Acreditou que "se a direita se sentir encurralada", mesmo a contragosto lhe daria os seus votos.
Nem assim.
O que Ventura não percebeu, nem os seus apoiantes, é que à direita, à esquerda ou no vou-ali-já-venho, a esmagadora maioria das pessoas não quer, não aceita, um Estado autoritário. Os portugueses não estão minimamente interessados em rever "um Salazar", muito menos três; não convivem com as "vantagens" de um Estado em conluio com os poderes económicos que sustentam Ventura (leiam o livro, que ninguém no Chega expôs como infundado ou viciado), não trocam o pleno reconhecimento dos Direitos Civis por uma autoridade que os reorganize e distribua à sua maneira de acordo com o projecto político e social que pretende implementar. Um dos mais repetidos chavões de campanha é um vazio "Há 50 anos que andamos nisto";
"Nisto" o quê, exactamente?
(No final deste post deixarei 50 exemplos de realizações, importantes para todo o país, que tiveram lugar durante os 50 anos em que "andamos nisto". São tão inequivocamente transformadoras que nem me debruço sobre qualquer justificação)
Nisto, o "sistema"?
O "anti-sistema"? O "anti-corrupção"? A demagogia chega a ser hilariante. O Chega a ser hilariante... Como se o Chega, ou seja, o André, não estivesse totalmente vendido e empenhado no "sistema". O André surgiu porque se prestou a ser sustentado por aquilo, e por quem, lhe deu visibilidade e audiência, um palco para brilhar. Ó André, como é que passaste, de um dia para o outro, do anonimato a ser presidente de um partido que te ofereceram com uma missão? Como conseguiste um microfone senão através do sistema? O que tanto te motiva a ambição senão encabeçares um sistema corrupto que deseja tomar as rédeas do Estado? Tu és a voz e a cara de um sistema que foi rejeitado e que ambiciona repor a sua vigência.
A esmagadora maioria das pessoas não aprova as relações internacionais que Ventura cultiva. "Diz-me com quem andas...". Marine Le Pen e Jordan Bardella, Alice Weidel e Tino Chupalla, Santiago Abascal, Viktor Orban, Geert Wilders, Nigel Farage... Citando apenas os mais mediáticos e sem falar nas proveitosas visitas aos EUA. Há 1 ano lia-se no site do Chega: « André Ventura foi convidado, enquanto presidente do CHEGA, para participar na cerimónia da tomada de posse de Donald Trump. Esta é a primeira vez que um português é convidado para a tomada de posse de Donald Trump».
Que orgulho!!! A primeira vez, o único... Por que será?
André Ventura não é diferente desta gente, em nada para além da sua diminuta projecção. Todos recitam a mesma cartilha, todos destilam os mesmos medos e ódios; não é novo, está nos livros, o que é novo é a máquina de propaganda que se tornou global e o contágio directo. Todos abrem as portas a um autoritarismo classista e desumano, todos abrem a porta ao poder elitista e, pior, sustentado por uma estratégia internacional obscura, um comando de bastidores
E, tal como Putin e Trump, dizem-se cristãos como quem evoca uma fórmula mágica para aceder à alma alheia. Uma estratégia moralmente inqualificável. .
Não sou católica, a religião institucionalizada é-me estranha; a espiritualidade é-me íntima, não me é social, muito menos política. Tenho o mais profundo respeito pela convicção espiritual de cada um, considero um dos aspectos mais íntimos - se não o mais íntimo - que pode abarcar a alma humana. Considero absolutamente abjecto o aproveitamento político da reliogidade, seja em que termos e com que fim for. É a derradeira profanação, o derradeiro abuso, da alma alheia
Milhares de católicos e de não-socialistas assinaram manifestos de apoio a António José Seguro, de António Capucho a Nuno Melo, de Paulo Portas a Leonor Beleza, , de Nascimento Rodrigues a JM Júdice, de Chicão (Rodrigues dos Santos) a Carlos Moedas. Montenegro, enquanto primeiro-ministro não se quis pronunciar mas enquanto Luis Montenegro disse mais do que o suficiente.
É importante que o tenham feito. É repugnante ver fotografias e filmagens de campanha que acompanharam Ventura - ou fosse quem fosse mas mais ninguém, alguma vez, o fez - em "momentos de recolhimento" na igreja. Não o fez nem uma, nem duas, nem três vezes, as fotografias na net sucedem-se. Não foi fotografado quando estava presente a uma missa onde foi "visto"; Fez-se acompanhar por quem fotografasse e filmasse o seu "recolhimento em oração".
É isto que os portugueses querem?
Nos votos, nas reacções, nos mais inesperados, insuspeitos de esquerdismo subjacente, apoios ao candidato que se lhe opôs, e só por isso... A resposta está dada.
Inequivocamente, não querem.
Muitos ignoram, ficam-se pelos slogans e atoardas, mas muitos lembram-se de o partido de Ventura advogar que: "Ao Estado não compete a produção ou distribuição de bens e serviços, sejam esses serviços de Educação ou de Saúde, ou sejam os bens, vias de comunicação ou meios de transporte.".
- Ao Estado não compete a produção ou distribuição de bens e serviços de saúde? O SNS tem inúmeros problemas, sem dúvida, é uma praga que recai sobre os serviços de saúde de muitos países da Europa e não só mas, melhor ou pior, funciona e é a única opção de muito boa gente. Reveja-se o financiamento, uma optimização de meios, mas termina-lo, à moda de um terceiro mundismo bacoco? À semelhança do indigno e amoral sistema de saúde exigido aos cidadãos norte-americanos? Quando Ventura sucumbiu ao refluxo, durante o comício no Algarve, não recusou nem criticou a assistência recebida no hospital de Faro. (Em Faro não há assistência hospitalar privada? Há sim, aos magotes)
- Ao Estado não compete a produção ou distribuição de bens e serviços de educação? A educação garantida pelo Estado é um dos pontos de orgulho do nosso país. Até no Bangladesh , ainda que limitado por questões económicas, existe um serviço de educação público gratuito. Aliás o estudante André não teve quaisquer pruridos em se licenciar na pública Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa nem em usufruir do financiamento pelo Estado português, através da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, para o seu doutoramento em Direito Público na University College Cork, na Irlanda.
A coerência entre o dizer e o fazer é uma virtude exigente...
O mais triste é que as bases mais básicas do Chega, os "desfavorecidos pelo sistema", seriam os primeiros a ver-se despojados de Direitos fundamentais, como saúde e educação, se o seu programa partidário fosse aplicado ao Estado
Um regime presidencial? «Contribui para diminuir a corrupção, o clientelismo e a permeabilidade dos poderes públicos», diz Ventura.Dizia André no rescaldo eleitoral da 1ªvolta:
«Sou o novo líder da direita»
Não André, não és, a direita em Portugal não te quer. Contenta-te com a extrema-direita, que te abandonará no dia em que tenha um D. Sebastião mais apresentável, tu não passas de um manipulador de bases manipulado por elites financeiras e projectos inconfessos
Mais. De tal forma a direita não te quer que empresta o seu voto ao candidato socialista independente - que teve o endosso de muitas e importantes figuras das suas alas democráticas,
... Mas não de Costa... Ventura não fala nisso, o Chega ignora convenientemente. Costa, quando questionado, limitou-se a dizer. «Votarei na 2ª volta como já votei na primeira» ; de novo questionado: «Vai então apoiar o candidato da área democrática...?» E Costa repete « vou votar como já votei». Costa não é capaz de dizer o nome de Seguro, abomina-o. Votou nele ou em branco? Irrelevante.
Um candidato socialista... independente por quê?
Em 2014 António José Seguro era secretário-geral do PS desde 2011, quando o PS perdeu estrondosamente as eleições. Durante o seu sequente mandato à frente do PS. Seguro ganhou duas eleições, umas Autárquicas e umas Europeias "por poucochinho" (4%). Em 2014 as Legislativas espreitavam....
Recuemos 1 ano para avançar contexto
Jorge Lacão, vindo de dois pelouros no governo de Sócrates (2005/09 - 2009/11) seria o director de campanha da candidatura de António Costa à liderança do PS em 2013; mas Costa acabou por não se candidatar, existiam "sensibilidades internas" e Costa não tinha o congresso do partido no bolso. Lacão, um laureado pulheco, entrou para o Secretariado Nacional do PS de Seguro pela mão de Costa "para conciliar sensibilidades", ou seja, foi lixar António Seguro palacianamente, ganhando os favores de Costa. E Costa é um tipo bestial a fazer favores aos amigos.
Em Maio de 2014 Lacão demitiu-se do Secretariado Nacional gerando um vendaval interno. Costa, então presidente da CML - cargo que disse que não abandonaria pela liderança do PS - declarou-se "pronto para avançar". Vieram as Legislativas. O PS perdeu para um PSD sem maioria. Costa recusou-se a tentar um acordo com Passos Coelho, queria ser primeiro-ministro e, obviamente, não seria se em coligação com o partido vencedor. As conversações entre os dois partidos mais votados não passaram de uma mise en scène costiana; Costa dialogava à esquerda procurando uma Geringonça governativa. O presidente Cavaco, com uma valente dor de corno devida ao sucesso de Passos Coelho como líder partidário, consentiu. Podia ter exigido a Costa um acordo com o partido vencedor, podia ter nomeado um governo minoritário e marcado novas eleições - como, nesse mesmo ano, sucedeu repetidamente na Alemanha até surgir um entendimento - mas não, consentiu tudo o que Costa engendrou. Cavaco sempre foi invejoso, desde que assumiu a presidência do PSD e retirou de "cabeças de lista" todos aqueles que não morriam de amores por ele, esta fraqueza foi evidente durante o mandato de Passos Coelho. Perante a Geringonça formada António Seguro conteve urros, mas não se conteve em chamar traidor a Costa, e aos seus traficantes de influências.
Existe um abismo que separa estes dois Antónios, felizmente, ou a situação seria muito mais complicada. Já entre Costa e Ventura a diferença estabelece-se entre os interesses e as directrizes políticas que servem;
O Código de Processo Penal de 1929 era o diploma fundamental, o tratamento de cargos governativos era pautado por regimes de exceção e privilégios de foro.
Privilégio de Foro: Membros do Governo e outras altas figuras do Estado não eram julgados nos tribunais comuns de primeira instância. Gozavam de um foro especial no Supremo Tribunal de Justiça, que tinha competência exclusiva para julgar estes cargos em matéria criminal.
Crimes Políticos: Durante o Estado Novo, muitos actos que envolviam governantes ou oposição eram classificados como "crimes políticos". Estes eram frequentemente subtraídos à justiça comum e remetidos para tribunais especiais (como os Plenários Criminais de Lisboa e Porto), onde o Código de Processo Penal comum sofria restrições significativas.
Irresponsabilidade Política: Na prática a responsabilidade criminal de membros do governo por actos de exercício de funções era raramente acionada devido à concentração de poder que limitava a independência do Ministério Público e dos tribunais perante o Executivo.
Substituição do Código: O sistema de 1929 permaneceu em vigor com sucessivas alterações até ser substituído pelo actual Código de Processo Penal de 1987,

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