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POPULISMO - DIVIDIR PARA GOVERNAR

Começou com o medo. Quase sempre começa no medo, é um elo comum fácil de explorar, que abre portas a todo o tipo de forças negativas que os humanos conservam lactentes em si; só pode ser contido por uma contínua racionalidade envolvida em bom senso e esses não abundam no seio de povos assustados, sabiamente manipulados com propagandas e cenários negros. "Temos de reconquistar o nosso poder nacional!!!", como se isso existisse, a independência nacional.
Manifestou-se visivelmente nas barreiras de aço erguidas na fronteira húngara.
Materializou-se inesperadamente na vitória do Brexit; vitória que ninguém queria, à parte aquele pirómano Farage e os seus ateadores inconsequentes.
Solidificou-se na conquista de Trump, perante a incredulidade do mundo.

E agora? Terá o mundo  de passar por esta fase em que o medo serve os propósitos mais destrutivos, desumanos e inconfessáveis ou irão as pessoas ganhar consciência de que o verdadeiro perigo não reside naquilo que são levadas a temer mas por detrás da cortina corrida como cenário de fundo.

O paradigma político-ideológico mudou. Não, nem é isso, não mudou, afundou-se nas profundezas e um outro surgiu em seu lugar fundado em alicerces novos e subliminares. Temos de deixar de fazer contas com a Esquerda e a Direita, isso acabou. Por muito que estas tentem ainda firmar-se fazem-no nas areias movediças que se infiltraram sob o tabuleiro do xadrez mundial.  A direita, largamente radical nas suas bases, vence nos EUA com o apoio da propaganda de média e informática do líder pródigo da URSS. Os cidadãos da U.E. são bombardeados, "à esquerda e à direita" com propaganda anti-europeísta, apoiada financeiramente pelos mesmos interessados. "À esquerda e à direita" o propósito é o mesmo, dividir para governar, usando a ilusão do regresso ao "Poder Nacional", ao "Poder Popular", ao "Poder-que-muito-bem-entendam" desde que se dividam e enfraqueçam. A Russia TV é apenas um visível floco de neve deste imenso iceberg submerso.

Hoje o "efeito dominó" foi contido na Áustria. O temor do que se delineava
venceu o medo incutido.

Segue-se a Itália... Irá o furor revolucionário do Movimento Cinco Estrelas lançar mais uma grande acha para a fogueira do populismo europeu? Provavelmente, e irão festejar... e a direita radical também. Que ironia!

Ironicamente é assim que esta equação se resolve, converte-se o valor da incógnita eleitoral ao isolamento ou à democracia, tudo o resto é conversa velha, extemporânea, morta.
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Actualização: 
A Itália votou de acordo com o espectável.
Está a barraca armada. Daqui a um par de anos voltarei ao assunto, veremos se continuam a festejar...


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2 comentários:

Laurus nobilis disse...

Isto está estranho... A democracia tal com a entendemos deve ser alterada? Não sei. Um facto é que, com esta, tal como está, vamos acabar por ver os grilos, os blocos, os podemos, etc, a terem cada vez mais poder de intervenção e, este facto, vai acabar por criar reacção do outro lado (que no fundo é o mesmo), das frentes nacionais ou de marados que andam com uma 9 mm no bolso por causa dos imigrantes. Não sou propriamente um tipo de esquerda mas, Portugal, ao longo dos tempos e com muitas imperfeições, como é óbvio, sempre fez a diferença: criámos os mulatos e a mestiçagem foi sempre assumida como algo normal. No ocidente, devem prevalecer sempre as regras de convivência em sociedade por nós estipuladas. Mas, como sou português e me orgulho muito disso, sempre acreditei que a mistura de raças, de povos e de religiões não só era possível, como era enriquecedora. Sem querer saudosista ou acusado de coisas bem piores, houve um slogan há muitos anos que dizia qualquer coisa do tipo: Muitos povos, muitas culturas, muitos continentes, uma só Nação». Claro que, depois, devido à teimosia do autor, deu asneira. No entanto, em relação à essência da mistura, como alavanca para a construção de algo "maior", não posso estar mais de acordo, salvaguardando, como é evidente, que em nossa casa, quem manda somos nós!

Alex. disse...

« Muitos povos, muitas culturas, muitos continentes, uma só Nação», resultou porque os portugueses entenderam com o coração e não como o projecto de ambição política de acordo com o qual foi proferida.
Na América também resultou como unificação, força e criatividade. Ainda resulta, apesar de uns tontos com muito churrasco e pouca leitura. O medo e a ignorância cegam e em terra de gegos... Pois, isso. O problema é que um rei zarolho vê mal e curto, mas reina.
Estou convencida de que esta é apenas uma fase que advém da total alteração da economia, do mercado de trabalho, das consequências da guerra, das alterações climáticas, etc. É muita mudança em pouco tempo, a vida decorre a uma velocidade nova e atordoante. Acredito que as coisas tenderão a estabilizar, que a humanidade tenderá a ver-se como um todo e não como uma divisão de raças e culturas; a questão é que os processos de transformação, mesmo que historicamente rápidos, não se compadecem com a duração da vida humana.