Ontem terminei o primeiro post sobre Davos relatando uma troca de palavras que não se passou por lá mas no Parlamento Europeu, entre uma deputada europeia dinamarquesa e o secretário-geral da NATO.
Os média reportaram que Rutte não havia respondido à deputada, alguns opinaram que ele se encontrava de joelhos perante a política de Trump. Vistas curtas.
Assim escrevi a minha leitura sobre a resposta de Rutte:
Sei lá eu o que se passou entre a partida de Washington (atrasada 2h) e a entrada de Trump no palco do Forum Económico Mundial, o que sei, eu e o mundo inteiro, é que a ameaça de invasão da Gronelândia desapareceu. O "se não for a bem vai a mal" passou a um "vai a bem" enfático, umClaro como as águas árticas, vamos explicar aos americanos que ambas as costas dos EUA, a atlântica e a pacífica, e ainda o Alasca, de um lado, Hawaii e Porto Rico, estrategicamente importantes do outro, sem os olhos, os ouvidos, as comunicações e apoio dos outros membros da Aliança, 7 dos quais são da região ártica, não ficarão nem a meio da protecção e capacidade de resposta de que usufruem hoje. Só um idiota discutiria isto publicamente. Silêncio não é ausência...
《Preciso daquele pedaço de gelo por questões de segurança, dos EUA e de todos nós, não peço muito mas preciso dele, é "psicologicamente" importante》
e mais um arrazoado de disparates sobre a obrigação moral de lhe entregarem "o pedaço de gelo", a Dinamarca e a NATO, mentiras sobrepostas em cadeia em consonância com o restaurante discurso.
Depois... Depois teve uma reunião com Mark Rutte.
Chegaram a um "acordo", que não foi bem um acordo, foi um "conceito de acordo" (concept of agreement), do qual não deu pormenores, duvido que os saiba, e que será válido sem termo
Não há novas taxas comerciais impostas sobre 8 Estados europeus, não há novas taxas retaliatórias sobre os States, mantém-se o a rectificação do acordo comercial com a UE, não serão bloqueadas companhias americanas, de bens ou serviços, no acesso a mercados europeus, etc.
Que acordo pode estar a ser delineado? Uma presença dos EUA na Gronelândia em que o espaço da base será território americano? Parece o mais provável mas só isso não satisfaz as ambições de Trump, nem dos seus meninos de coro
Convirá ter presente que o SG da NATO, seja ele qual for, não tem autoridade nem legitimidade para firmar, ou apenas negociar, um acordo que envolva a soberania e autodeterminação seja de que Estado for.
O busílis? A última palavra que se pode aplicar a Trump, no fim de uma lista esclarecedoramente longa, é "confiável".
Está programada para hoje uma reunião entre Trump e Zelensky. Hoje mesmo, Witkoff e Kushner, essas duas boas peças, terão uma reunião com Putin no Kremlin. Coincidências de um raio... A última vez que Trump e Zelensky se reuniram, na Casa Branca, estando Zelensky acompanhado por um batalhão de líders europeus e o SG da NATO, Putin telefonou a meio, a reunião foi interrompida e os visitantes acabaram por ficar todos para jantar, o que não estava programado.
Sabendo que Trump está a ser fortemente pressionado por gente poderosa e diabólica, que é menino com uma patológica dificuldade em aceitar um NÃO, serei eu a única a pôr a descabida hipótese de que o homem que escreveu «Considerando que o seu país decidiu não me atribuir o Prémio Nobel da Paz por ter impedido mais de 8 guerras, já não me sinto obrigado a pensar apenas em paz» queira "trocar" o apoio e garantias de segurança à Ucrânia pela Gronelândia?
Obviamente que ninguém lhe entregará a Gronelândia mas ele terá uma nova desculpa para largar a Ucrânia. Tenhamos presente que referiu no seu atabalhoado discurso: "Estamos a milhares de quilómetros separados por um oceano gigante. Nós não temos nada a ver com a Ucrânia, fica do outro lado do mar"
O mal está feito. A vice-primeira da Suécia enviou um recado à administração Trump, cantando a uma só voz com os líders europeus: "É tempo de retornar ao vosso bom-senso e acalmarem-se"
A provar o bom senso e calma na abordagem das complicadíssimas situações internacionais está esta iniciativa de formar, melhor dizendo, vender lugares, na nova invenção de Trump (ou de Miller?) o Board of Peace, um "conselho de segurança" para amigos com interesses coincidentes, incluindo um convite a Putin, o pacificador. Trump disse que Putin aceitou; Putin disse estar a ser considerado "pelo ministério dos Negócios Estrageiros". É uma boa opção para fazer reuniões de negócios, os telefones não são confiáveis e, quando a ONU votar uma condenação desagradável, o Board of Peace vota em sentido contrário e está tudo legitimado.
Alguns senadores republicanos, como Thom Tillis, manifestaram o seu desagrado com o comportamento "desrespeitoso " de Trump e a situação que criou com os aliados da América levando-os a considerar "diversificar" as suas opções comerciais e militares.
E então? Qual é o problema? Desde que o homem consiga os seus objectivos e descubra como se manter na presidência, o resto logo se vê.

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