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Se eu fosse Kadhafi estava na maior

Primeiro foi aquela barracada da libertação de um terrorista que matou 270 pessoas que seguiam pacificamente a bordo de um avião. Já foi há uns dias, já não é notícia, já foi.
Tenho andado a remoe-la, a rosnar para dentro de vez em quando. Bem sei que "não é nada comigo": eu nem sou escocesa e já tenho assunto que exceda o "quanto baste" para rosnar cá com o nosso governozinho... Era só o que faltava agora andar a rosnar ao governo dos escoceses, eles que se amanhem - whisky e Sean Connery aparte, até passo muito bem sem eles.
Mais importante do que não ser escocesa é que não conhecia nenhum dos 270 passageiros assassinados pelo doentinho libertado por "razões humanitárias". Por razões humanitárias? Mas haverá algum virus que ataque o cérebro dos governantes e os leve a pensar que tudo o que lhes ocorre dizer passa a ser credível? Julgarão que os outros, todos os outros, são parvos ou estão-se mesmo "nas tintas" para a credibilidade? ( E para a vergonha, e para a honra e para os seus próprios filhos que têm pais assim).

Claro que os coitados dos Scots foram traídos... A "barracada" passou a ser publicamente escandalosa. Haviam condições acordadas sobre a libertação de al-Megrahi que não foram respeitadas; era suposto a definhada figura chegar a Tripoli sob a maior discrição, nada de festas, de entradas triunfais, de recepção pelo Kadhafi himself.

Bem vistas as coisas esta foi a única parte que achei bem feita. Se eu fosse lider de um país conhecido pela excelência das suas formações de combatentes terroristas e conseguisse a libertação de um tipo, condenado a prisão perpétua, após oito anitos de cativeiro, obviamente faria uma festa de arromba, deitava os foguetes e apanhava as canas enquanto me riria desalmadamente de um Ocidente em crise económica e energética vendido na sua honra pelo preço dos seus mortos, despojado do respeito pelos seus vivos.
Oito anos pela vida de 270 pessoas e vai lá morrer a casa descansado, recebendo o calor dos teus e as honras que por lá te são devidas - por razões humanitárias... Está bem, mas humanitárias por que lado da humanidade? Pelo lado dos que matam, pelo lado dos que morrem ou pelo lado dos que perderam os que amavam?

Tenho de repensar se quero continuar a beber whisky, desconfio que aquilo faz mal, acho que me vou passar para o bourbon ou para o Tennessee whiskey.




Ainda não refeita desta imoralidade absoluta, qual é o meu espanto quando hoje ao abrir a Euronews dou com a notícia da visita de Berlusconi à Líbia e o vejo nos braços de Kadhafi a celebrarem o primeiro aninho do Tratado de Amizade entre Roma e Tripoli.

Se acerca de Kadhafi não se me levantam quaisquer dúvidas, verdade seja dita, vindo de Berlusconi nada me surpreende. Mas... Pelo menos este não vem com a música celestial das razões humanitárias, a coisa é clara: toma lá 1200 Km de auto-estrada para ires sonhando e planeando a "União Árabe" que nem Lawrence, que nem Príncipe Feisal, tu o "Rei dos reis de África"(1*), e, para além do mais leva lá, com a dita, os emigrantes líbios e, sobretudo, somalis que tentam entrar ilegalmente em Itália às centenas. O que depois acontecerá com esses insatisfeitos furagidos do "Reino da Felicidade" (2*), Berlusconi não tem nada com isso, ele nem é líbio... Se se encontram "desaparecidos" 90 desses imigrantes (3*) - que não se podem considerar refugiados - isso é um assunto que não interessa nada agora.

(1*)
euronews – Coronel Kadhafi, actualmente, intitula-se Rei dos reis de África, e o decano dos líderes árabes. Escreveu o “Livro Verde” que trata da questão da democracia, da sociedade e da economia. Esteve na origem de importantes projectos… que lhe resta fazer, Coronel Kadhafi, tem outras aspirações?

Kadhafi
– Na verdade, tenho esperança que a Unidade Árabe possa ver a luz do dia, de um modo ou de outro, pois os árabes conheceram a divisão num mundo de alianças e de grandes entidades.
Estão reduzidos a bocados de papel, tal como uma pluma levada pelo vento. Talvez os árabes já estejam prontos para fazer a Unidade Árabe. Digo mais: espero ver nascer uma união árabo-africana.

(2*)
euronews – Coronel Kadhafi, quando me passeava pelas ruas de Tripoli, pude ler um slogan em destaque que dizia: “aqui onde passeia, reina a felicidade”. Pensa, verdadeiramente, que, 40 anos depois da revolução, o povo líbio é feliz?

Kadhafi – Em primeiro lugar, não vi esses slogans e não sou responsável. Ao contrário de vocês, não posso andar livremente na rua para poder ler esses slogans. E mesmo se passar na rua, é no meio de uma comitiva, e não tomarei conhecimento do slogan. Mas se é assim, as pessoas que o fizeram estão animadas pela boa vontade. Pensam bem do poder e eu alegro-me com isso.

(3*)
euronews – .../... Há um acordo segundo o qual os imigrantes clandestinos devem ser repatriados para a Líbia. E ontem, a Líbia recebeu 90 imigrantes que tinham chegado ao largo de Itália. Que vai fazer desses imigrantes, vão ter direito de asilo ou que se vai passar, exactamente, com eles?

Kadhafi – Não é, absolutamente, uma questão de asilo. O asilo abrange um número limitado de pessoas por razões políticas ou seguir a uma guerra ou a catástrofes naturais. Mas estamos a enfrentar vagas de imigração sucessivas em direcção à Europa por causa da pobreza que reina em África- Os africanos pensam que as suas riquezas foram pilhadas e por isso correm atrás das riquezas. Quando trabalham na Europa, pensam ter o direito porque é a Europa que goza as riquezas de África.

Alex - Sim Côrôné, mas parece-me que não respondeu, que vai fazer desses imigrantes, o que se vai passar, exactamente, com eles? Cadê os somalis Côrôné?


Há pouco, mesmo antes de começar a escrever aqui, abri a página do DN - Globo para ir buscar as respostas do Côrôné; por acaso olhei para a direita, onde se encontram as "Notícias relacionadas", e encontro a seguinte delícia publicitada pela agência Lusa:

«O Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, desloca-se terça-feira a Tripoli para assistir às comemorações do 40.º aniversário da revolução que levou ao poder o actual líder líbio, Muhamar Kadhafi.»

«Também por convite das autoridades líbias, a Força Aérea Portuguesa participará no desfile aéreo,.../...»

«O líder líbio celebra terça-feira 40 anos no poder, um aniversário coroado por recentes vitórias diplomáticas no Ocidente e pela forte influência que o regime de Tripoli exerce no continente africano.

Para a ocasião, as principais ruas da capital líbia vão estar decoradas com milhares de lâmpadas coloridas e os muros da cidade vão exibir centenas de fotografias e frases de saudação ao líder.

As comemorações acontecem dias depois da libertação de Abdelbaset Ali Mohamed Al-Megrahi, o líbio condenado pelo atentado de Lockerbie (Escócia) em 1988, que matou 270 pessoas.»


Ora bem, está visto que o mundo é redondo; É muito redondo e é um mundo onde tudo se compra e tudo se vende desde que hajam camelos e interesses que se sobreponham a tudo o que seria ético e natural. Mas neste ponto a coisa já me diz respeito porque esse Luís Amado não é escocês, nem italiano, nem líbio. Não é sequer um português que possa agir individualmente sem ter de prestar contas seja a quem for; é um Ministro de Estado e Ministro dos Negócios Estrangeiros

(Que bem apelidado este ministério, não dos Assuntos Estrangeiros, das Relações Exteriores ou coisa assim - Negócios - está muito bem escolhido.)

Fará em Dezembro próximo dois anitos que o nosso Governo recebeu o Côrôné, com o seu numeroso séquito, os seus homens armados, e o hospedou gentilmente no Forte de S. Julião - residência oficial do Ministro da Defesa, coisa apropriada - onde Kadhafi montou a tenda e assou carneiros.

(Mas que "panca" esta rapaziada do governo cá do burgo tem por este tipo... Diz-me com quem andas...)

Agora vai o Ministro à festa, vão os aviões da Força Aérea Portuguesa e a malta paga. Espero que esse tal Luís Amado tenha oportunidade de se cruzar com Al-Megrahi durante as festividades, assim ao menos a merda, perdão, o circulo é completo.

Quando nosso José levou o Amado, Luis
à tenda do Côrôné

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