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A GUERRA FRIA

A Ucrânia não paga à Rússia a conta do gás, que já vai num balúrdio.
A Rússia começa a pensar no assunto e corta o fornecimento de gás à Ucrânia.
Embora neste caso eu não creia que a coisa seja assim tão simples, entende-se: quem não paga a conta tem o fornecimento cortado, todos o sabemos pela via empírica.

Abordemos a coisa por outro lado…
A Rússia teve de tomar uma decisão relativa ao corte de fornecimento de gás, teve de pensar no assunto, terá considerado contas, valores, fornecimentos e contratos em vigor.

Uma vaga de frio vem assolar a Europa. A Alemanha regista temperaturas abaixo dos -27ºC e a França ultrapassa os -23ºC. Quanto aos países do Leste Europeu nem vale a pena referir temperaturas, como sempre, é frio a perder de vista.

A Rússia acusa a Ucrânia de desviar gás do pipeline em proveito próprio e corta o fornecimento de gás à Europa.

Moscow counters that Kiev is to blame, saying that Ukraine has blocked the pipelines that transport gas further west and has been syphoning off gas for its own use. (in BBC World 8 Jan.)

A Ucrânia nega, apresentando um argumento de peso e comprovável: não gamaram gás algum nem poderiam faze-lo porque pelo gasoduto não passa gás, está vazio.

Ukrainian Deputy Prime Minister Grigory Nemyria placed the blame for the row squarely at Russia's door.
"If there is something to transit of course Ukraine was committed to ensure uninterrupted transit of the Russian gas to Europe but there is no gas at all as we found out today then it speaks for itself,'' (in BBC World 8 Jan.)

Ainda que a Ucrânia andasse no gamanço parece-me que seria um assunto a ser resolvido entre o gamado e o gamador…
Agora a sério, mesmo que houvesse um desvio de gás para uso próprio por parte da Ucrânia, qual seria, digo, qual é a justificação da Rússia para cortar o fornecimento de gás à Europa, de Leste e Comunitária? O que é que Putin quer?
(Para começar deviam de ser tomadas medidas drásticas para lhe cortar o fornecimento de vodka, aquele gajo bebe e muito mais do que a conta)

Do pouco que chega às notícias, obvia e naturalmente, sabe-se que:

Curbs on gas use due to the ongoing dispute between Russia and Ukraine have forced many companies in Eastern Europe and the Balkans to scale back or even halt production.

Activity at the Suzuki plant near Budapest in Hungary was shut down yesterday morning. Workers were sent home but advised to return on Monday.

Restrictions have been placed on consumers using more than 500 cubic metres of gas per hour.

The Hungarian branch of an Austrian brick and tile manufacturer also reduced its gas usage, meaning one third of the material waiting to be fired in kilns became scrap.

Hungary’s biggest meat factory cut production and was forced to suspend the slaughtering of animals. However it could be given an exemption and restart later this morning.

Bread manufacturers in the Bulgarian town of Varna have warned that prices will rise if they are forced to switch from natural gas to alternative fuel.

Temperatures across Europe have plunged to record lows, causing travel chaos and putting more demand on power supplies.

In France, the normally balmy south was covered in up to 40 centimetres of snow, leaving hundreds of motorists stranded on motorways around Marseille. The city’s main St Charles railway station had to be closed after the signals froze.

The situation was the same across a swathe of northern Italy. In Milan, the city’s two airports have re-opened after being closed for several hours on Wednesday. Flights have also resumed at airports in Turin and Bergamo.

Temperatures sank to record lows in parts of Germany overnight. A weather station in the eastern state of Saxony said the coldest spot was just below minus 27 degrees Celsius.Thick snow has covered much of the country and ice breakers have been brought in to clear several waterways. ( EURONEWS, 7 Jan.)

(Ahhh... Moscovo volta a sentir que tem poder sobre o Ocidente como há muito tempo não sentia - Na Zdorov'ye! )



Marcam–se 3 reuniões bilaterais separadas, portanto 6, entre representantes da U.E. e, por um lado, a Rússia e, por outro, a Ucrânia.
A U.E. faz saber publicamente que a sua paciência é “estreita” pondo em causa a confiança na Rússia enquanto fornecedor.
Após a primeira reunião é noticiado pela BBC:

BBC's Dominic Hughes in Brussels says any optimism resulting from the Moscow meeting may have been misplaced - further meetings expected later in the day appear to have been cancelled.

Porque será que esta situação parece não ter surpreendido ninguém?
Não vivo na paranóia da teoria da conspiração mas que “las hay, las hay”.
Haverá alguma cabeça pensante neste planeta que acredite que a Rússia corta o fornecimento de gás à Europa, no pino do Inverno, sob uma vaga de frio, afectando indústria, transportes, e milhões de pessoas que constituem a população afectada, por achar que a Ucrânia desviou gás das condutas europeias? Mas isto passa pela cabeça de alguém?

E o que passará na cabeça dos dirigentes russos se vieram a ouvir quantas pessoas morreram devido ao frio nos países em causa? Correndo o curto risco de ser injusta diria que se estão nas tintas; pois é chato mas teve de ser.

On Wednesday, heating systems shut down in some parts of central Europe, as outdoor temperatures plunged to -10C or lower.
The list of countries that reported a total halt of Russian supplies via Ukraine included Romania, the Czech Republic, Slovakia, Bosnia-Hercegovina, Bulgaria, Croatia, Greece, Hungary, Macedonia, Serbia, and Austria. (BBC)

Se há coisa que chateia é que façam das pessoas parvas.
Eu não sei o que é que “os russos” querem, alguém por certo saberá. Por mim, nem me passa pela cabeça que o facto de Yushchenko ter ganho as eleições na Ucrânia, contra o candidato apoiado por Moscovo, e de estar a fazer uma aproximação à União Europeia tendo declarado ter interesse em vir a integra-la, possa estar minimanente relacionado com estes acontecimentos.

Não sei o que Moscovo quer mas sei que estão a pedi-las…
Haja Deus…


Dependence on Russia for gas:
- 100% dependent on Russia: Latvia, Slovakia, Finland, Estonia
- More than 80% dependent: Bulgaria, Lithuania, Czech Republic
- More than 60% dependent: Greece, Austria, Hungary
Source: European Council on Foreign Relations


Countries in eastern and central Europe have been particularly badly affected, as they rely heavily on Russian gas supplies but don't have access to the same kind of stockpiles found in Germany, Italy and France.

2 comentários:

ZPedro disse...

Como diz, hoje, o Ferreira Fernandes, no Diário de Notícias, o acaso faz bem as coisas, e a jogada incerta de nos colocarmos na dependência do gás argelino, tem dado certo.
Num mundo globalizado, o que acontece a leste não pode ser indiferente ao oeste. Não pode? Eu acho que pode, senão vejam-se as relações norte-sul. Veja-se o que se passa no médio-oriente. Isto é: depende dos interesses.
Quando, há uns tempos, as bombas da NATO pararam de arrasar Belgrado, soube-se, quem não sabia, que nos balcãs se encontram os nós das condutas do gás natural entre o norte e o sul: era necessário impedir um poder forte na região, a controlar aquelas rotas! Aliás, é necessário impedir qualquer poder forte, fora das "nossas regiões".
Não são só os bons exemplos que são seguidos. Macacos de imitação há por todo o lado.

Alex disse...

Vamos lá por partes:

Quanto ao poder ser indiferente a A o que se passa com B... poder pode mas, no meu fraco entender, não deve.
Como dizia o outro "Há só uma Terra" e, se isto sempre foi verdade, hoje é mais verdade do que nunca, provavelmente menos do que amanhã.
A indiferença pode ser confortável, politicamente conveniente e, sobretudo, se considerarmos a diminuta informação que chega ao comum dos mortais relativamente às situações, e razões, reais, não as noticiadas, a indiferença é uma atitude quase sensata. Mas negativa, ausente, dissociada e permissiva.
Quanto há divisão de poderes, a manutenção de poderes e as lutas pelos poderes... pois já se sabe: Mi menti qui eu gôsssto. Na vida real, como diz o meu filho, é assim. Sabemos, temos de o aceitar mas é bom que mantenhamos em mente que vivemos do lado da ficção.
Bom fim-de-semana ZéPedro