O 15 de Agosto de 2021 vai ficar na história escrito com palavras escuras, nublosas, trágicas, desesperadas e uns quantos mais adjectivos angustiantes.
Foi uma surpresa? Como assim, uma surpresa?
No dia 1 de Março de 2020, há 1 ano e quase meio antes desta fatalidade, escrevia eu, comum mortal, por aqui neste bloguezito sob o título: O 11º MANDAMENTO - NÃO NEGOCIARÁS COM TERRORISTAS uma apreciação à laia de desabafo revoltado parte da qual deixarei aí abaixo como epílogo da conversa de hoje, só para não me virem dizer que era imprevisível.
de um território além das fronteiras afegãs ao poder terrorista institucionalizado.
É um crime.
Tudo isto irá passar, quando chegarmos aos primeiros dias frios já o Afeganistão estará mais longe e os olhares desesperados que nos entram em casa pelas janelas dos noticiários estarão esquecidos pela maior parte de nós. Tudo isto ficará como o testemunho de uma situação mal avaliada, mal tratada, mal concebida.
Durante a última semana de Abril de 2019 Trump reuniu com os seus principais conselheiros na Situation Room para anunciar que queria um Acordo de Paz que lhe permitisse retirar as tropas americanas do Afeganistão; Pompeo advogou a favor do chefe, claro;
Bolton, que assistia à reunião desde Varsóvia por video-conferência, não queria acreditar no que ouvia... Apesar das suas marcadas tendências bélicas, Bolton não é um recém-chegado às polítiquices estratégicas de Washington, nem do Pentágono em particular, tem plena consciência das consequências para o mundo ocidental - já nem falando do Médio Oriente - de uma retirada feita à pressa das forças americanas, sem garantias nem Instituíções fortemente implantadas.
É um crime.
Nas palavras de Bolton:
«Mr. Trump could keep his campaign pledge to draw down forces without getting in bed with killers swathed in American blood.»Ou seja, é possível retirar tropas americanas deixando um contingente anti-terrorista sem assinar qualquer acordo com os Talibã.
Claro que é mas não tem o mesmo impacto nem dá cabeçalhos tão fixes nos jornais; nem nas páginas da história. E há alguma coisa mais importante do que o nome "Trump" na história?
A reunião terminou deixando no ar a mediática hipótese de convidar o presidente Ashraf Ghani para ir a Washington assinar o tal Acordo de Paz. O facto de Ghani, presidente eleito, ser deixado totalmente fora das conversações com os Talibã seria, para Trump, um pormenor irrelevante, a verdade é que ficaria bem na fotografia.
Dias depois Trump teve uma ideia ainda mais sensacional que só comunicou aos seus mais escolhidos Conselheiros deixando na ignorância o "National Security Council" : Vou convidar os Talibã para virem cá, não a Washington, que já está muito visto, mas para Camp David!!! A jóia da "coroa" americana onde têm sido recebidos apenas presidentes, primeiros-ministros e reis. Sim Senhor! E mais, recebe-se a rapaziada 3 dias antes do 11 de Setembro!!! Se a guerra do Afganistão teve por causa primeira os ataques do "11 de Setembro", e se por lá morreram cerca de 3 500 americanos, não contando as baixas das forças aliadas, é apenas mais um um pormenor irrelevante.
Mas os Talibã não foram a Camp David. Nem a Washington. Nem assinaram acordo algum.
Porquê?
A oposição nos meios políticos foi maior do que Trump esperava, muitos insuspeitos membros do Partido Republicano mostraram o seus descontentamento ou até indignação.
A 5 de Setembro, menos de uma semana antes da festa, os Talibã reivindicaram um ataque bombista no Afeganistão do qual resultaram 12 mortos entre os quais um americano. Desculpa vagamente careca... No espaço de uma semana esse foi o terceiro ataque bombista. (Aliás durante este mês de Fevereiro 2020 mais dois oficiais americanos foram mortos e as conversações de paz continuaram animadamente)
Que diga quem sabe, eu não sei, a verdade é que "consta" que os Talibã impuseram condições rígidas aos americanos: a retirada de apoio ao governo afegão e um calendário de saída, a libertação dos prisioneiros Talibã... Pois.
Após sete dias de compromisso por parte dos Talibã de "Redução de Violência" no território afegão estão criadas as condições para a assinatura de um "Acordo de Paz" entre os EUA e os Talibã, é quanto basta. Não, o governo do Afeganistão não tem nada com isso, não estava lá nem foi informado do teor das conversações durante o processo. Quem por acaso lá estava era um ministro representante do governo do Paquistão...
O vergonhoso acordo foi assinado por Zalmay Khalilzad (US Special Representative for Afghanistan Reconciliation) e o homem de mão de Pompeo que liderou as conversações mantidas até hoje e o líder de conversações por parte dos Talibã Mullah Abdul Ghani Baradar.Pompeo estava lá, como "testemunha" (sim, que o governo dos EUA não quer legitimar os Talibã, claro esteja) mas foi discursar
Se os Talibã "respeitarem os termos do acordo", que entrará em vigor a 10 de Março, os EUA reduzirão o seu contingente para 8 600 (dos cerca de 13 000 actual) e fechará as suas 5 bases no prazo de 135 dias.
Todas as suas tropas, contingente anti-terrorista incluído, deixarão o Afeganistão dentro de 14 meses. Fica levantada a hipótese de permanecerem especialistas da Inteligência (o que é uma excelente ideia porque assim ficam todos identificados) e uma presença pontual de combate à ISIS e à al-Qaeda.
A presença aliada britânica que sofreu 454 baixas, tem actualmente de 1 100 militares, reduzirá apenas 200.
De direitos humanos, direitos das mulheres (à educação e ao trabalho p/ex.), minorias religiosas e do comummente designado como "Direitos, Liberdades e Garantias" nada ficou estabelecido ou é exigido
Os Talibã comprometem-se a cortar laços com a al-Qaeda e outros grupos de cariz terrorista internacional e a iniciar conversações com o governo afegão, que nunca reconheceu.
O governo afegão deve libertar 5000 prisioneiros Talibã (tendo os Talibã apresentado uma lista nominal) e 1000 prisioneiros afegãos serão libertados. Complicada esta questão uma vez que o governo afegão não é signatário deste, ou de qualquer outro, acordo e foi sempre ausente de todas as negociações
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| A delegação Talibã, tudo bons rapazes |
Uma vez assinado o acordo os Talibã já declararam a sua "Vitória" sobre os EUA nas redes sociais e comunicaram às suas milícias que se trata de um pacto táctico que pode ser legitimamente quebrado por razões religiosas.
Trump também já declarou... Diz ele que em breve se irá encontrar com os Talibã
Está tudo dito.
Um novo capítulo de uma vergonha que tem por fundo a retirada das tropas americanas que, pela vontade de Trump, seria feita ainda antes de 3 de Novembro, data das eleições presidenciais nos EUA, com ou sem "Acordo".
Prevê o "Acordo" assinado em Fevereiro passado que se este for respeitado as tropas dos EUA se retirariam 14 meses depois, ou seja em Maio de 2021. Do contingente de 13 000 americanos que estavam no Afeganistão em Fevereiro restam 8 600 e está prevista uma nova retirada até ao início de Novembro reduzindo a permanência americana para 4 500.
Entretanto 12 000 civis afegãos foram mortos desde Fevereiro. Respeitado? Uma das alíneas é a cessação total de cooperação entre Talibã e grupos terroristas, nomeadamente a al-Quaeda. Nem comento... Como não comento o facto de os guerrilheiros Talibã terem recebido prémios monetários da Rússia por cada militar americano ou britânico morto. (Trump também não comentou... E Boris Johnson estava ocupado com o virus e o Brexit - que corja!)
Nas palavras do Almirante William McRaven, comandante da Operações Especiais Conjuntas que teve a cargo o planeamento e execução do raid que executou Bin Laden:“I’m not personally convinced that any deal with the Taliban will be worth the paper that it’s written on. If we were to pull out U.S. troops completely from Afghanistan, it would not take the Taliban more than six months to a year to come back to where they were pre-9/11.”
Não estou pessoalmente convencido de que qualquer acordo com o Talibã valerá o papel em que está escrito. Se retirássemos completamente as tropas americanas do Afeganistão, não demoraria mais de seis meses a um ano para os Talibã voltarem ao ponto em que estavam antes do 11 de Setembro.
Michael Morell, sub-director da CIA durante a época desse raid, e mais tarde director interino por duas vezes, disse concordar com a opinião de McRaven e partilhar das suas preocupações acerca do "Acordo de Paz":"If U.S. and coalition troops withdrew from Afghanistan, and then the United States ended financial support to the Afghan government, my assessment is that the Taliban would take over the country again in a matter of months. In addition, despite the terms of the peace deal that explicitly forbid it, my assessment is that they would provide safe haven to al-Qaida.The United States would have to figure out how to collect Intelligence on what was happening in Afghanistan, with a particular focus on whether al-Qaida had reestablished itself there and was preparing any attacks on the U.S. and to find a way militarily to reach in there and deal with that problem”
Se as tropas dos EUA e da coligação se retirassem do Afeganistão e os Estados Unidos encerrassem o apoio financeiro ao governo afegão, a minha avaliação é que o Talibã assumiria o país novamente em questão de meses. Além disso, apesar dos termos do acordo de paz que o proíbem explicitamente, eles forneceriam um porto seguro para a Al Qaeda. Os Estados Unidos teriam que descobrir como reunir Inteligência sobre o que estava acontecendo no Afeganistão, com um foco particular em se a al-Qaeda se havia restabelecido e estava preparando qualquer ataque aos EUA, para encontrar uma acção militar de chegar lá e lidar com esse problema ”
Como é que um presidente dos EUA, em véspera do "11 de Setembro", diz que se está a dar "muito, muito bem com os Talibã" que - não fora o quase todo o resto - teve (ou tem?) guerrilheiros premiados para matarem os seus militares e dos dos seus aliados? Está a dar "muito, muito bem com os Talibã" que continuam a chacinar civis afegãos e a insultar o governo afegão?
Conversações de Paz? Sim, está bem, entre eles, mas com um forte e visível apoio de quem tenha força - militar e económica - para bater o pé e dar um murro na mesa. Sem isto é só conversa, chacina e entrega de um povo - e do mundo - ao terrorismo
Os Curdos que o digam...
























