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O PODER DA DEMAGOGIA

DEMAGOGIA:

  • Discurso ou acção que visa manipular as paixões e os sentimentos do eleitorado para conquista fácil de poder político
  • Termo de origem grega que significa "arte ou poder de conduzir o povo". A Demagogia é uma ideia política que consiste em apelar a emoções e sentimentos (amor, ódio, medo, inveja, desejo) para ganhar o apoio popular, frequentemente mediante o uso da retórica e da propaganda.
  • Arte de conduzir o povo a uma falsa situação. "A arte de conduzir o povo". Dizer ou propor algo que não pode ser posto em prática, apenas com o intuito de obter um benefício ou compensação.


 Começa como escrito nessa quadra de linhas aí abaixo o manifesto publicado no "Facebook" pela organização (?) da manif.
«Que se Lixe a Troika! Queremos as nossas Vidas!»
marcada para este próximo sábado, 15 de Setembro:
«É preciso fazer qualquer coisa de extraordinário. É preciso tomar as ruas e as praças das cidades e os nossos campos. Juntar as vozes, as mãos. Este silêncio mata-nos. O ruído do sistema mediático dominante ecoa no silêncio, reproduz o silêncio, tece redes de mentiras que nos adormecem e aniquilam o desejo.»
Pela parte que me toca acho muito bem que as pessoas se manifestem de acordo com a sua consciência - o direito à manifestação é um dos pilares da Democracia.
Salvaguarde-se que há que ter em  conta que se pretende que se  manifesta a consciência, a  racionalidade e não apenas um estado de alma, sentimentos e emoções que, por muito compreensiveis e justificados que sejam em nada contribuem para a resolução dos problemas reais nem para a alteração do status.
A subjectividade é um direito humano que reproduz a variedade de opiniões e criatividade;
A objectividade funda-se em factos indiscutíveis, ou passiveis de discussão estéril.

Facto: A Torre Eiffel existe.
Seja qual for a opinião que tenhamos acerca da Torre, ela existe. Podemos deita-la abaixo, acrescenta-la ou pinta-la de cor de rosa, nada altera o facto de que actualmente ela existe.

Facto: a situação de ruptura económica de Portugal existe.
Em Abril de 2011, ou seja, há exactamente um ano e meio, Portugal faliu: o dinheiro que o Estado português tinha nos seus cofres não chegava para pagar os salários e pensões de reforma.( É. Em Abril de 2011 Portugal tinha nos seus cofres 300 milhões de euros; para termos comparativos, Tom Cruise ganha por ano 60 milhões de euros)

Por mais que o governo em funções, em Abril de 2011,  ainda presidido por José Sócrates, se tivesse negado a assumir a absoluta necessidade de pedir um resgate europeu viu-se forçado a fazê-lo. O governo, e os partidos maioritários, comprometeram-se com as condições especificadas pelo Fundo Monetário Internacional, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia, vulgo "Troika" para que fosse concedido um empréstimo que resgatasse, literalmente, a insustentável situação económica e social do Estado português. E pudemos então respirar, ou seja, pagar a funcionários, serviços e subsidiados do Estado - o que também é um facto.

Pudemos respirar mas, provavelmente, não quisemos tomar consciência das obrigações que contraíamos nem das incontornáveis alterações que teríamos de impor ao país, a todos nós.
Não foi, não é, nem será, mais possível continuarmos a viver dentro da esquemática económica em que vivíamos.
O dramático "aperto" em que nos encontramos é directamente proporcional à rebaldaria em que passivamente vivemos, aos astronómicos gastos a que nos habituamos muito acima da nossa real condição de pequenos-produtores/grandes-consumidores
E agora? Agora "aqui d´El rei qu´eu nã m´águento". Pois é, acontece sempre quando vem a factura da rebaldaria.
E a culpa? A culpa é sempre de quem toma medidas reais para alterar uma situação menos penosa mas factualmente insustentável. Não, ninguém nos vai dar dinheiro para continuarmos a pagar tudo o que estávamos habituados a pagar. E temos de pagar o que pedimos se queremos ser levados a sério, se quisermos manter o crédito aberto para os nossos lusos desaires, se quisermos conquistar mercados. É duro mas é um facto.
«... tomar as ruas e as praças das cidades e os nossos campos. Juntar as vozes, as mãos.»
É bonito, é até poético, é poesia surrealista.
Lembra-me um refrão em voga nos anos 70:
"Junta a tua à nossa voz, avante camarada, avante e o Sol brilhará para todos nós"

É revolucionário? Não. É demagógico, é manipulação:
Quem concebe esta mobilização (e já a próxima greve geral) sabe que  o «queremos as nossas vidas» vai ao encontro de um desejo generalizado, um sentimento enraizado mas que a recuperação "da vida" não passa por aí; passa por uma estabilização da economia, por um aumento da produção, pela redução drástica da Despesa.
Por passa apenas uma acção política concertada de conquista de poder e não a "espontânea reacção" no facebook. Por passa a mobilização de massas descontentes e fragilizadas com com um fim que nada tem a ver com a reconquista das nossas vidas
Isto deveria ser óbvio mas, ao que parece, não é.

Num ponto creio que a majoríssima parte dos portugueses estará de acordo: é fundamental conseguirmos a estabilização da economia, o aumento da produção, e a redução drástica da Despesa.
O "desacordo" começa não no que é fundamental mas na forma de o conseguir e, se coloco "desacordo" entre aspas, é porque para discordar de algo é necessário conceber uma ideia ou acção alternativa e praticável que se opõe, caso contrário não se trata de desacordo mas de mera contestação.
Contestação vejo muita, propostas de alternativas nem por isso.

Tomemos o caso da redução da Despesa Pública.
Uma série de organismos e fundações têm os dias contados - foi anunciado pelo governo.
OK. Só quero ver quando "os baluartes da redução da Despesa" constatarem que os seus ganha-pão vão ser encerrados, se não lhes dá para mudarem o seu móbil contestatário.

E mais. E pior... Mais grave.
A redução eficaz da Despesa pública, a redução do déficit orçamental, seria possível se fossem cortados (leia-se despedidos) cerca de 100 mil activos (leia-se trabalhadores), para mais e não para menos, do sector estatal. O governo opõe-se a fazê-lo.

Pergunto: alguma das almas que considera «Que se Lixe a Troika! Queremos as nossas Vidas» se ergueria no meio da manif. para gritar: «Queremos as nossas Vidas, despeçam 100 mil pessoas»? Hum... não creio.
E não respondam «mas não é preciso». É. O aparelho de Estado tem mais peso do que aquele que o Estado suporta.
«Ah, mas há outras maneiras». Há? OK, digam quais, preto no branco, concretamente, sem facilitismos, romantismos nem demagogias.
«Para começar «Que se Lixe a Troika!»

Meus amigos, se não fora a Troika tínhamos deixado de comer há um ano e meio, e isto é um facto. Pode ser contestado à vontade mas a Torre Eiffel existe na mesma - assim como a falência nacional. Deixemo-nos de romantismos, precisamos ser adultos e racionais.
Não fora a Troika e os lixados somos nós, a verdade é esta doa a quem doer. Só nós podemos sair disto.
Talvez isto vos soe familiar e razoável:
«Queres independência? Acho muito bem. Ganha-a, a refilar não chegas lá».


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2 comentários:

O Pinoka disse...

Alô Alex!

Deverias ter ido ao Congresso Democrático das Alternativas. Ias ouvir alternativas.
Não concordo em grande parte com a tua linha de pensamento, refilar deve ser visto como o início de um processo para a obtenção daquilo que se pretende. Inércia não, por favor.
Beijinho

Alex disse...

Olá Pinoka!

Eu não só contra o refilar, muito pelo contrário, eu sou uma refilona nata; estabeleço uma diferença entre refilar pelo que penso e o refilar por uma acção concertada subreptícia.
Sei bem que divergimos nas nossas visões políticas mas sei também que és uma pessoa muitíssimo honesta na forma como expões e sentes as tuas ideias e opções. Daí que tenha o maior respeito pelo que escreves, em última análise, por ti. Pessoas como tu não me incomodam, incomoda-me quem sabe que reclama o impossível mas estabelece esse tipo de acção como uma prioridade para atingir os seus fins pessoais.
Beijo à Pinokinha.