Este é um "post" invulgarmente comprido mas, mesmo restringido em factos e, sobretudo, em considerações, não consegui torna-lo mais curto e por isso o dividi numa espécie de mini-capítulos.

Vem esta pequena divagação a propósito de uma conversa urgente que a, suposta, ”educadora” de infância do meu filho, de 5 anos, teve comigo esta manhã.
Recuando um pouco:
No passado natal o meu filho Luís comentou com alguém, que me contou em inconfidência, que queria pedir ao Pai Natal uma prenda para me dar no dia dos namorados: «A minha mãe é a minha namorada porque é a pessoa de quem mais gosto e que gosta mais de mim», explicou. A coisa enterneceu-me mas não voltei ao assunto.
Já esta semana, quando começou o “bombardeamento” de publicidade tendo por alvo o “Dia dos Namorados”, o Luís perguntou-me se eu não gostava do “relógio dos namorados” (campanha da Swatch) enquanto passava o anúncio na TV. Respondi-lhe que não sabia, ainda não o tinha visto bem. Acto contínuo foi buscar uma revista, folheou e mostrou-me a foto, com um grande coração encarnado. Olhei, sorri-lhe e disse que sim, que era giro. (E é). Nessa noite ouvi o Luís a “conversar “ com o homem-aranha dizendo que queria dar o relógio dos namorados à mãe mas que não sabia se tinha dinheiro que chegasse no mealheiro e que ia falar com um amigo nosso para lhe pedir que fosse com ele à loja. Fechei a porta da casa de banho e sentei-me na borda da banheira a pensar no desejo do meu filho. Lembrei-me de mim com a idade dele por vezes a desejar oferecer uma prenda especial à minha mãe ou ao meu pai mas conseguia ir além dos desenhos ou do costumeiro cinzeiro de barro pintado.
Ontem,
Fui à ourivesaria cá do bairro, contei a história sumariamente, comprei o relógio e disse que o Luís iria busca-lo ao fim da tarde do dia seguinte. Depois fiquei a pensar como conseguir que o Luís fosse buscar a prenda “sem eu saber”. Após algumas congeminações... O“ Pai Natal” escreveu um bilhete ao Luís dizendo que não se tinha esquecido dos seus desejos e sonhos, que sabia o quanto ele queria dar uma prenda à mãe e que tinha pedido a um duende para tratar disso. Dizia também que era só pedir à mãe para passar pela “loja das joias” ao pé de casa e mostrar o bilhete; a prenda estava lá e depois mandavam a conta para o Pólo Norte. Posto isto restava-me fazer chegar o bilhete ao Luís e arranjar quem lho lesse...
Quando fui busca-lo à escola contei a história, o mais abreviadamente possível, a uma das funcionárias que toma conta das crianças no refeitório e após a saída das educadoras, mostrei-lhe o bilhete “do Pai Natal” e perguntei-lhe se não se importava de lho ler, colaborando na mentira. Ela, rindo, prontificou-se a colaborar.
Hoje, 14 Fev. de manhã...
Do facto de se tratar de uma mentira, criada por mim e corroborada por uma funcionária da escola, óbice que eu teria aceite e que aliás antecipei, nem uma palavra, atrevo-me a dizer, nem um pensamento; se o Luís viesse a descobrir que o tínhamos enganado, a perda de confiança que daí poderia advir nunca passou por aquela santa cabeça.

14 de Fevereiro de 2008
Também me disse: - "Mamã temos de comprar um flor à São do café porque ela ajudou-me"
Moral da História.
O consumismo é exacerbado nestas datas. O dinheiro não é tudo e um cartão bonito que nos deu trabalho a fazer é valioso
Não podermos, por uma vez, oferecer um sonho, aos 5 anos, porque não temos dinheiro não me parece particularmente positivo, como não me parece particularmente positivo começar a sonhar com “quando eu tiver dinheiro vou realizar os meus sonhos” ou, talvez pior, “não vale a pena sonhar, não vai acontecer”.
A Vida às vezes é cinzenta e a estreiteza de vistas torna-a a preto e branco. Pensem de mim o que quiserem, encaixem–me ou não em parâmetros de “normalidade” mas dentro de mim a Vida é a cores, tem sonhos, magia e, ainda, sobrevive a capacidade de me maravilhar. Doa a quem doer.
Quanto à Dona Cila, um raio que a parta: talvez acordasse com a descarga eléctrica, talvez ruissem os muros que lhe limitam a visão periférica.
A propósito, quem é que raio se chama CILA??? Ora um moderno e conceituado dicionário oferece importantes significados para o termo, dos quais aqui reproduzirei apenas a parte mais interessante para o caso em apreço:
"Cila-brasileira: planta da família das Narcíseas (Pancratium guyanensis);
Cila-vermelha: variedade da cila europeia (Urginea maritima), com raízes vermelhas e bolbo castanho-avermelhado, USADA PRINCIPALMENTE EM VENENO PARA RATOS; As escamas do bolbo dessa planta, bem como de outra espécie desse género (Urginea indica), do Oriente, (…), são usadas como EXPECTORANTE, (…) e DIURÉTICO."]
Como vês, os dicionários são ferramentas didácticas de incomensurável valor... E a explicação supra, oferecida pelo dito, ajuda-nos a compreender algumas coisas; senão, vejamos: esta rapariga, destituída de prefixo e castrada da penúltima vogal, daquela que, acredito, tenha sido a sua graça de baptismo, é também aquela que, nos seus dias mais emotivos, o máximo a que poderá aspirar (sim, porque “sonhos” já vimos que não serão o forte dela…) é vir a ser ingrediente de veneno para ratos(!!!!), e nos dias normais, ser usada como expectorante e diurético…Deste modo, conclui-se que daquela criatura não vem nada de bom: ou excreções (mais ou menos líquidas, expelidas por orifícios diferenciados), ou, em última instância, puro veneno…
Sabes que mais? A Pata Que a Pôs!!! Essa criatura mesquinha, infeliz, triste e pobre nunca poderá compreender o significado de um SONHO, MUITO MENOS DOS SONHOS DE UMA CRIANÇA! É castrada, não apenas no prefixo e na penúltima vogal do nome; tem a alma castrada e, para isso, não há remédio…
Que o teu filho sonhe durante muitos anos, que mantenhas a tua capacidade de lhe ires alimentando os sonhos, minha querida, e que as "Cilas" que a vida nos vai trazendo se mantenham sempre longe de ambos…E, claro, não te esqueças de comprar uma flor à ajudante "honoris causa" do duende!!!


























