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OS LIMITES DO BOM-SENSO

No dia 7 deste mês, dia do primeiro ataque terrorista em Paris, deixei aqui um registo do que se tinha passado, sem comentários ou considerações relativas à revista "Charlie Hebdo".
O que me chocou, revoltou, enojou, foi, uma vez mais, o terrorismo em si, o ataque a cívis desarmados, a violência pela disseminação do medo. Palavras minhas, usei-as à laia de Post scriptum para referir o seguinte:

Aflige o terrorismo, desenfreado, enlouquecido.

Aflige a reacção a este tsunami assassino sem fronteiras nem limites, crescente, em vias de descontrolo.

Há pouco mais de meio século o mundo viveu as consequências de um anti-semitismo irracional e poderoso

O radicalismo islâmico está empurrando o mundo para uma reacção de revolta e auto-defesa cujos limites se vão esfumando de dia para dia

Só os Estados muçulmanos, numa condenação inequívoca, activa e absolutamente demarcada, podem erguer alguma força contra esta tempestade de "Mal" que assola o mundo
... antes que seja demasiado tarde.  
Inshallah
Sobre a "Charlie Hebdo" não disse nada, nada tinha a dizer, pelo menos dentro daquele contexto: foram vítimas do que abomino, praticam um tipo de imprensa que não me agrada, de todo, mas que, e ainda bem, têm toda a liberdade para a fazer.

Dias passados fizeram a primeira publicação após aquela chacina.
Não me passa pela cabeça o que será trabalhar naquele ambiente tendo presente, de um ponto de vista pessoal, íntimo, aquele horror, aquela injustiça; o sangue, a ausência, a saudade, a revolta e eu sei lá mais o quê. A absoluta desconsolação.
Não posso dizer que compreendo, não me atrevo.
Para além de tudo o que há de imperdoável, revoltante e que chocou o mundo, independentemente de nacionalidades e religiões, há um lado pessoal que se me aparenta inimaginável.
Porém...

Somália - 17/01/15
Quando se tem em mãos uma publicação que vai ter uma tiragem de 1 milhão,
depois 3 milhões, depois 5 milhões, para além da que ultrapassou qualquer contagem e foi difundida via internet, é absolutamente indispensável que se pense, opte e se meçam os efeitos muito para lá das questões pessoais.
A nossa liberdade de expressão é importante, é fundamental mas não é a única coisa importante e fundamental no mundo e, se não houver consciência disto de nada vale, não há consciência de coisa alguma.

Eu vi, e a equipa que produz a "Charlie Hebdo" por certo também viu, os milhares, direi mesmo milhões, de muçulmanos que se manifestaram contra o sucedido, que choraram e gritaram "O Islão não é isto"; em Paris, fora dela e fora da Europa. Muitos não gritaram por saberem, melhor do que nós, que não o podem fazer.

Nigéria - 6 igrejas incendiadas
Não havia qualquer necessidade e muito menos qualquer vantagem em publicar uma nova caricatura de Maomé da dizer "Je suis Charlie".
Foi estúpido, foi arrogante, foi inconsequente.

Resultado: igrejas queimadas, consulados sitiados, cidadãos franceses ameaçados e fechados em casa. Os Jihadistas riem-se, somam e seguem. (Ver links no final do post)

Impressionou-me ver um imã egípcio a pedir, emotivamente, aos muçulmanos que ignorassem esta caricatura, dizendo que faz parte da liberdade de imprensa ocidental e que deve ser ignorada.
Não pude deixar de dar razão a vários muçulmanos turcos que disseram ser contra o que se tinha passado em Paris, que o terrorismo não segue os ensinamentos do Corão mas que se tinham sentido revoltados e desrespeitados pela nova publicação.
E outros, vários outros, muitos outros

Consulado Françês - Paquistão
E só mais uma palavra sobre a capa de revista:
Para além da caricatura pode ler-se "Tout est pardonné"...
Não sei por quem falam, por mim não é por certo.
O terrorismo não é perdoável, o jihadismo é inaceitável, a falta de respeito pela liberdade alheia é desumana, seja pela liberdade de expressão seja pela liberdade religiosa.

Fui "Charlie" no dia em que milhões foram "Charlie", muçulmanos inclusivé.


links:
http://www.bbc.com/news/world-africa-30863159
http://www.bbc.com/news/world-asia-30848689


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1 comentário:

Anabela Costa disse...

Ainda bem que há mais pessoas a pensar o mesmo que eu. Concordo com a liberdade de espressão. Agora o que os "Charlie" fizeram foi uma falta de respeito, um abuso. Temos de respeitar se queremos ser respeitados. Com isto não quero dizer que estou do outro lado, que aceito as razões deles. Mas defendemos com unhas e dentes no que acreditamos e de quem gostamos. Não sou crente, mas respeito a religião e a maneira de pensar de cada um. É o amor e o respeito que temos de ter pelo próximo que comanda o Mundo. EU NÃO SOU CHARLIE!