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DIREITOS DAS MULHERES OU MULHERES A DIREITO?

Ontem foi Dia da Mulher (sim, outra vez)
Retomo dois post anteriores, baralho e volto a dar.

Já me expliquei aqui, muito bem explicadinha, por que me faz brotoeja esta coisa do dia da mulher. Há dois anos tomei-me de razões e expus a minha frustração relativamente a este dia
(AQUI); Em termos gerais encontra-se resumido no parágrafo abaixo:

Humanos, habitantes da Terra
O desrespeito pelos Direitos da Mulher, seja lá isso o que for, não é em nada diferente do desrespeito pelos Direitos HUMANOS, do Ser Humano. Seja a violência, o direito de voto, a igualdade salarial, o o direito à educação ou tantas outras questões cujas violações são aberrantes, são violações de Direitos das Pessoas enquanto tal, não das mulheres ou dos homens. São problemas humanos. 

 O QUE É QUE AS MULHERES QUEREM?

De um modo geral as mulheres querem o mesmo que os homens, ou seja, as pessoas querem todas mais ou menos as mesmas coisas, variando mais as nuances de importância que atribuem -  mais a isto e menos àquilo - do que propriamente a espécie de aspirações que têm.

Ao longo da vida já ouvi muitos homens dizer os maiores disparates acerca daquilo que pensam que as mulheres querem. Sei que há pessoas com os desejos e as aspirações  mais dispares da "normalidade", coisas difíceis de imaginar, há gente para tudo mas se pretendermos generalizar não deveremos ir por aí.

Uma das coisas que mais me chocou foi a opinião de um amigo com quem almoçava, homem crescido e vivido, que se saiu muito honestamente com esta:
«As mulheres querem os homens até terem os filhos que pretendem, depois disso toleram-nos».
Errado, as mulheres, muito menos hoje em dia, não  "querem" um homem para ter filhos, e ainda menos precisam de o tolerar depois disso. 
Não é isso que as mulheres querem.

Outro disparate, muito divulgado em piadas amargas e conversas de caserna, é:
«as mulheres querem é um gajo que pague as contas». 
Errado. As mulheres, como os homens, querem poder pagar as contas. Não nego que ainda vão havendo mulheres que preferem ser sustentadas a sustentar-se; é uma questão educacional e que vai abrangendo cada vez menos mulheres; a maior parte das mulheres sustenta-se e não é por isso que deixam de querer, ou passam a querer, um homem nas suas vidas.

O último dos disparates que vou referir é o simplista:
«as mulheres precisam de se sentir amadas, admiradas e protegidas». 
Isto não estará errado se tivermos em conta que se aplica a quase toda a gente independentemente do seu sexo, à excepção dos eremitas e pouco mais; se considerarmos como uma necessidade fundamentalmente das mulheres estamos a afastar-nos da realidade. Além disso, enquanto "necessidade fundamental", o caminho mais curto para perder esse tipo de suposto "amor e admiração" é a convivência intima com o amante admirador - qualquer mulher, por mais burrinha que seja, sabe isto - o "pedestal" dificilmente resiste à ramela matinal. Quanto ao "protegidas"... já lá vamos.

Não tenho qualquer formação que me permita mergulhar fundo no tema, tenho apenas mais anos vividos e convividos do que aqueles que, por certo, me restam. Isto é: já aprendi mais até aqui do que virei a aprender, pelo menos neste capítulo.

Dizia Aristóteles, e não constitui surpresa, que o homem, leia-se ser humano, é um animal social; quer isto dizer que a humanidade é uma espécie gregária, tende a viver socialmente, em conjunto.
Depois há a questão do sexo e da biologia. Aqui dá-se a tal divisão que leva, na maior parte dos casos, as mulheres a partilharem mais intimamente as suas vidas com homens e vice-versa. Essa é uma divisão física e biológica - importante, fundamental para a sobrevivência da espécie - que condiciona mas não define o lado não físico do que as mulheres querem.

O que as mulheres querem querem-no de qualquer ser humano, homem ou mulher. 
É verdade senhores, por mais que vos custe. 
Uma coisa é o parceiro sexual ideal, outra é o parceiro ideal e, entre um e outro, atrevo-me a dizer, as mulheres na sua majoríssima parte, se tiverem de optar, preferem o parceiro ideal ao sexo fabuloso.
Na sua busca por um companheiro que preencha as suas aspirações as mulheres procuram o mesmo que procuram numa boa amiga, adicionando a atracção sexual, a relação física e, algumas, não sei se muitas ou poucas, uma complementaridade social.

As mulheres querem alguém que as possa ver com as ramelas matinais sem as olhar de forma diferente. Querem poder ser quem são, com lágrimas e gargalhadas, medos e conquistas, segredos e confissões, sem que isso lhes traga insegurança ou julgamento; sem terem de disfarçar, fingir ou esconder; sem terem de ser perfeitas, bem humoradas e desejáveis sempre que o cavalheiro está presente. Querem ser a mesma pessoa que são quando estão sós, sem os cuidados inerentes à exposição social. A isto chama-se intimidade, amizade e confiança.

Confiança... 
As mulheres querem alguém que seja capaz de quebrar lanças por elas. É isto o fundamental, mais do que tudo. 

Não querem um ninja nem um agente treinado do FBI, querem que a pessoa com quem partilham a sua vida esteja a seu lado para o que der e vier, que não lhes falhe se precisarem de ajuda, que não se "arme em mais forte" se elas precisarem de ajuda.
Disse acima que de "serem protegidas" falaria adiante. Todas as pessoas, pelo menos de vez em quando, têm situações ou momentos em que precisam, ou gostariam, de se sentir protegidas. As mulheres não querem paternalismos - não são crianças - querem sentir que não estão sós quando optaram por não estar sós.

Poucas coisas decepcionarão tanto uma mulher quanto a ausência de uma atitude perante uma situação que a requeira. E poucas coisas conquistarão mais o seu reconhecimento e afecto do que uma atitude inequívoca no momento certo. 
Esta protecção tem mais a ver com saber, e constatar, que alguém quebra lanças por nós do que com a protecção do macho guerreiro. Quem perceber isto percebe o fundamental, mas perceber não basta.


As mulheres, como os homens, têm as suas futilidades mas as das mulheres são as suas, as que fazem parte da sua maneira de ser mulher e que varia de mulher para mulher, são marcas da sua individualidade. Podem querer usar sapatos de salto alto e não é por isso que devam ser olhadas como predadoras em busca de caça ou despertar a desconfiança ciumenta. Podem gostar de blusas cor-de-rosa às florzinhas com rendas e folhinhos, serem niquentas com os filhos e com a casa e não é por isso que serão menos competentes e profissionais do que um fato-e-gravata-relógio-telemóvel.

Muitas mulheres, sobretudo as mais novas, preocupam-se muito com a aparência; é natural, é pela sua aparência que não maioritariamente lidas e julgadas, muito mais do que os homens. E os homens são uns tontos que se deixam manobrar pela aparência com uma previsibilidade quase infalível. Uma coisa vos garanto, na hora da verdade não é pela aparência que as mulheres querem ser tidas em consideração. O «és tão bonita» pode ser agradável, dependendo de como é dito pode até soar mal,  mas nunca é satisfatório, mesmo quando parece.

E depois, já a outro nível, as mulheres querem respeito e reconhecimento. Quem não quer?

Querem que a sua opinião seja ouvida e levada em conta sem que as olhem como se fossem umas crianças parvas falando do que não sabem
Claro que há mulheres que parecem umas crianças parvas falando do que não sabem, mas isso não é exclusivo das mulheres, é uma síndrome disseminada pela humanidade.
As mulheres querem ser levadas a sério quando sabem que o merecem, não buscam condescendência nem um estatuto diferente. 

Querem a sua liberdade individual de entrar e sair, pôr e dispor, decidir e escolher como qualquer adulto de pleno direito. Fico parva quando ainda oiço «vamos ver... vou perguntar ao meu marido se posso...» ou pior «nem pensar, o meu namorado matava-me se eu...». A certidão de nascimento de uma menina não tem anexo um título de propriedade transmissível.

Querem o reconhecimento do seu esforço, da sua dedicação, da sua presença, do seu trabalho, da sua inteligência, da sua personalidade... e dos seus iguais direitos de individuo humano, maior e capaz. Mesmo em casa, sobretudo em casa ou numa relação que se pretenda boa e duradoura.

Tudo isto de que falo não são desejos exclusivos das mulheres, óbvio, mas são factores que incontornavelmente entram na equação do que as mulheres pretendem dos homens, das pessoas.

É difícil? Não me parece mas a verdade é que a aplicação deste entendimento fica largamente aquém do desejável, quanto mais da realidade.

Quanto às mulheres... Ainda que a geografia cultural tenha aqui um papel predominante, haverá a ressalvar que em muitos casos,  concretamente no nosso país, a discriminação sexual é fruto da própria mentalidade das mulheres e da aceitação como "normal" de comportamentos violadores da sua liberdade e dignidade: todos nós conhecemos mulheres cujos maridos "não as deixam" isto ou aquilo. Não deixam? Estas mulheres reconhecem este tipo de "autoridade" baseando-se em quê? Já não são "filhas", são mulheres, mães, trabalhadoras, Pessoas, como os seus maridos.
Estão tantas delas habituadas a ser consideradas seres "frágeis", como idosos, crianças, diabéticos ou doentes mentais, que não só aceitam esta separação de direitos como muitas, muitíssimas há que o celebram... e com alegria.

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