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HISTÓRIA DE NATAL COM VINHO DO PORTO


Há uns anos largos, talvez uns vinte, em véspera de Natal, saí do café do bairro pelas sete e meia da tarde e, brrre-brrre-brrre-cheia-de-frio, corri para o meu carrinho – um Fiat 600 D aço metalizado “Racing Hope +” ( era o nome dele, RH+ para os amigos) . Havia uma barulheira infernal, tudo o que era automóvel estava a buzinar, ninguém andava a mais de cinco metros por minuto, a menos que o fizesse a pé, nesse caso era preciso cuidar em não se ser abalroado.
Enquanto tentava acertar a chave com a ranhura da porta do meu bólide, sem descalçar as luvas grossas de carneira, os vários sacos a espalharem-se pela placa central da Av. Visconde de Valmor, ouvi um bip-bip diferente dos póóó-póóó que enchiam os ares até à Lua:
– Vai sair? , perguntavam uns olhos espantados de esperança com uma bebé a choramingar no banco de trás.
– Vou… - a luz acendeu-se-lhe na cara, e logo a seguir - Oh , deixe lá, já tenho os carros atrás a buzinar e não vou conseguir fazer a manobra…
– Não tenho pressa, respondi-lhe, dê a volta que eu espero por si.
– A sério? - respondeu-me a alegria que nasce quando morre o desespero.
E, obviamente, esperei… Esperei onze minutos, que foi o tempo de se dar a volta a um quarteirão em véspera de Natal, nas Avenidas Novas pelas sete e meia da tarde. Então voltei a ouvir o bip-bip, confirmei, acenei e arranquei.
Já tinha andado alguns dez metros, ou seja, tinha virado a esquina e parado aguardando a “onda seguinte” como um surfista do trânsito, quando me apercebi de alguém a correr por entre os carros com uma bebé sobre um braço e uma garrafa com um grande laçarote encarnado na mão, gritando a plenos pulmões – Espere só mais dois segundos, só mais dois segundos… Ao alcançar o meu carro, quase arfando entre sorrisos, enfiou a garrafa pela janela e disparou:
- Você acabou de me oferecer um lugar para o carro à porta de casa dos meus cunhados e tenho o porta-bagagens cheio de embrulhos e comida; ofereceu-me o seu tempo à minha espera e provou-me que fiz bem em acreditar que você ia mesmo esperar, numa fase da minha vida em que quase me afogo em descrédito. Por favor aceite essa garrafa que era a prenda do meu sogro. Ele vive aos coiçes a toda a gente: aos filhos, à minha sogra, a toda a gente.
- E o que vai oferecer ao seu sogro? – perguntei sem me aperceber da indiscrição
- Uma boa zurrada e a gravata que tinha comprado para o porteiro do meu prédio, disse com uma satisfação vingativa, Feliz, feliz Natal!
E desapareceu com a bebé ao colo, que já não chorava.

Nessa noite, enquanto trocavamos as prendas, abri a garrafa. Era um velhíssimo Vinho do Porto, do melhor que me tem passado pela garganta, até porque tinha uma insubstituível característica: não era preciso brindar, os votos quentes e doces da alegria de Dar estavam contidos na garrafa, embrulhados em sinceridade.


Feliz Natal para si também.

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