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EXXONGATE & FRIENDS

A 17 Dezembro último, o ex-conselheiro especial Jack Smith, que liderou os processos criminais federais contra Trump, defendeu as suas investigações da participação de Trump na insurreição de 6 de Janeiro, procurando subverter as eleições de 2020,  e da apropriação ilegal de documentos ultra-secretos no seu resort de Mar-a-Lago, num depoimento à porta fechada perante o Comité Judiciário da Câmara dos Representantes.

A 19 de Dezembro terminou o prazo judicial para a publicação de todos os documentos que compõem "Dossier Epstein"; miraculosamente "apareceram" cerca de 1 milhão mais de novos documentos, perfazendo agora mais de 5,2 milhões de páginas, tendo a sua publicação sido "adiada" para 21 ou 22 de Janeiro. (é muita página e muita tinta preta a cobrir)

 A 31 de Janeiro, véspera de Ano Novo, com a maior parte da comunidade política de Washington ausente devido aos feriados, o Comité decidiu publicar a transcrição na integra do depoimento de 8 horas composta por 255 páginas, em que Smith enfrenta perigos políticos e jurídicos únicos.

«A decisão de apresentar acusações contra o Presidente Trump foi minha, mas a base destas acusações recai inteiramente sobre o Presidente Trump e as suas acções, como alegado nas acusações apresentadas por grandes júris em dois distritos diferentes.
Esta equipa encontrou provas para além de qualquer dúvida razoável de que o Presidente Trump se envolveu num esquema criminoso para anular os resultados das eleições presidenciais de 2020 e impedir a transferência legal de poder.
Tomei as minhas decisões na investigação sem ter em conta a associação política, as atividades, as crenças ou a candidatura do Presidente Trump às eleições presidenciais de 2024. Tomámos medidas com base no que os factos e a lei exigiam — a mesma lição que aprendi no início da minha carreira como procurador.»
Ex-conselheiro especial Jack Smith

 Este fim da semana, o primeiro após a publicação da transcrição do depoimento de Jack Smith, o tempo estava bom na costa venezuelana, o céu estava limpo...

O resultado? Aceitam-se apostas, faites vos jeux...

Sim, Maduro é um assassino, um usurpador, um ditador, um tipo que não faz falta alguma

Mas... Trump não é mandatado seja por quem for, muito menos pelo povo venezuelano, para ir à Venezuela buscar o usurpador à má fila e fecha-lo num calabouço americano. O direito que o assiste para o fazer é exactamente tão nulo quanto o que teria assistido Putin para fazer o mesmo a Zelensky - com a diferença de que Putin não conseguiu

Esta "incursão" em pouco se assemelha ao que se passou no Iraque, onde valia o petróleo, claro,  mas se punham outras questões levantadas pelo ataque do 11 de Setembro. O ataque não veio de lá, Bin Laden também não, mas a ameaça do Irão era real e a ocupação pela ISIS e o crescente terrorismo radical islâmico também. A operação foi autorizada pelo Congresso em 2001 e em 2002 e não teve forte oposição internacional, pelo contrário, teve a participação de aliados. Outro filme...

Também não é semelhante à situação do Panamá há 35 anos; A operação militar dos EUA para depor o ditador Noriega tinha o apoio tácito do povo do Panamá e acabou tendo uma consequências positivas: foi eleito um governo com um amplo apoio da população e o Panamá é hoje uma democracia funcional, soberana.

Esta operação na Venezuela é a retribuição de favores e dólares da Exxon, e da Chevron, realizada num momento em que qualquer boa distração é bem vinda e poderá ainda representar uma mais valia quando se aproximarem as eleições de Nov. 2026. Um país em guerra...

Há poucas semanas a administração Trump foi chamada ao Congresso para explicar o bombardeamento de barcos civis venezuelanos sem apresentar qualquer prova de que transportassem narcóticos. "Esta é uma operação contra o narcotráfico, nada mais". Dispensa comentários. 

Que caia do alto da sua ingenuidade quem acreditou por três segundos que Trump iria entregar - ou fazer o possível por entregar - o governo da Venezuela ao seu legítimo presidente, Edmundo González Urrutia, ou mesmo passar as rédeas à natural candidata impedida de se apresentar, María Corina Machado. “She Doesn’t Have Support”. Gente corajosa luta pela democracia e pelo seu país não é gente que lhe convenha. A vontade expressa dos venezuelanos que se lixe.(Além do mais ficou-lhe com o Nobel da Paz). Numa frase concedeu legitimidade à "eleição" de Maduro, coisa que Biden nunca reconheceu.

Trump, Conferência de Imprensa , 3 Jan . 16h30 GMT - 

«A nossa equipa está a trabalhar com o povo da Venezuela para garantir que temos a Venezuela, certo? Porque se nós simplesmente saírmos, quem vai assumir? Quer dizer, não há ninguém para assumir. Temos uma vice-presidente que foi nomeada por Maduro e agora é a vice-presidente e acho que ela é a presidente. Ela tomou posse como presidente há pouco. Ela teve uma longa conversa com o Marco (Rubio) e disse fará o que for necessário. Ela, penso eu, foi bastante amável. Mas ela não tem realmente escolha. Nós vamos fazer isto bem. Vamos gerir isso profissionalmente. Teremos as maiores companhias petrolíferas do mundo entrando e investindo biliões e biliões de dólares e retirando dinheiro, utilizando esse dinheiro na Venezuela

Jornalista: Os EUA sabem da localização da líder da oposição Machado e o senhor esteve em contacto com ela?
Trump: Não, não estivemos.
Jornalista: Senhor Presidente, o senhor terá algum contacto com ela na segunda-feira?
Trump: Ah, eu acho que seria muito difícil para ela ser a líder. Ela não tem o apoio interno nem o respeito dentro do país. É uma mulher muito simpática, mas não tem o respeito.

Jornalista: Senhor Presidente, é possível que os EUA acabem por administrar a Venezuela por anos, sabe, in situ?
Trump: Bem, sabe, não nos custará nada porque o dinheiro que sai do solo que é muito substancial, então não nos custará nada»

A palavra que Trump mais vezes proferiu durante o seu loooongo discurso - com o dedo de Steven Miller,  o Himler lá do sítio, que colocou no sítio certo a referência à Doutrina Monroe - e nas respostas ao jornalistas: Justiça? Liberdade? Democracia? Direitos? Eleições? Não, nada disso, desmesuradamente Petróleo, evidentemente

Curiosamente...
Menos de 2h depois de Trump falar, a recém nomeada presidente interina Delcy Rodríguez, num discurso bastante desafiante durante uma sessão do Conselho de Defesa Nacional transmitida pelo canal de televisão estatal VTV,   transmitido a partir de Caracas, afirmou: "Os venezuelanos não devem voltar a ser escravos, nunca mais seremos uma colónia". Condenou a agressão dos Estados Unidos e declarou que "as palavras do presidente (Maduro) são as únicas que nos guiam".
«Exigimos a libertação imediata do Presidente Nicolás Maduro e da sua mulher Cilia Flores, o único Presidente da Venezuela, o Presidente Nicolás Maduro»

Em que ficamos?

O que mudou, de facto?
Maduro à parte, muito pouco. 

Até onde irá Trump para mudar o que não mudou ou, posto de forma mais realista, até onde quer ir? Até onde conseguirá ir? 
Duas únicas fichas atiro para a mesa, uma é para a casa do petróleo, a outra para a casa dos militares chavistas. 
Se a actual administração, restante de Maduro,  conceder à Exxon, a mais um ou outro oleoso primo, a exploração do petróleo, Trump nunca mais se lembrará que essa mesma administração era a que "permitia, negociava e promovia a narco-exportação"; se mataram umas centenas de pessoas desde Setembro passado por um pretexto a "culpa" foi de Maduro que não cedeu. Mas... 
Os militares com posições no poder não quererão largar o seu osso. Delcy Rodriguez, mais preparada e hábil negociadora e pragmatica, será apunhalada pelas costas pelos seus comparsas militares. 

A invasão da Venezuela? Muito mais complicada do que parece, mesmo para os EUA. (Há quase 4 anos Putin acreditava que tomaria Kyiv em 3 dias...)

- Qual será o peso da oposição internacional? A Ucrânia será a primeira vítima de pressões sobre Trump...
- Quais serão as consequências da oposição da China, que compra 90% do petróleo à Venezuela onde investiu milhões? Qual é a "moeda de troca", Taiwan?
- Que efeito nas decisões do poder político terão as próximas resoluções da reunião de emergência da ONU?

Anuncia-se mais uma longa novela


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