Desde tempos imemoráveis que existe um clube com substanciais adesões transmitidas de geração em geração, denominado "Antigamente É Que Era Bom" e tem como lema "No Meu Tempo...". Não sou simpatizante e muito menos associada mas não posso deixar de considerar que, no que toca à simples decência cívica, a passagem dos tempos tem trazido a esse louvável atributo de carácter - a decência - a elevação à condição de "escasso", tendente a "raro". De há uns bons anos a esta parte, a decência é demasiadamente confundida com ingenuidade ou imbecilidade. É lamentável... E grave.
Vem isto, desta vez, a propósito de Keir Starmer, o demissionário primeiro-ministro britânico. A questão não é política - do ponto de vista ideológico - nem de competência, nem, muito menos, de integridade. Foi levantada uma campanha baseada nos mais absurdos e insignificantes pretextos que foram, ao longo de meses, amplificados pela comunicação social à esquerda e, sobretudo, à direita (leia-se o inefável Reform/Farage - Ó quanta ironia!) manipulando a volúvel opinião pública exaustivamente.
Uma campanha que começou a surtir efeito aquando da demissão do embaixador do Reino Unido nos EUA por este se ter relacionado com Jeffrey Eptein, apesar de, e talvez por isso, ter conseguido as boas-graças de Trump para vir a ser firmado com Starmer um acordo comercial particularmente benéfico para o UK, numa altura em que a Europa era fustigada com as mais elevadas taxas de que há memória. Levantaram-se vozes exigindo a demissão de Starmer; o primeiro-ministro nomeou um embaixador que tinha facilidade em ser escutado por Trump com resultados materializados, mas ignorava que o homem se deu com Esptein... Demita-se o primeiro-ministro já! Seguiu-se de um coro mediático; depois foi só juntar slogans semanais subordinados ao tema " o primeiro-ministro não governa", no que toca a críticas, quanto mais inespecíficas forem as acusações mais fácil e rapidamente colam.
A direita massacrou-o, mesmo quando reduziu a imigração. A esquerda massacrou-o, mesmo quando removeu o limite de dois filhos no auxílio-desemprego e introduziu medidas destinadas a ajudar crianças e famílias. Nada do que fez - e fez - seria suficiente para uma trégua.
O homem que preferiu trabalhar sem alvoroço e é acusado de nada ter feito, entre muitas outras coisas:
- Encabeçou uma retumbante vitória trabalhista com maioria
- Pôs fim às greves medicas do NHS com um acordo salarial
- Chegou a acordo de pagamento com os trabalhadores dos transportes ferroviários e introduziu novos operadores e contratações
- Estabeleceu acordos com sectores públicos transversais
- Aumentou os direitos dos trabalhadores em horário flexível
- Aumentou as protecções face a despedimentos sem justa causa
- Aumentou o salário mínimo nacional
. Criou um conjunto de direitos dos arrendatários
- Limitou os aumentos sucessivos de rendas
- Aumentou os direitos dos terra-tenentes
- Reformou o planeamento de construção de habitação
- Expandiu o apoio às energias renováveis
- Aumentou o financiamento do NHS
- Aumentou o financiamento às escolas, às creches e ao ensino especial
- Aumentou a capacidade de marcações e de diagnostico no NHS
- Expandiu a rede de diagnósticos, aumentou a contratação de pessoal
- Aumentou os fundos para habitação social e criou o "Homes for Heroes" dedicado aos veteranos militares
- Aumentou os apoios domiciliários a doentes e convalescentes
- Aumentou os apoios contra a violência doméstica
- Passou mais de 40 peças de legislação só no primeiro ano do seu mandato
A questão é que Starmer nunca foi um homem de circo em busca de aplausos; é uma figura cuidadosa, metódica, ponderada. E educado... até dizer "não é preciso tanto". Numa época em que a política se impõe por demonstrações de indignação, slogans e vídeos nas redes sociais, por apelativas demonstrações de raiva mas não de soluções, Starmer muitas vezes pareceu um homem tentando prestar depoimento no meio de uma rixa de bar.
A imposição de demissão a Starmer não é devida ao que fez nem ao que não fez é devida ao que ele se recusa a ser; é legitimo supor que quem o suceda não se recusará...
Com a Europa, Starmer deixa negociações em curso sobre eletricidade, normas sanitárias e fito-sanitárias agro-alimentares e mercados de carbono — todas elas vinculam a Grã-Bretanha às futuras regras da UE em troca de acesso ao mercado europeu, que provou ser fundamental para a economia britânica. Segundo estimativas do UKICE (UK in a Changing Europe), cada redução de um ponto percentual nas barreiras tarifárias com a UE aumenta as exportações britânicas em cerca de £1,2 bilhão por ano. O pacote actual pode recuperar cerca de 15% das perdas comerciais relacionadas com o Brexit; uma união aduaneira poderia duplicar essa percentagem.
Os Liberais Democratas e parlamentares trabalhistas pró-UE já instaram o Sr. Burnham - provável sucessor de Starmer - a "abandonar as linhas vermelhas" relativas ao mercado único e à união aduaneira. Os grupos de pressão empresariais usarão a cláusula de revisão Reino Unido-UE de 2027 para pressionar por uma integração mais profunda da cadeia de suprimentos. A pressão será difícil de resistir mas a reaproximação à Europa permanece incompleta e frágil. Starmer deixa acordos de alinhamento sectorial ainda em negociação, um projecto de pacto de segurança não assinado e um grupo parlamentar impaciente por medidas mais ousadas.
O que fará Burnham? A sua dualidade está bem documentada. Em 2025, afirmou que "desejava que a Grã-Bretanha voltasse a aderir à UE".
Em Maio de 2026, ele recuou: "Não estou propondo que o Reino Unido considere voltar a aderir à UE". Essa oscilação reflete restrições políticas genuínas ou um toque de oportunismo? Burnham filiou-se no partido trabalhista com 14 anos, desde então tem feito o percurso de múltiplas funções e lugares. Até 19 de Junho, dia em que se demitiu, foi Mayor de Manchester. Obviamente tem planos e sabe aproveitar uma boa oportunidade. Esperemos que isso se reflita também a favor o país
Que haja sabedoria e sensatez para reconhecer o governantes que não cedem a dar espetáculo num circo de acusações com fins lucrativos. Os que se seguem nem sempre, ou quase nunca, serão os mais convenientes ao país, a qualquer país

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