em comunicações com responsáveis russos e com a WikiLeaks, entre outros tenebrosos personagens, depois todos com penas comutadas, perdoadas por Trump vá-se lá perceber porquê)

As maiores cadeias de TV americanas, através do espectro político, da tão leal Fox News à NBC passando pela ABC e a rigorosa CNN Internacional, recusaram tempo de antena para transmitir em directo a tão bombasticamente anunciada comunicação.. Noticiaram sim mas só transmitiram imagens após a passagem pelo crivo da verificação dos factos.
Factualmente já ninguém aguenta a permanente fabulação da Administração Trump, muito menos quando lança as sementes da manipulação das próximas eleições face a uma derrota mais do que previsível.

Isto de não se controlar os media privados, como se faz nos países que mantêm as rédeas curtas com media estatais, é um aborrecimento

O discurso à nação foi publicado por todas essas cadeias noticiosas mas cada uma delas anotou-o com as ressalvas consideradas apropriadas. Deixo aqui um limpíssimo exemplo

Uma vez que houve quem se desse ao trabalho de assistir ao perigoso e delirante discurso de Trump - e estou a ser amável -  deixo, sumariamente,  aquilo que é fundamental ter presente face às próximas eleições de Novembro 26 

—  Trump começou o seu discurso com uma retórica contundente colocando em dúvida a segurança eleitoral do país, alegando que esta «fica catastroficamente aquém do necessário» e dedicou-se a granjear apoios à sua proposta de lei de reforma eleitoral federal que se encontra paralisada.

— Revelou um conjunto de documentos recentemente desclassificados; Nenhuma destas "novas informações" sugere sequer que quaisquer contagens eleitorais anteriores — incluindo a corrida presidencial de 2020 que Trump perdeu — tenham sido afectadas por interferência estrangeira ou fraude.

— Preparou abertamente o terreno para contestar as eleições intercalares. Afirmou que as  eleições americanas estavam «comprometidas» criando, sem margem para dúvidas, a justificação para manipular os resultados antes mesmo de um único voto ter sido contado.

— Disse que vai «corrigir vulnerabilidades nas nossas eleições». Tradução: disse exactamente como tenciona interferir.

— Contradisse-se em relação à China em tempo real: Primeiro alegou que a China está a «tentar influenciar» e a «minar a confiança» nele, Trump; logo a seguir disse que estava a fazer um «óptimo trabalho» com eles. Não convém hostilizar abertamente um ditador tão simpático que recentemente o recebeu com tantos salamaleques.  Não conseguiu manter a coerência na sua própria teoria da conspiração mas o povão esquece essas coisas

— Afirmou que a China manipulou as eleições de 2020, levando jornalistas a escrever  artigos negativos sobre ele porque a China queria que Biden ganhasse, porque ele, Trump é muito «perspicaz em relação a eles».

— Disse que encontraram «sacos para queimar» da Administração Obama cheios de material supostamente incriminatório, mas nunca revelou, nem revelará, o que continham. Todos sabemos que Trump quer poupar Obama a uma vergonhaça incriminatória, claro...

— Afirmou que precisa de «medidas urgentes» para impedir que as eleições sejam «hackeadas», citando as máquinas manipuladas por Maduro na Venezuela em 2020 como a sua «prova». Prova essa que foi descartada em todas as investigações apesar dos esforços de várias proeminentes figuras encabeçadas pelo o malogrado Rudy Giuliani a escorrer suor com tinta do parco cabelito e a inacreditavelmente lunática Sidney Powell (posteriormente perdoados por Trump na 2ª leva de comutações de penas juntamente com outros conspiradores criminosos e com a turba "cheia de amor" que assaltou o Capitólio a 6 de Janeiro)

— Atacou as emissoras de TV por não transmitirem em directo a sua comunicação, acusando-as de fazer «parte da conspiração para manipular as eleições»  sugerindo que lhes fossem retiradas as licenças de transmissão.

— Anunciou que pretende apreender os dados eleitorais dos Estados que considera «vulneráveis» antes das eleições intercalares.

Sua próxima arma é o "Save America Act". É a supressão de votos disfarçada de segurança eleitoral. Até agora, senadores democratas e mais do que suficientes republicanos bloquearam o projecto.  Trump está a exercer inconfessáveis pressões sobre os senadores para que cedam — e a pressão vai aumentar com o aumento do desespero. 

Estamos perante um presidente dos Estados Unidos da América, em exercício, a revelar passo a passo como tenciona tomar de assalto as eleições intercalares de 2026, com mentiras comprovadas e teorias da conspiração.  O país auto-apelidado como "baluarte da democracia", the greatest democracy on Earth

(como se um sistema eleitoral colegial/indirecto pudesse ser "the greatest democracy")

Se é possível ali é possível em qualquer lado, é importante, muito importante, compreender o que ali se passa. E compreender o que se passa fora dali


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