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RENTABILIZAR O IRÃO EM NOME DA NOVA GAZA

 

No 4° dia após o ataque ao Irão, já lá vão uns quantos, escrevi aqui:

A Rússia vê-se em dificuldades face ao fornecimento de armas vindas do Irão mas..., altamente dependente das exportações de petróleo, não verá com maus olhos tão retumbante crise petrolífera; o conflito pode acabar enriquecendo o Kremlin.

Um leitor assíduo deste blog, que não conheço pessoalmente mas que, com frequência, envia comentários aos posts publicados, escreveu-me assim:

"... com as tarifas comerciais que o Trump aplicou não estou a ver quem é que desejará agravar mais os encargos violando as sanções de importação do petróleo russo"

 Esta "credibilidade" seria um factor a considerar num contexto normal, com um presidente dos EUA minimamente normal. Não é o caso.

Respondi-lhe:

A ingenuidade do seu óbice será provavelmente testemunho de uma mente de boa-fé, não se aplica a Trump nem a Putin. Verá quantos poucos dias decorrerão até que Trump levante "temporariamente" as sanções petrolíferas à Rússia 

Não me acreditou...

A 14 de Março, dia a seguir a ter levantado as incómodas sanções,  Trump decididiu o começar o bombardeamento da ilha de Kharg, porto marítimo de exportação de petróleo a cerca de 25km da costa do Irão facilitando, com bons proveitos comerciais, a ancoragem de petroleiros de grande porte.  A ilha abriga as mais importantes infra-estruturas petrolíferas do Irão: é o terminal de uma rede de pipelines dos vários campos de petróleo do Irão e tornou-se o "armazém" de crude e de produtos refinados.

Após o primeiro bombardeamento, dirigido ao heliporto e às defesas aéreas – não danificando infra-estruturas petrolíferas, por certo mais na esperança de uma herança do que por respeito aos inúmeros avisos sobre o efeito que tal demonstração de mau-génio teria nos mercados energéticos mundiais – o Irão explicou-lhe  muito bem explicado que o bombardeamento da ilha de Kharg levará à destruição das estruturas petrolíferas dos países do Golfo Pérsico. Putin sorri.

Depois do êxito militar na Venezuela seguido de uma negociação com a espertíssima e experiente Delcy Rodríguez, a presidente interina que por lá ficou à espera que a crise passe, Trump, o super-trump, convenceu-se de que,  uma vez derrubado o Ayatollah, uma Delcy iraniana brotaria das ervas queimadas de Teerão ou, melhor ainda, o povo aclamaria o regresso de um Palahvi com a bandeira dos States no bolso da carteira, um Palahvi que só agora se lembrou de elevar a voz contra os horrores a que tem vindo a ser submetido o seu povo ao longo de décadas

O que Trump conseguiu não é uma Delcy, é um Kim Jong-un em embrião. Ouvem-se na bancada republicana vozes de "apoiado" e "muito bem", quando em público. Os militares não batem palmas.

Os militares avisaram Trump, os líders europeus avisaram Trump, os briefings de Inteligência (que o presidente não lê) avisaram que o Irão iria fechar o estreito de Hormuz, que seria necessário ponderar as consequências do ataque, estabelecer estratégias para lidar com a situação, prevenir um caos energético e económico... Trump não quis saber, não acreditou no óbvio, prosseguiu com a sua a sua habitual estratégia do "logo se vê", "I'll think of something"

A 8 de Março, Trump escrevia um ressabiado "bilhetinho"  ao primeiro-ministro do Reino Unido que destacou dois porta-aviões para defender Chipre mas não para o Golfo Pérsico : "Não precisamos de gente que se junte a guerras que já ganhámos".

No dia 10 fez uma re-edição da ameaça dedicada a Kim Jong-un durante o primeiro mandato, quando lhe prometeu "Fire and Fury como nunca se viu"; desta feita dedicou o fogo e fúria ao Irão SE fecharem o estreito de Ormuz.  - Se??? -   A 10 de Março? Em que planeta é que este animal tem estado desde 28 de Fevereiro?

Na sexta-feira, 27 de Fevereiro, quando terminaram as conversações com vista a um acordo entre americanos e iranianos - que, supostamente, continuariam na segunda-feira seguinte, dia 2 de Março - os iranianos estavam mais do que a postos no Estreito, não é preciso ser bruxo, o semblante de Kushner não engana um tonto; ao primeiro BUM, na manhã de 28, acabou-se o trânsito. SE fecharem o Estreito o estreito fica fechado, fim de papo.

Depois... Depois vieram falinhas mais mansas, ah e tal,  "Não precisamos de gente que se junte a guerras que já ganhámos" mas é bom que os europeus, o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália., mandem as suas frotas para escoltar os petroleiros na passagem de Ormuz porque nós não damos conta do imbróglio.

Em 2019, Ilan Goldenberg, assessor para a política do Médio Oriente de Obama e líder da equipa do Departamento de Defesa sobre o Irão, alertou para que se ocorresse uma guerra contra o Irão, "serão certos os ataques a aliados dos EUA na região, o encerramento do Estreito de Ormuz, combates no Líbano entre Israel e o Hezbollah. Os ataques iranianos poderão fazer os preços globais do petróleo disparar durante semanas ou meses, talvez para 150 dólares ou mais por barril"

Pois... Querido Trump, o imbróglio é teu, tu o criaste, nem um aviso aos teu aliados, não ouviste qualquer opinião alheia para além da do teu companheiro de negócios israelita. Existiam argumentos de peso para não se fazer o que fizeste, estão à vista, não eram, como disseste, uma questão de cobardia... Tu não és corajoso, és um egocêntrico ignorante e amoral. Para além dos mais imediatos efeitos, económicos e energéticos, partiste o ovo da serpente: um regime no Irão ainda mais radicalizado, a ascensão, descontrolada internamente, do poder militar - tropas formatados desde meninos para a feroz e irracional defesa do regime teocrático -  e uma maior convicção de que é necessário armamento nuclear para sobreviver. Os que queriam negociar estão mortos, por muito maus que fossem eram mais racionais e pragmáticos do que estes. Quem lhes poderá dizer que não têm razão? Por que iriam acreditar? Kim Jong-un não acreditou, riu-se das ameaças, das "cartas de amor" de Trump e continuou para bingo. Do seu ponto de vista, está coberto de razão

Perante o "desembrulha-te sozinho" como resposta generalizada por parte dos aliados Trump, em óbvia fúria, joga uma carta que não tem: ameaça abandonar a NATO

«Os Estados Unidos foram informados pela maioria dos nossos “Aliados” na NATO que não querem envolver-se na nossa Operação Militar contra o Regime Terrorista do Irão, no Médio Oriente, isto, apesar do facto de quase todos os países concordarem fortemente com o que estamos a fazer, e de que não se pode, de forma alguma, permitir que o Irão possua uma Arma Nuclear. No entanto, não estou surpreendido com a acção deles, porque sempre considerei a NATO, onde gastamos centenas de biliões de dólares por ano a proteger esses mesmos países, como uma via de sentido único — Nós protegemo-los, mas eles não farão nada por nós, particularmente, em tempo de necessidade. Felizmente, dizimámos o Exército do Irão — A sua Marinha desapareceu, a sua Força Aérea desapareceu, a sua Defesa Anti-Aérea e Radar desapareceram e, talvez, o mais importante, os seus Líderes, praticamente em todos os níveis, desapareceram, nunca mais nos ameaçando -, aos nossos aliados do Médio Oriente, ou ao Mundo! Pelo facto de termos tido tanto Sucesso Militar, já não “precisamos”, nem desejamos, a assistência dos países da NATO — NUNCA PRECISÁMOS! Igualmente, do Japão, Austrália ou Coreia do Sul. De facto, falando como Presidente dos Estados Unidos da América, de longe o País Mais Poderoso em Qualquer Lugar do Mundo, NÃO PRECISAMOS DA AJUDA DE NINGUÉM! Obrigado pela atenção a este assunto. Presidente DONALD J. TRUMP»

Desde o seu primeiro mandato que Trump tem ameaçado retirar-se da NATO, ordens são ordens... No final de Janeiro último, em Davos, durante a presença dos media às declarações conjuntas com o secretário-geral da NATO, fez questão de afirmar que duvidava da ajuda da NATO aos EUA caso fossem atacados. Mark Rutte, o conciliador, não lhe achou graça, lembrou a única vez que o artº5º foi evocado... E, tenhamos presente, os EUA não foram atacados. Os EUA atacaram um Estado soberano, o 2º desde o início de 2026, quando decorriam conversações com vista a um acordo - porque o acordo que existia foi siderado por Trump. Que esses Estados fossem (sejam) liderados por facínoras é outra questão, estão por aí facínoras de alto calibre que Trump defende e ajuda, está entre pares.

Mas... Retirar-se da Nato significaria, só assim em duas linhas,  perder bases militares estratégicas fundamentais, significaria o agravamento da já complicada clivagem dentro do partido republicano. Um novo impeachment paira sobre a sua cabeça e isso horroriza-o.

Trump tenta acabar a guerra, declarar vitória, objectivos cumpridos. Netanyahu telefona-lhe, nem te passe pela cabeça! O seu sinistro genro, o silencioso Kushner, que apresentou em Davos o plano "Nova Gaza", um projecto de reconstrução pós-guerra de US$ 25 bilhões que visa transformar a Faixa de Gaza numa faixa turística e comercial, um "centro de dados "e, em algumas propostas, a realocação de moradores para áreas sofisticadas denominadas "Nova Rafah", concebida para promover uma economia de livre mercado, baseada numa determinada cripto-moeda, um "país" privado gerido por Inteligência Artificial. Um projecto demoníaco, na base da fundação do "Board of Peace", que faz George Orwell parecer um escritor de contos infantis. O seu sinistro genro, o silencioso Kushner, o mesmo que com Witkoff, o amigalhaço de Putin esteve na última reunião para o acordo, horas antes do Irão ser atacado e que de novo serão destacados para novas negociações para por fim à guerra... Os iranianos não estarão interessados, vão espremer a situação até ao desespero, eles tinham o queijo e Trump entregou-lhes a faca.

Acabar com os ataques ao Irão? Mesmo que eles libertem Ormuz? Está um país privado em jogo, quem é que irá para a "Nova Gaza" com um Irão descontrolado ali tão perto? Kushner telefona ao seu grande amigo e financiador Salman (com uma Camelot da IA sobre a mesa dourada não há judeus e sauditas, há dinheiro, poder e interesses). Salman telefona a Trump: os teus aliados não te ajudam mas podes sempre contar com a minha amizade, apoio e tropas. Trump, amigo, a Arábia Saudita está contigo.
E Trump destaca tropas para seguirem para o Médio Oriente. Invasão ou não, heis a questão...

É absolutamente claro que a guerra Israelo-americana não "está ganha" nem o regime está derrubado, nem foram eliminadas as capacidades convencionais do Irão, a prova é que o Estreito continua controlado por Teerão e instalações vitais para o comércio global de energia continuam ameaçadas em todo o Golfo Pérsico. 
Os Estados Unidos podem optar por intensificar o conflito, potencialmente usando forças terrestres para tomar instalações e território iranianos ou apoiando forças separatistas em todo o país. Os riscos dessas formas de escalada superam em muito seus possíveis ganhos, se falarmos de ganhos confessos e nos interesses dos EUA, enquanto Estado, e da economia global. Mas há outros ganhos, outros interesses...  Presentemente, com a economia global instável e o Médio Oriente em convulsão, a melhor opção para Trump é não se comprometer ainda mais com uma guerra que despoletou em plena ignorância e em "logo se vê", até ele percebe que precisa, rapidamente, de encontrar uma saída.”

Depois de ter dado ao Irão um prazo de 48 horas para abrir o Estreito de Ormuz, Trump cedeu, alegando que seus representantes de confiança, Witkoff e Kushner, claro, haviam iniciado uma comunicação encorajadora com os líders iranianos, falou em  cinco dias de conversações que poderiam pôr fim à guerra. Os iranianos negam que tenham existido quaisquer conversações. Táctica para acalmar os mercados? É possível... mas curto
Tudo depende dos interesses que deseja fazer prevalecer dentro da teia em que ele mesmo se emaranhou

Do que vem a público nos media americanos em pouco, muito pouco, se pode confiar. Ainda que restem media que queiram informar com verdade, as informações que recebem da administração Trump, mais concretamente do Pentágono são de um baralho com cartas escolhidas e marcadas.

O Pentágono dita discretamente às empresas de satélites espiões o que dizer sobre a guerra com o Irão, censurando cirurgicamente o que o público deve "saber".

Fontes militares  e de Inteligência, há dias numa reunião privada em Washington, disseram que o nível de sigilo em torno dos detalhes da guerra com o Irão é imprecedente; quase não há dados divulgados sobre o nível de bombardeamento, os alvos atacados ou efeitos avaliados. O governo Trump está a tentar controlar, ainda mais, o que as os meios de comunicação privados dizem num esforço de bastidores que não havia ocorrido anteriormente.

Assim que os bombardeamentos americanos e israelitas contra o Irão começaram, logo a 28 de Fevereiro, o Pentágono emitiu "orientações" para os operadores de satélites sobre qual “linguagem e termos evitar” ao descrever os danos causados ​​pelo Irão nas bases americanas no Oriente Médio, de acordo com uma cópia das orientações que foi "desviada".

"Evite-se linguagem que implique avaliação de danos de batalha (ADB) ou conclusões operacionais", diz um slide (fotos abaixo) produzido pela Força Espacial dos EUA. O documento continua alertando contra o uso de frases como “Alvo destruído”, “Alvo eliminado” e “Estrutura inoperante”.

As orientações incluem os seguintes exemplos do que dizer e do que não dizer.
Exemplo incorrecto: “O ataque destruiu com sucesso as instalações.”
Exemplo correcto: “As imagens mostram a estrutura em grande parte desabada, com escombros cobrindo a área onde o prédio estava localizado.”

Cerca de 100 empresas americanas possuem licença do governo para operar seus próprios satélites de reconhecimento, uma indústria que movimenta entre US$ 6 e 7 bilhões por ano e atende clientes militares e comerciais com serviços que vão desde a detecção de metano até a avaliação de danos causados por bombas. A maior parte da receita dessas empresas provém das forças armadas e do governo federal. As "quatro grandes" — Maxar Intelligence, Planet Labs, BlackSky Technology e Spire Global — operam cerca de 350 satélites de imagem e interceptação.

Embora a "orientação" do Pentágono para as empresas comerciais seja apresentada como uma recomendação, as empresas cumprem-na porque seus contratos com o governo as levam a não morder a mão que as alimenta.  As empresas privadas tornam-se mais um "colaborador/propagandista" controlado e auxiliar da máquina de inteligência dos EUA, uma tendência que tem vindo em crescendo desde o ano passado
A Força Espacial emitiu esta orientação, posteriormente "desviada" dos canais restritos, para praticamente todas as empresas de satélites comerciais na forma de solicitações por escrito, segundo as mesmas fontes. Isso inclui não apenas empresas que actuam na área de informações confidenciais mas também aquelas que trabalham na colecta e distribuição de materiais públicos ou de "código aberto" que informam os media, os centros de pesquisa e outros grupos.

Desde Fevereiro, quando a Anthropic se recusou a permitir que seu modelo de IA "Claude" seja usado em certas missões que envolvem vigilância doméstica em massa e armas autónomas, o Pentágono ameaçou invocar a Lei de Produção de Defesa para forçar a cooperação da empresa. Segundo as mesmas fontes militares, "Depois da Operação Anthropic, ninguém está interessado em entrar em lutas com o governo, é também mais uma tentativa de fazer com que as coisas sobre a guerra pareçam menos más do que realmente são."
A Planet Labs, uma das maiores empresas comerciais de imagens de satélite do mundo, bloqueou o acesso público a imagens de alta resolução de toda a zona de guerra do Irão e, a 28 de Fevereiro quando do início do ataque, impôs um atraso de 96 horas; posteriormente, a  10 de Março, estendeu o bloqueio a 14 dias  A empresa alega que a decisão foi tomada após consultar especialistas militares e de inteligência. Consultar...

No resto do mundo as informações estão também contaminadas porque a maioria provém de fontes americanas. O que se sabe sobre a guerra no Irão é, na sua maior parte, apenas "o que se julga que se sabe", temperado com factos, imagens e análises de "outros satélites"; tenhamos a noção de que, neste caso particular e ainda mais do que em todos os outros, a desinformação trumpisticamente fabricada é o que preenche os noticiários, as "Breaking News" e as mais fiáveis agências de informação.

As "notícias" pouco interessam, atentemos nos desenvolvimentos construindo um puzzle, peça a peça, juntando as peças mais diversas, as americanas privadas, as israelitas, as russas, as sauditas, o Irão é apenas o eixo


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