::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

O REI E O OUTRO

 Em Outubro de 2025 o rei Carlos III fez uma visita ao Papa no Vaticano  500 anos após o cisma que separou a Igreja Anglicana da Igreja Católica. Nessa altura escrevi por aqui:

... o Rei de Inglaterra visitou o Papa no Vaticano não é algo importante, nem novo. O que é importante, e marcadamente diferente, é que Carlos III fez aquilo que a Rainha Elizabeth não pode fazer, por razões várias: o segundo casamento cívil de Charles, herdeiro da coroa, os acordos com a Irlanda após a sua visita numa admirável missão de paz  atravessando a rua, literalmente, passando de uma Igreja para a Outra, Isabel II  não quis comprometer esta missão temendo que os católicos irlandeses vissem a sua aproximação ao Vaticano como uma interesseira manobra política. 

O que é importante é que o líder da Igreja Anglicana visitou o líder da Igreja Católica e ambos estiveram numa mesma missa celebrada pelo bispo de Roma, o Papa, e o Arcebispo de York.
Significativo é a permanência do líder da Igreja Anglicana simbolizada na cadeira decorada com o brasão do Rei Charles III, criada para permanecer na Basílica de São Paulo Fora-de-Muros. Charles, da Igreja Anglicana, parte mas a sua presença permanece.
Este acontecimento não é uma visita, é a abertura da porta da união de várias Igrejas, primeiro as cristãs e depois... E depois se verá.

Em Abril de 2026 desenrolaram-se os mais absurdos e sacrílegos insultos de Trump ao papa Leão XIV, aos católicos e até aos cristãos como um todo; não vale o tempo de referi-los, foram amplamente divulgados e estão ainda frescos na memória do mundo inteiro.
Outro dos alvos dilectos de Trump foi Keir Starmer, por  negar a participação das tropas britânicas na loucura que arrasta o mundo numa crise petrolífera e económica num Estreito de Ormuz que, de repente, a meio do decurso de negociações com vista a um tratado nuclear, foi fechado devido aos bombardeamentos no Irão e, presentemente, se encontra em vias de ser "privatizado" - por quem se verá...

Para os últimos dias de Abril estava marcada a visita de Carlos III a Washington. No UK houve uma contestação generalizada desta visita despoletados pela declaração de Trump afirmando que os britânicos não tinham prestado qualquer envolvimento no Afeganistão.  Uma enormidade mais do que ofensiva para os que por lá passaram, os que lá pereceram, as famílias de todos eles e o total desrespeito pelo esforço e empenho de um aliado de eleição diferente de todos os outros por alicerces históricos. Petições ao parlamento, apelos nos jornais para que a visita fosse cancelada, compreensivelmente. A questão terá sido abordada entre o primeiro-ministro e o rei... Ambos são figuras que evitam confrontos desnecessários, ambos fincam as suas inabaláveis posições quando o Reino Unido está em causa mas, enquanto Starmer procura ser tão absolutamente claro quanto a diplomacia lhe consente, Carlos III péla-se por um desafio que lhe permita exercer o seu loooongo, inter-continental , inter-cultural, inter-geracional soft power num misto de astúcia experiente e punhos de renda capazes de ferir os que lhe lancem um mal intencionado repto.

O primeiro acto da estratégia  de Carlos decorreu mesmo antes da sua entrada em cena: enquanto o rei de Inglaterra, chefe da Igreja anglicana, viajava para os Estados Unidos, a arcebispo de Cantuária, Sarah Mullally, estava no Vaticano, no Palácio Apostólico - residência oficial de Leão XIV - num encontro privado entre ambos marcado pelo elogio ao Papa pela sua abordagem das "muitas injustiças no nosso mundo"; o Papa, por sua vez, prometeu continuar a trabalhar para superar as diferenças, "por mais intransponíveis que possam parecer". 
O ajuste temporal deste encontro não poderia ser mais claro

Ao segundo dia da visita do rei aos EUA e após uma passagem, na véspera,  "para tomar chá" na Casa Branca com Trump, acompanhados pelas suas respectivas mulheres - tornando óbvio não se tratar de uma "reunião de Estado" no mais estrito sentido do termo - foi o dia de Carlos III se dirigir ao Congresso, envergando um fato e uma gravata azuis... (Não, nada é ao acaso, o Speaker e o VP estavam ambos fardados de gravata vermelha). Fê-lo com finíssimo humor e a presença de um monarca de um país milenar visitando a casa de uns adolescentes intrépidos ( Two hundred and fifty years ago – or, as we say in the United Kingdom, just the other day – ) que fundaram a sua república sobre os alicerces de uma história sólida e - o que fez questão de frisar - de uma Magna Carta impar na qual se baseiam os ideais democráticos da Constituição americana. Por mais "distraído" que se possa ser seria muito difícil não compreender as várias alusões à fé, a todas e ao igual respeito devido aos que não a têm,  à liberdade, à democracia, à imparcialidade da Justiça e ao Estado de Direito, à dignidade humana. E duas menções ao nome de Kennedy, o outro presidente católico dos States para além de Joe Biden. Não deixou de lembrar a fundamental acção defensiva da NATO nos mais variados pontos do mundo, exemplificando com o Ártico - abstendo-se assim de referir a Gronelândia - incluiu a América, de passagem, e "porque" visitará Nova Iorque, falou do 11 de Setembro e da única vez que o artº 5º da Aliança foi activado, a favor dos EUA. 
Mas não se absteve de referir a Ucrânia, doa a quem doer. 

«Durante minha visita a Nova York, minha mulher e eu prestaremos novamente nossas homenagens às vítimas, às famílias e à bravura demonstrada diante de tamanha perda. Estivemos convosco naquela época e estamos convosco agora, em solene lembrança de um dia que jamais será esquecido.
Logo após o 11 de setembro, quando a NATO invocou o Artigo 5º pela primeira vez e o Conselho de Segurança das Nações Unidas se uniu perante o terror, atendemos à chamada juntos – como nossos povos têm feito por mais de um século, ombro a ombro, através de duas Guerras Mundiais, da Guerra Fria, do Afeganistão e de momentos que definiram nossa segurança partilhada. Hoje  essa mesma determinação inabalável é necessária para a defesa da Ucrânia e de seu povo corajoso." Um rei britânico. Discursando de um pódio instalado por uma lei do Congresso. Defendendo os limites do poder executivo, o pluralismo religioso, a OTAN e a Ucrânia. Para um Partido Republicano que já não acredita em nada disso. 
.../...
As duas nações, quando alinhadas, podem realizar grandes feitos, não apenas para o benefício dos nossos povos, mas de todos os povos. .../... Os desafios que enfrentamos são demasiado grandes para que qualquer nação os suporte sozinha. Mas, neste ambiente imprevisível, a nossa Aliança não pode acomodar-se nas conquistas do passado, nem presumir que os princípios fundamentais simplesmente perduram. Como disse o meu Primeiro-Ministro no mês passado: a nossa é uma parceria indispensável. Não devemos desconsiderar tudo o que nos sustentou nos últimos oitenta anos. Em vez disso, devemos construir sobre o que já existe

Horas depois teve lugar o jantar de Estado na Casa Branca. Como convidado de honra de Trump, Carlos III não amoleceu, irrepreensivelmente amável e bem humorado tocou uma firme harmonia usando as mesmas teclas:
«Nossos países têm a relação mais estreita de Defesa, Segurança e Inteligência que já se viu. Em duas guerras mundiais lutamos juntos para derrotar as forças da tirania. Hoje, enquanto a tirania ameaça mais uma vez a Europa, nós e nossos aliados  unimo-nos em apoio à Ucrânia para deter a agressão e garantir a paz.
O vínculo entre nossas duas nações é, de facto, notável. Forjado no fogo do conflito, foi fortalecido por esforços conjuntos e aprimorado pelo profundo afeto entre os nossos povos. Testado repetidas vezes suportou o peso do nosso propósito comum e elevou a nossa ambição por um mundo melhor. Assim, ao renovarmos nosso vínculo esta noite, fazemo-lo com confiança inabalável na nossa amizade e no nosso compromisso partilhado com a independência e a liberdade.»

 Um rei britânico discursando de um pódio instalado por uma lei do Congresso, defendendo os limites do poder executivo, o pluralismo religioso, a NATO e a Ucrânia, perante um Partido Republicano que já não acredita em nada disso.

Sobre o discurso do rei ao Congresso Trump não conseguiu esconder o sentimento de pequenez que Carlos lhe provoca: “He made a great speech. I was very jealous.”

Trump pode comportar-se como se fosse dono do mundo mas nunca, nunca, será um Rei 

Sem comentários: