::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

MUNIQUE 26 - A INSUBMISSÃO

No que toca a política internacional a informação dificilmente é clara, mesmo quando se pretende que seja tão aberta quanto possível. A política internacional nunca, nunca, tem só um tópico, é sempre composta por um entrelaçado de factos, conversações, cedências e exigências, flutuações de poderes, de vários poderes. Se, por exemplo, tomarmos uma notícia sobre a Ucrânia, não teremos uma visão clara se não considerarmos os acontecimentos nos EUA; isto parece-me óbvio. Mas também teremos de considerar o Irão, o que já não será tão óbvio para muito boa gente. E por aí fora... As notícias sobre o panorama internacional são demasiado compartimentadas, não proporcionam a visão global, e mais realista, do tabuleiro onde se movimenta o mundo, no todo ou em parte. E há que saber separar o que é realmente importante e consequente do que é conjuntural e consumado.

Reuniões globalistas, como o Fórum Económico de Davos, a Conferência de Segurança de Munique,  são fundamentais para a aquisição de uma perspectiva globalista porque abordam questões diversas analisadas e expostas sob tantos ângulos quantos os participantes intervenientes, ou quase. Verdade seja dita que para isto é necessário que  "os intervenientes" saibam, queiram e, mais importante, tenham a integridade necessária à exposição factual de situações complexas, sem isso não passam de discursos tácticos, de mais do mesmo.

A primeira-ministra da Dinamarca,  Mette Frederiksen, com uma presença mais discreta na Conferência de Segurança de Munique do que os líders europeus "da frente", fez várias intervenções de uma lucidez e objectividade invulgares na boca de políticos que têm de pesar as palavras na balança da conveniência diplomática. O que se chama em bom português chamar os bois pelos nomes. Começou por deixar absolutamente claro que Trump não se sente minimamente espartilhado nem comprometido com os recentes acordos assinados no âmbito da defesa do Ártico: 

«Acho que o desejo do presidente dos EUA é exactamente o mesmo. Ele leva esse assunto muito a sério e, como sabe, discordo dele. Discordamos como Reino da Dinamarca e, aliás, a Europa discorda. A pressão sobre a Gronelândia, sobre o povo da Gronelândia  é totalmente inaceitável. Sempre fomos um parceiro muito fiável e forte para os EUA.  Se for uma questão de defesa nacional, se for uma questão de segurança comum, gostaremos sempre de trabalhar em conjunto com os EUA e isso é possível. Todos nos perguntam se achamos que acabou. Não, não achamos que tenha acabado. Temos um grupo de trabalho, o que é bom, e vamos tentar encontrar uma solução, faremos tudo o que pudermos. Mas, claro, existem linhas vermelhas que não serão ultrapassadas.»

Posto isto, as linhas que separam "uns" dos "outros" estão perfeitamente marcadas; quem está unido e quem está do outro lado do tabuleiro onde se movimenta o mundo, no todo ou em parte, resta expor o entrelaçado dos factos. Mette Frederiksen fê-lo sem cerimónias. Transcrevo a tradução, o vídeo fica a meio e vale a pena ver como ela o diz, a linguagem vai muito além das palavras

«Esta é uma mensagem muito dura para todos os europeus. Quer dizer, temos de ser capazes de lidar com mais crises ao mesmo tempo, porque o velho mundo não vai voltar e está tudo interligado. Portanto, a guerra na Ucrânia nunca foi sobre a Ucrânia. Sim, são aqueles que estão a sofrer mas é sobre a Rússia e sobre os sonhos imperialistas da Rússia. E o mesmo acontece com a região do Ártico. Não se trata da região do Ártico, trata-se dos sonhos imperialistas da Rússia. A guerra híbrida contra a Europa, que acontece todos os dias, tem de ser enfrentada ao mesmo tempo que a guerra na Ucrânia e no Ártico. Aliás, a porta está agora completamente aberta para a Rússia na região do Sahel; estamos fora disso,  os nossos problemas com o terrorismo não fazem parte das nossas principais preocupações neste momento. Posso garantir que vão regressar e provavelmente regressarão na mesma altura em que outra coisa esteja a acontecer no flanco leste. Portanto, é uma nova... quer dizer, esqueçam o que é lidar com uma só crise de cada vez. Precisamos de ser capazes de lidar com tudo ao mesmo tempo e, lamento dizer mas penso que faz parte da estratégia de diferentes partes do mundo, neste momento, lançar o máximo de conflitos, discussões, tweets e mensagens para cima da mesa em simultâneo. para deixar todos a correr de um lado para o outro como galinhas sem cabeça. Quando perguntou, é uma óptima pergunta: quanto tempo levamos a responder a tudo isto? Demasiado. Há duas lições muito importantes a aprender enquanto europeus: Não podemos construir a nossa estratégia com base no que os outros estão a fazer. Houve um momento europeu em Janeiro? Sim, houve. E agora a nossa obrigação é transformar este momento europeu relativo à Gronelândia numa estratégia europeia. Acho que isso é extremamente importante. A outra lição aprendida é que, quando nos unimos e quando somos capazes de responder tão eficazmente quanto os outros, os mercados reagem e depois podemos ver alterações nas mensagens políticas dos EUA»

E Rubio? 

     O secretário de Estado Rubio tinha a missão de adoçar uma Europa que se tornou reactiva e incrédula face aos EUA. 
Fez um discurso de Dia dos Namorados, tarefa bastante facilitada depois da débacle de Vance na Conferência do ano passado, plena de coléricas acusações de que a Europa está a suprimir a liberdade de expressão e a democracia, a enfrentar um declínio civilizacional;  Rubio não teve de se esforçar muito para parecer amigável... Mas não foi. 
O discurso foi diferente no tom - Rubio é educadinho - mas não na essência. Evocou o passado, absolutamente passado, e serviu amarguras com açúcar - os Estados Unidos estão preparados para "reconstruir" mas apenas e só de acordo com os seus valores - e os "valores" dos EUA são os ditados pela moralidade de Trump, não pela lei internacional, a frase é dele, Trump, não minha. Convenhamos que deixa muito, muitíssimo , a desejar. 
«Os EUA precisam de ver uma Europa reformada, disse aos aliados de longa data – não apenas detalhes sobre os orçamentos de defesa, mas uma mudança radical no sistema de valores do continente»
Da Gronelândia, crise que já este ano agitou a unidade da NATO, nem uma palavra. Sobre a Ucrânia, só quando questionado após o discurso e fez elevar algumas sobrancelhas ao dizer que  que a administração Trump ainda não sabia se a Rússia queria realmente fazer um acordo de paz (apesar de Trump ter afirmado no mesmo dia que Putin quer fechar um acordo e que Zelensky deve ceder terreno diplomático para não perder a oportunidade).
O caminho para o coração da Europa não passa pela evocação de um passado familiar, "A América será sempre a filha da Europa" não desperta nos europeus sentimentos de ternura. O que a Europa quer é ver a América entregue a alguém que não seja uma propriedade de Putin ao seu serviço.
---------- <0> ----------

«Senhoras e senhores, é com grande prazer que me encontro aqui com o Primeiro-Ministro do Reino Unido, um aliado e amigo inabalável.
Caro Keir, ambos conhecemos o contexto da nossa discussão, a natureza das relações transatlânticas.
Passaram quase quatro anos desde o início da imprudente agressão da Rússia contra a Ucrânia.
Enfrentamos a ameaça muito clara de forças externas que tentam enfraquecer a nossa união a partir de dentro, o regresso da competição abertamente hostil e das relações de poder.
O modo de vida europeu, as nossas democracias, as fundações democráticas e a confiança dos nossos cidadãos estão a ser desafiados de novas formas em tudo, desde territórios a tarifas e regulamentos tecnológicos.
Fundamentalmente, tudo isto aponta para uma realidade simples no mundo fragmentado de hoje.
A Europa precisa de se tornar mais independente. Não há outra escolha.» 
Abertura do Discurso de von der Leyen

Sem comentários: