As maiores cadeias de TV americanas, através do espectro político, da tão leal Fox News à NBC passando pela ABC e a rigorosa CNN Internacional, recusaram tempo de antena para transmitir em directo a tão bombasticamente anunciada comunicação.. Noticiaram sim mas só transmitiram imagens após a passagem pelo crivo da verificação dos factos.
Factualmente já ninguém aguenta a permanente fabulação da Administração Trump, muito menos quando lança as sementes da manipulação das próximas eleições face a uma derrota mais do que previsível.
Isto de não se controlar os media privados, como se faz nos países que mantêm as rédeas curtas com media estatais, é um aborrecimento
O discurso à nação foi publicado por todas essas cadeias noticiosas mas cada uma delas anotou-o com as ressalvas consideradas apropriadas. Deixo aqui um limpíssimo exemplo
Uma vez que houve quem se desse ao trabalho de assistir ao perigoso e delirante discurso de Trump - e estou a ser amável - deixo, sumariamente, aquilo que é fundamental ter presente face às próximas eleições de Novembro 26
— Trump começou o seu discurso com uma retórica contundente colocando em dúvida a segurança eleitoral do país, alegando que esta «fica catastroficamente aquém do necessário» e dedicou-se a granjear apoios à sua proposta de lei de reforma eleitoral federal que se encontra paralisada.
— Revelou um conjunto de documentos recentemente desclassificados; Nenhuma destas "novas informações" sugere sequer que quaisquer contagens eleitorais anteriores — incluindo a corrida presidencial de 2020 que Trump perdeu — tenham sido afectadas por interferência estrangeira ou fraude.
— Preparou abertamente o terreno para contestar as eleições intercalares. Afirmou que as eleições americanas estavam «comprometidas» criando, sem margem para dúvidas, a justificação para manipular os resultados antes mesmo de um único voto ter sido contado.
— Disse que vai «corrigir vulnerabilidades nas nossas eleições». Tradução: disse exactamente como tenciona interferir.
— Contradisse-se em relação à China em tempo real: Primeiro alegou que a China está a «tentar influenciar» e a «minar a confiança» nele, Trump; logo a seguir disse que estava a fazer um «óptimo trabalho» com eles. Não convém hostilizar abertamente um ditador tão simpático que recentemente o recebeu com tantos salamaleques. Não conseguiu manter a coerência na sua própria teoria da conspiração mas o povão esquece essas coisas
— Afirmou que a China manipulou as eleições de 2020, levando jornalistas a escrever artigos negativos sobre ele porque a China queria que Biden ganhasse, porque ele, Trump é muito «perspicaz em relação a eles».
— Disse que encontraram «sacos para queimar» da Administração Obama cheios de material supostamente incriminatório, mas nunca revelou, nem revelará, o que continham. Todos sabemos que Trump quer poupar Obama a uma vergonhaça incriminatória, claro...
— Afirmou que precisa de «medidas urgentes» para impedir que as eleições sejam «hackeadas», citando as máquinas manipuladas por Maduro na Venezuela em 2020 como a sua «prova». Prova essa que foi descartada em todas as investigações apesar dos esforços de várias proeminentes figuras encabeçadas pelo o malogrado Rudy Giuliani a escorrer suor com tinta do parco cabelito e a inacreditavelmente lunática Sidney Powell (posteriormente perdoados por Trump na 2ª leva de comutações de penas juntamente com outros conspiradores criminosos e com a turba "cheia de amor" que assaltou o Capitólio a 6 de Janeiro)— Atacou as emissoras de TV por não transmitirem em directo a sua comunicação, acusando-as de fazer «parte da conspiração para manipular as eleições» sugerindo que lhes fossem retiradas as licenças de transmissão.
— Anunciou que pretende apreender os dados eleitorais dos Estados que considera «vulneráveis» antes das eleições intercalares.
Sua próxima arma é o "Save America Act". É a supressão de votos disfarçada de segurança eleitoral. Até agora, senadores democratas e mais do que suficientes republicanos bloquearam o projecto. Trump está a exercer inconfessáveis pressões sobre os senadores para que cedam — e a pressão vai aumentar com o aumento do desespero.
Estamos perante um presidente dos Estados Unidos da América, em exercício, a revelar passo a passo como tenciona tomar de assalto as eleições intercalares de 2026, com mentiras comprovadas e teorias da conspiração. O país auto-apelidado como "baluarte da democracia", the greatest democracy on Earth
(como se um sistema eleitoral colegial/indirecto pudesse ser "the greatest democracy")
Se é possível ali é possível em qualquer lado, é importante, muito importante, compreender o que ali se passa. E compreender o que se passa fora dali

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