O meu filho, que em Setembro irá para a 1ª classe, teve até agora três "educadoras" de infância, uma por cada ano lectivo. Nenhuma delas se prendeu d'amores comigo. Pode acontecer que eu seja de facto "ingramável" de um modo geral mas estou convencida de que, no que se refere a "educadoras", sou um caso particular e, no que toca à senhora que "nos" calhou este ano, o sentimento é de tal forma mútuo que chega a ser romântico.
Mas a questão que agora me leva a pensar por escrito ao longo destas linhas não é pessoal nem envolve alguém em particular. Infelizmente é demasiado generalizada para que se possa personalizar.
Hoje foi o dia do pic-nic de fim de ano para as crianças das classes infantis e pré-primárias lá da escola: levam almoço, vão para um espaço verde, brincam, pulam, correm. E, é suposto, ficarem exaustas. (Hum... nem todas...)
Fui buscar o Luís ligeiramente mais cedo e ainda estava na sala de aula, proporcionando-me a feliz oportunidade de encontrar a Mestra.
A Mestra muda e queda, após o boa-tarde que manda a regra.
Logo chegou um avô, que ficou à porta da sala, a meu lado, enquanto eu, pacientemente, aguardava que o Luís se despedisse de. Cada. Um. Dos. Colegas. Com. Um. Aperto. De. Mão... Vem de lá a Mestra cumprimentar o tal avó, não esperando que eu ali permanecesse tanto tempo. Um pouco encalacrada gracejou:
- O Luís é um gentleman. (estaria a "comprar-me"?)
- Faço o que posso, rosnei eu amavelmente.
Ela podia ter ficado por ali de conversa, mas não:
- Hoje é tomar banho e metê-lo na cama...
Calei-me.
- Hoje brincaram tanto que é um banhinho e metê-lo na cama...
Rosnei para dentro, calada.
- Hoje é que é mesmo dar-lhe banho e metê-lo na cama...
- Pois, sempre se poupa um jantar, rosnei audivelmente, muito burra sem perceber a Mestra.
E pirei-me!
A principal razão pela qual as "educadoras" não me têm nas suas boas graças é por partirem do princípio, errado, de que eu me estou "nas tintas" para elas que não tenho consideração pelo seu trabalho.
E isto por quê? Porque o Luís chega à escola à hora que eu acho que deve chegar, ou seja entre meia a uma hora mais tarde, excepto quando há algum acontecimento ou aula especial. Não se trata de teimosia ou comodismo. A questão é outra e prende-se com uma decisão que tomei.
Quando o Luís entrou para a escola, ainda de fralda e chucha, foi porque achei que lhe faria muito bem estar com outras crianças, conhecer pessoas fora do "casulo", e passar os dias em casa com a empregada não era a melhor opção - mesmo se fosse comigo continuaria a não ser a melhor opção.
Decidi também que, enquanto estivesse no jardim-escola, não deixaria de estar comigo, e com as pessoas que frequentam a nossa casa, o máximo tempo possível dentro dos limites que considero limites. Decidi que, as raríssimas vezes que saio à noite que ele estaria comigo, ainda que isso pudesse "limitar" também o meu tempo de saída. Decidi que estaríamos juntos para conversar, jantar, brincar ou não, ver televisão ou não, sem a obrigatoriedade do "chega a casa - toma banho - janta - brinca X minutos - bilu-bilu, boa noite, beijinhos, vai-te deitar.
Não e não mesmo.
Tenho a abençoada possibilidade de ir buscar o meu filho à escola a horas que me permitem estar com ele sem ser "a fingir", de não chegar a casa à hora do jantar a pensar que quero é que me deixem, de construir uma relação que vai muito além da correria matinal e das duas horinhas nocturnas.
Embora eu saiba que muitos casos há em que as duas horinhas, ou uma, ou o que fôr, são mais compensadoras e agradáveis do que muitas horas preenchidas com as crianças no quarto a verem televisão ou agarradas aos PC's e às consolas de jogos, ou largadas com "um não me chateies", ou ainda vivências bem piores mas que, pelo menos hoje, não vêm a propósito. A questão não é quantificar, a questão é usufruir do que nos é "oferecido" pela vida.
E não obrigada, não abdico disto por nada, nem por ninguém, e muito menos por um horário escolar que, aplicado a crianças de 3, 4 e 5 anos, tem uma justificação socio-laboral mas não outra.
Claro que conheço os argumentos que defendem que a disciplina começa-se cedo. Conheço várias crianças "disciplinadas" por educações madrugadoras, que mal vêem os pais à noite, e não me parece surtir efeitos particularmente positivos.
Eu própria tive aulas às 8 da manhã durante toda a época liceal, e até depois; às 9 durante a época da primária. Foram muitos anos mas a coisa nunca me disciplinou, está à vista de quem me Vê. 
No entanto lembro-me de jantar com a minha família e de me sentir absolutamente integrada como um membro mais da família. Lembro-me, desde sempre, dos amigos dos meus pais, da minha avó, e de sentir que eram meus amigos, que gostava deles, à parte uma ou outra carta fora do, meu, baralho, e estas ligações permanecem ainda hoje - com os que estão vivos e com os que estão algures.
Isto contribuiu para um firme sentimento de segurança, para estabelecer laços afectivos duradouros, para me ajudar a distinguir entre o real e o passageiro, para que soubesse que tinha sempre a quem recorrer. Também terá contribuído para saber que a televisão é "de todos", para perceber que não fazia nenhum favor em levar os cães à rua e dar-lhes comida, para ter a noção de que por muito importante que eu fosse não era a única a ser importante - todas as pessoas à minha e nossa volta eram importantes. A minha vida não era a escola e, já agora, "o que se passa lá fora do meu quarto quando vou dormir". A vida era o todo com todos.
O alheamento tem consequências sobejamente conhecidas, e sofridas, em todos os sentidos.
Não quero insinuar que as crianças que se deitam cedo porque têm de se levantar cedo estão encaminhadas para o precipício familiar e afectivo. Que enorme disparate! Nem tão pouco que isso implica alheamento.
Estou a afirmar que tenho uma vida que me possibilita usufruir de um tempo que me é precioso e que considero precioso para o meu filho. É um tempo insubstituível e sinto-me enormemente afortunada em poder vivê-lo. Se o Luís chegar meia hora ou uma hora mais tarde ao jardim de infância é para o lado que eu durmo melhor, e ele também. Se alguém dormir mal por isso , pois paciência. Não pretendo convencer seja quem fôr nem sequer que concordem comigo, quero é fazer aquilo que, em consciência, considero ser o melhor.
Tenho muita pena mas de manhã, nós por cá, não conseguimos dar gargalhadas, nem ter conversas assombrosas, nem brincadeiras insuspeitáveis. Nem é logo que chega a casa que o Luís me conta dos amigos, dos problemas, dos medos, dos desejos, das coisas que quer saber e entender, das espectativas, etc. e nunca mais acaba.
É ao jantar, é quando faz ronha para não ir para a cama, é na cama para não adormecer. Os momentos que ele e eu retiramos destes atrasos pré-estabelecidos valem largamente os dúbios prejuízos. Nesta fase a escola é importante mas a casa é fundamental, é o embrião do futuro.
Sei que, dentro de menos tempo do que consigo acreditar, ele descobrirá que existe vida para além da casa, da mãe, da família, dos amigos domésticos. Aliás, ele já descobriu mas também sabe que existe vida para além da escola, e prefere-a, porque percebe que é nesta que encontra as pessoas que o amam.